19/04/2007

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Uma cruel e hilariante e cinematográfica impossibilidade de sermos Nós


Sabes do que menos gosto em ti? De olhar para o fundo da rua e ver que continua vazia. Tu não chegas e eu sei que, na medida dos nossos dias, eu fujo de ti porque tu foges também. E fazia muito tempo que não sentia o vento a passar por mim com tanta força. O que de certa forma é mentira porque o senti ainda ontem de mão dada contigo. Porém, para ti o ontem e o hoje não possuem qualquer relação de causa-efeito e, se hoje somos dois amantes a sonhar ao sol, amanhã vamos ver-nos apenas no relance de duas mãos que se acenam em lados opostos da rua. E, sabes, tenho um medo dormente de te perder. De que amanhã acordemos e não nos reconheçamos mais de mãos dadas com o destino.
Mas depois penso melhor e contento-me assim. Contento-me com essa felicidade estanque de dois amores eternos que não podem ser confessados, nem mesmo às palavras. E então, sei que o que temos são meia dúzia de olhares enlaçados, olhares estes que em breve vão abrir mão de tudo o que partilham e, quem sabe?, se de algo mais também.
E então, sei ainda que as promessas, que roubámos um ao outro em dias que, em bom rigor, nunca existiram, têm uma validade muito, muito curta. Uma validade que parece querer levar-me anos de vida também a mim. Mas não a ti. E é isso que me custa: o quão desimportante e precário é encostar-me ao teu abraço e adormecer nele; o quão simples é ausentar-me da tua vida sem que tu dês conta; o quão injusto é acreditar em linhas paralelas que se prometem cruzar num ponto incógnito do destino, mas que nunca, nunca o conseguirão fazer.
Desculpa se falo sempre do mesmo. A cada fim do dia eu volto aqui, a este mesmo sitio, e sinto a tua falta. Porque tu estás em todo o lado e não estás em lado nenhum.

2 comentários:

Corvo Negro disse...

Eu tenho a convicta certeza de que serás desculpada...

Se realmente fogem... um dia, talvez a fuga se manifeste no mesmo sentido e... bom... que o timido sorriso da aparente surpresa se manifeste.

Stranger à la carte disse...

Este instrumento tem um dom....e partilha-o contigo :)

Bj