07/12/2007

"Para ti, desde sempre,"

Acabou enfim... tu vieste e disseste de tua justiça, que há amores de uma neutralidade tão grande que se anulam indeterminadamente para serem de novo o pó de onde vieram... e hoje, nunca pareceu tão legitimo odiar alguém. E, sabes, tento convencer-me que melhor assim. Para ti, desde sempre.

Vieste e foste,
ignoro se poderás voltar. Ontem, ao partires,
não reparaste que me deixavas menos feliz. Embora
tudo ficasse feito e decidido não sei que incompletude me
abalou – talvez a espera.
Perdi-me absurdamente no caminho e, por momentos,
a luz libidinal do teu pensamento
fugiu de mim. As coisas deixaram
a concretude com que sempre as tinha conhecido.
Sem perspectiva, nem letra.
Ao regressar à terra, não quis escrever no teu caderno.
Arranquei-lhe apenas esta folha. Fui um pobre corpo.
Rasguei-me a mim próprio e quis deitar-me fora.
Por isso te deixo este bilhete.
Vieste e foste.
Não foi por isso que te amei menos.
Em mim, não se realizou a tua conjectura sobre a
ressurreição da carne ________
Reconhecerás tu, neste impulso da visão, uma carta de amor?
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Maria Gabriela Llansol

29/11/2007

Cartas de Coimbra III


Sabes, por mais que diferentes, nada mudou. Nada mudou desde aquela altura em que éramos dois no parapeito de um conhecimento e de uma felicidade que nunca, alguma vez, viriam a ser realmente nossos. Nada mudou desde que eu soube, bem cá dentro, que te amava e que toda a minha tola tristeza era por, um dia, tu ires embora como a mais natural das consequências da vida.
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E nada mudou porque continuo, contudo, a ser sozinha, digas lá tu o que disseres. Sozinha, de um amor impetuoso e obstinado, levando-te o coração nas mãos como dantes, com a diferença de que agora já não em silêncio. Agora com o luxo dos beijos intensos que pretendem compensar as tantas vezes que esperei por ti sem que tu viesses. O luxo das mãos dadas que, apesar de tudo, não consigo trazer quentes. O luxo de uma vida que empurramos prometida mas que hoje, eu sei - nada vai ser como nós quisemos.

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E eu continuo a precisar de mim sozinha, porque tu não me podes entender – não quando eu te digo que penso e sei que a eternidade é demasiado (pouco) para nós dois. E hoje, meu amor, não dói tanto porque também eu vou precisar, um dia, de recuperar a parte de mim que quer ser mais que os homens, e que o amor dos homens, e que as relações dos homens. Também eu vou querer ver o mundo. Também eu vou querer cumprir profecias, roçar utopias com a ponta dos dedo, abraçar o trabalho e esquecer-me de mim. Também eu vou querer seguir com a minha vida, como tu hoje me mandas fazer. E nessa altura, meu amor, talvez me consigas ver de todos os ângulos e não apenas daqueles de que precisas. Talvez consigas harmonizar as palavras com os actos e até mesmo esqueceres-te de ti.

Prometo-te que serei feliz, der lá por onde der…

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Sempre tua,

...

28/11/2007

Cartas de Coimbra II


Esta música custa-me como se te contassem a tua própria vida de trás para a frente. O redor de muitos medos que não costumavas ter porque eras livre para te renderes no mundo sem olhares para trás. Para abraçares os feitiços de todos os homens e de todas as mulheres também. E agora é só o que tens. A tua vida encaixotada na dispensa das vidas, cantada aos ouvidos para que não esqueças que pelo menos tentaste e até acreditaste que podias ser feliz assim. Não fosse o medo...

E esta música custa-me como nos custam os primeiros fins. Custa-me como nos custam as primeiras distâncias, as primeiras certezas, os primeiros impasses. Como te custam as músicas que falam do que ficou por dizer, mas que sentiste em todos os centímetros de ti. Em todos os lugares em que paraste e desejaste ter tido alguém para os partilhares e te partilhares a ti, assim, naturalmente. Agora, peço apenas que oiças. E que me oiças a mim também.

07/11/2007

Cartas de Coimbra I


Sabes... penso em ti todos os dias. Na roda viva deste destino que não escolhi. Nem escolhemos. E, sabes, sento-me todos os dias quando chego a casa nesta cadeira e choro um bocadinho. Por nós dois. Fixo-me no silêncio que sobra quando percebo que vivo sozinha e longe de ti. Mais que isso, choro ao lembrar-me que a tua vida me passa o lado todos os dias e que no meu lugar outras tantas partilham tudo o que em ti me faz falta hoje.
Ainda na outra noite me pediram que falasse de ti. Sem querer, sem sequer esperar, chorei um bocadinho. E, sabes, por mais força, por mais máscaras, por mais persistência que juntemos ao rosto com que enfrentamos o dia... eu sei que no fim, eu vou chegar a casa e sentar-me nesta mesma cadeira e, novamente, tu não vais ca estar, tu não vais ligar, não me vais responder a mensagem que te deixei no computador para quando enfim chegasses a casa, e que depois de tudo isso, eu vou chorar, porque te sinto fugir, porque tu estas longe e eu longe estou, porque outras pessoas entram na tua vida e na minha também e o inevitável custa demasiado.
E nessa noite, por um bocadinho de lágrimas eu disse talvez tudo. Porque a vida hoje não me chega e dá me medo. Medo que um dia volte e tu já não esperes por mim. Hoje agarro-me aos últimos feixes de luz que entram pelos cortinados e escrevo-te sobre estas ultimas lagrimas que me secaram na pele. Amo-te como nunca achei possível. Como nunca me achei capaz. Mas a verdade é que te amo e esse será sempre um motor para perceber que no mundo o que se perde e se ganha é demasiado para admitir a individualidade como uma condição. Vivo de ti e da certeza que compensarás sempre tudo. Tudo, tudo... Da certeza de que sobre as lagrimas secas, outras tantas hei-de chorar. Por ti...

14/10/2007

Para ti, desde sempre,


Escrevo-te de uma secretária que não conheces, ainda. E digo ainda porque espero que venhas a conhecer todos os lugares da minha vida, e todas estas secretárias à frente das quais me sento para te escrever, ou para simplesmente escrever, ou para simplesmente coexistir sentada com a tua memória, com o teu retrato e a falta que hoje e sempre me fizeste.

Tu entendes. A vida é feita destas coisas pequenas e é a elas que me agarro quando sou pequena demais para todas as outras. E as minhas pequenas grandes coisas não são mais do que secretárias decoradas de um vazio figurativo. Não são hoje mais que as canções de sempre, aquelas que me trespassam porque me falam de ti; não são mais que ameaças de chuva, do que gatos pardos a olharem siderados para nós nas tantas viagens que nos habituámos a fazer sozinhos pelas ruas de Coimbra. Estas são as minhas pequenas coisas. As outras, as grandes, as coisas gigantes... essas são para depois. Para quando, passo ante passo, algo sugira que, na distância e nos tropeções, não existe nunca uma meta única. Nunca um desígnio que despeça todas as outras tantas hipóteses de recomeçar outra vez. E é assim que quero viver contigo: sem que nunca uma decisão seja uma sentença de morte para nenhum de nós, sem que nunca, por causa desta vontade de sermos maiores do que as expectativas nos esqueçamos de ser pequenos, sem que nunca paremos de amar as crianças de costas voltadas que fomos.
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E esta é talvez a nossa melhor canção de sempre...

19/09/2007

Coimbra...

Coimbra


A vida deu finalmente a volta ao contrário que eu há tanto tempo anunciava. Mesmo assim, a mesma vida que me trazia desprevenida. E vendo bem, não houve nunca forma alguma de estarmos preparados contra uma vida a fugir-se-nos do colo e a empurrar-nos para as decisões que só deveríamos saber tomar quando fossemos grandes. Mas eu não sou grande. E hoje estou a braços com um destinar demasiado corajoso para aquilo de que sou capaz.
Eu consegui o que queria. Foram três anos de uma interrogação extensa e demorada, de uma luta que não deveria ter levado tão a peito mas que deu frutos. Hoje sou estudante de Medicina e vivo a coisa como o despertar para uma vitória que outros tantos mereceram e não conseguiram. Mas eu consegui e parto, não tarda, para Coimbra. De braço dado com o Deus do meu mundo pequenino a jogar aos dados e a empurrar-me para longe de ti e de tudo o que é certo para mim. Coimbra. Coimbra, Coimbra, Coimbra. Todos me prometem um fundo nostálgico para os anos que serão os melhores da minha vida, apesar de tudo. E apesar de tudo, tu estás longe e eu não estou bem. E se não és tu que eu perco no meu novo céu, então sou eu que me perco nas ruas que descubro agora. As ruas de Coimbra.
E, sabes, peço, frequentemente e em segredo, para que o Deus do meu mundo pequenino me dê forças, porque, um dia, eu sei, chegarei a casa e quererei desistir. Tudo o que vejo é negro e chuvoso, tudo nevoeiro cercando uma vida que, de hoje em diante, é sozinha que se vê, na deriva de um universo de tradições, capas e batinas. Não foi isto que eu sonhei para mim. Mas é isto que tenho.
Hoje tudo é precário e vale mais que todas as palavras que te hei-de dizer na hora da despedida. Porque, afinal, não és o único que deixo para trás. Hoje, ainda em casa, tudo é seguro e esta falsa segurança quase me garante que vai correr tudo bem. Mas ambos sabemos que não, que nem tudo vai correr bem. Hoje tudo é uma contagem decrescente. Uma contagem decrescente para o primeiro dia do resto das nossas vidas.
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Caso para dizer... se te perguntarem por mim, diz que Voei...

25/08/2007

Um Particípio Presente Mais Que Perfeito


A vida rodou três vezes, no desejo palerma de que nunca jamais te vás embora. Agora eu entendo que és o melhor dos homens, o mais feito à minha escala, o mais moldado às minhas vontades, a mais sibilante palavra que, de hora a hora, me apetece que digas de novo ao meu ouvido. Fui embora e voltei, e Barcelona foi a cidade mais demorada de toda a minha história. Tu chamavas por mim a todas as horas e, do lado de lá, eu não podia ainda voltar. Agora vais tu embora e não tarda, no consentimento de todos os que nos olham de mão dada no metro, talvez um dia te vás sem data de regresso marcada. Depois, enfim, terei de esperar por ti num dia nublado e triste como este, rumo à rua de Santa Catarina, no Porto. Aí te espero. Quando nos tivermos esquecido um do outro, apesar de todas as juras de eternidade que ambos não quisemos verbalizar.
E nesse dia, meu amor, tomara que possamos continuar tudo aquilo que deixamos em suspenso. Tomara que tudo pareça igual ao que é agora, que me ames com a mesma intensidade com que as mãos se procuram agora, com que os olhos se fecham e os lábios se esquecem de tudo. Tomara que a minha voz te continue a parecer familiar. Que o sabor dos teus dedos finos continue igual. Que tudo possa ser como é agora. Um Particípio-Presente-Mais-Que-Perfeito.

10/08/2007

À vossa espera...


As férias costumavam ser para mim um poço bem fundo de palavras. Um poço que nunca secava porque havia ainda muito metafísica por entender e muitas experiências por adivinhar. Hoje sugiro-vos outras Palavras. Alguma poesia. Um nome que espero que registem e que lhe reconheçam o talento que eu lhe reconheço.


Se não tiveram ainda o prazer de conhecer, apresento-vos o meu actor e poeta preferido. Pedro Pinto. (H)A Espera...
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Vamos , vamos partir sobre as cidades cobertas sob gritos e mãos que se quebram dentro de si mesmas.
Recolhemos os passos rápidos num segredo quieto que fica por dizer já num sorriso escondido(...)

29/07/2007


O que eu não contava era que tu um dia me viesses a amar assim. Tão veementemente. Eu sempre achei que ambos os dois amaríamos, por destino, com a indiferença dos homens lúcidos. Eu sempre achei que meditaríamos sobre todos os nossos passos em frente e sobre todos os nossos passos atrás. Eu sempre achei que nunca jamais te ouviria dizer as coisas que me dizes agora. Essas coisas que nunca se querem ouvir quando se ama de menos ou não se procura ser amado demais. O que eu sempre quis foi que me visses. Que entendesses e prolongasses este meu fascínio por ti. O que eu sempre quis foi que me soubesses dizer Não com o jeito autêntico dos egoístas e que me prendesses a ti pela ocasionalidade deste nosso segredo adiado.
O que eu sempre quis foi poder amar-te sem medo do tédio ou de um qualquer enfastiamento precoce. Sem medo dos teus olhos vidrados e das tuas mãos suadas. Sem cansaço para o teu peito, sempre necessitado de encosto. O que eu sempre quis, o que eu realmente sempre quis… foi que reparasses em mim. Que me visses quando passava por ti e combinava contigo um café para mais tarde. Quando me dizias que Não por mero desinteresse.
O que eu sempre quis e o que eu realmente queria… é que não tivessem havido momentos de solidão. Que tivesses notado mais vezes no meu penteado novo. Que me tivesses convidado para tomar café contigo todos os dias. O que eu realmente quis foi ter podido impressionar-te ao segundo ou terceiro sorriso.
Mas isso agora não tem volta. Aprendeste talvez o quanto custa amar sem retorno. Mas achaste por bem amares-me mesmo assim, de qualquer maneira. Perseguindo o meu rosto e os meus braços ainda brancos, contanto os minutos para que eu voltasse para ti, mesmo vinda do abraço de outro. Agora falas de um amor diário e com rotinas. Falas da necessidade de me ver. Falas de uma saudade que eu não sinto. Tu agora és diferente. E, curiosamente, eu também. Sou capaz de prender-te e, porém, de te deitar fora também.

23/07/2007

Closer

Sempre quis escrever sobre este filme. Closer. Perto Demais. Um hino triste às relações.

Antes de mais preciso que saibas que não sei do que falo. Sou demasiado nova, demasiado ingénua e demasiado insegura para falar como argumento de autoridade. Coisa que não sou. Mas olho e vejo as pessoas a mudarem à velocidade da luz, olho e sinto que não sou capaz de suportar a inevitabilidade dos “felizes para sempre”.
Não se trata de não sermos capazes de amar. Porque somos. Somos mesmo… Amamos, mais não seja, aqueles que nos trouxeram ao mundo, amamos o nosso ego e os nossos valores. Porém, as relações humanas encerram coisas que desviam a nossa atenção para os detalhes errados. O Ciúme. Os Caprichos. A Traição. Uma perfeição que não existe em lado nenhum.
Penso nas relações que duram anos e anos. E fico siderada com isso. E depois olho e procuro pela individualidade de cada uma das partes. Uma individualidade esbatida num compromisso estranho e que, apesar de tudo, existiu desde sempre. Onde pára a noção de felicidade quando as pessoas parecem estagnadas, conformadas, à procura de relações paralelas, de mentiras piedosas, de fugas rápidas e silenciosas? Quando precisam apenas de fazer valer os seus compromissos para não se enfrentarem. Para não darem por si sozinhas. Quando tudo é feito para se estar encaixado nalgum lado. Para se seguir um estilo de vida adequado. Para se ser livre, preso num amor que é precário e que põe condições. Não sou capaz de conjecturar a eternidade de coisa alguma. Mas essa eternidade acontece e eu não consigo entender como. Ninguém permanece imune ao Tempo. Nem aos Acasos, nem às Tentações, nem a nada…

Closer celebra um amor leviano que cruza e descruza quatro vidas. Quatro vidas inverosímeis talvez, mas abraçadas a um tipo de amor bastante provável.

21/07/2007

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Olho e sei que estou num ponto de viragem. Amanhã não sei o que me acontecerá, nem a ti, nem a ninguém à minha roda. As filosofias estão perto de se perderem e a vida de passar a andar ao contrário. Deus não joga aos dados, mas nós parecemos jogar. Escolher assim o nosso fim sem a pressa que a angústia devia dar-nos. Temos medo do resultado final. E um dia falaram-me da beleza inatingível dos sonhos, como se isso fosse coisa que eu pudesse inverter, tocar ou lidar. Os sonhos não são bonitos. Os sonhos são estranhos. São confusos. São fugas estranhas de uma ideia que encerra em si uma simbologia demasiado sólida e áspera para que se fale de beleza. Os sonhos não materializam desejos. Não são doces. Nem simples. Os sonhos perdem-se num universo do qual não nos lembramos porque dormíamos enquanto ele acontecia.
Eu tenho saudades de quando era pequenina. De quando apertava nas mãos um destino com todas as hipóteses de futuro por definir. Quando eu ainda não era o que sou agora. E agora percebo que não é um sonho, mas um desejo, essa vontade tonta de puder voltar atrás e descobrir que, afinal, voltaria a escolher da mesma forma.

16/07/2007

A precariedade e a validade do Mundo


A minha maior convicção é que serei sempre a única pessoa que me acompanhará a vida toda. E a precariedade e a validade de todas as outras pessoas é, não apenas uma resignação, como também um alívio e às vezes um desconcerto que me torna pequenina aos olhos do mundo. Eu não acredito no destino, como já o disse tantas vezes. Eu acredito em Deus, como tantas vezes o insinuei. E escrevo pelo prazer que é provar que, pelo menos disto, sou capaz.
Acredito simultaneamente que o mundo é pequeno demais para que as pessoas da nossa vida se percam impassivelmente de nós. Vivo nessa esperança acesa de que em qualquer esquina, em qualquer fila de supermercado ou em qualquer estação de metro esteja uma cara conhecida de outros tempos. A tua eventualmente.
É como aquelas estranhas coincidências que nos fazem esbarrar com o mesmo sujeito dias seguidos, como se nos andássemos a perseguir mutuamente. É o primeiro Olá que o sorriso de engate traduz, quando à tua volta tudo é som e música e tu o que queres é ser levada pelas estrelas. É o segundo olá quando de manhã acordas e ainda te lembras do que sonhaste. O terceiro, enquanto não tens lume para lhe dar; o quarto quando descobrem que o mundo é afinal um mundo de acasos e de coincidências que se encaixam na perfeição. Quando vocês dois foram feitos para trocarem esses olhares inflamados e seguirem destinos diferentes. E depois não serão precisos mais sorrisos. Chega-nos o rosto. A presença de um desejo que te tenta a seres infiel a ti própria.
Hoje acordei e o que eu mais queria era trair-te. Embarcar numa viagem bem rápida para me sentir bem comigo própria – quanto engano!, dirias tu. Mas é o que sinto. A falta das frases clichés, da troca de números de telefone, de cafés a serem prometidos e, um dia, para nosso desgosto, a serem cumpridos. A falta daquele bicho mau que é a vaidade, a luxúria disfarçada de carência.

14/07/2007


O problema com a nossa época é que ela tem muitas placas de sinalização e nenhum destino.
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10/07/2007

As minhas desculpas a todos os que comentaram o texto excluído. Por motivos de desmotivação tão óbvia quanto o meu pessimismo, achei que tê-lo publicado era um luxo a que não me devia ter dado. A incerteza de um futuro e tudo o que tenho a perder é demasiadamente grande. Demasiadamente provável, acrescento.
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Às vezes, mais valia termos sido mediocres e pequeninos...

04/07/2007

(foto de Katarina Sokolova)

A verdade é que, de quando a quando, lembro-me que um dia me apaixonei por um completo imbecil... É raro, nós humanos, andarmos por aí distraídos, sem o rancor de um gesto e de duas opções mal estudadas – um beijo, o começo e o fim de uma relação. Agora parece que nada resta desses dias que já lá vão e que, mentindo, dizemos não sentir falta. Pergunto-me se era suposto substitui-los. Eu cá não acredito em pessoas insubstituíveis. Ainda que eu persiga desesperadamente esse estatuto no mundo de todos os que me rodeiam. Paranóia minha, obviamente... Há coisas difíceis de entender. E outras tantas de dizer. E que sendo assim, nunca se dizem. São feitas de uma sinceridade que ninguém quer ver partilhada. E, por isso mesmo, nós, peregrinos de uma forma de amor demasiado venal para se materializar, continuamos inertes face a um desconcerto total que a vida provoca em nós. Falta-nos poesia. Faltam-nos coragem, frieza e intolerância. Falta-nos qualquer coisa que, de alguma forma, nunca nos dê tréguas e que jamais nos permita desistir. Uma estrada cheia de curvas apertadas que percorremos com a destreza de quem é, simplesmente, capaz de tudo. Haja perfeição na humanidade em que persistimos sempre que erramos e sempre que fazemos juras de amor no peito errado.

24/06/2007


Esta é a linha do entendimento que fazemos das coisas. Linear. Linearidade. Linearmente. Capazmente, com um inicio e um fim, não importa se partimos de A para B, ou de B para A.

É por isso que a matemática é importante para os que se preocupam com os pormenores. Porque matematicamente nenhum caminho é igual conforme a perspectiva que temos. Será sempre diferente, a paisagem, o módulo da força motriz que te empurra numa viagem de regresso, os custos do coração, a traumatologia de um sorriso captado cedo de mais. O que eu sei é que os felizes não concebem filosofias. Vivem-nas e melhoram-nas. Os felizes não escrevem poesia. Nem sequer má poesia. O que eu sei é que serei sempre incompleta: faltar-me-ão sempre a felicidade dos tontos ou as palavras dos lúcidos. As mãos cheias de tudo ou o medo de perde-las. Faltar-me-á sempre paixão pela vida ou a própria vida. Nunca terei as duas coisas em simultâneo. Nunca serei completa. Quer eu enviese pelos caminhos de sempre ou por novos destinos. Quer eu aprenda a amar-te como amam os tontos, quer eu te minta como mentem os lúcidos.Mas isso agora não importa. Não sei escrever-te com postulados lógicos para que depois possas deduzir que sou assim ou assado. Eu sou um emaranhado de sentimentos que se renovam de hora a hora, segundo o que a matemática e as circunstancias ditarem. Por isso preciso que me conquistes todos os dias. Preciso que sejas difícil. Um mistério que me afunda no calor mais ténue do mundo e que permanece insolúvel.

20/06/2007

"This years love had better last"



Convido-te a que te olhes ao espelho e que procures pelo teu dia seguinte. Ergue uma escada até ao topo da consciência reflexa que é a tua imagem. Descobre, de uma vez por todas, que és a consciência da tua imagem e que ages, por norma, como se tivesses a tua imagem por consciência. Uma mulher, esteja ela feita ou por fazer, tem uma memória demasiado grande para se esquecer das tantas vezes que te esqueceste dela. Das tantas vezes que a deixaste de plantão à espera de um abraço que nunca veio. Que a amaste e tiveste vergonha de prova-lo a ti próprio. Uma mulher, seja ela grande ou pequena, não precisa que a adores, nem sequer que te apaixones. Espera de ti apenas o mesmo que exige de si. Presença. Sentido de oportunidade. Principalmente, sentido de oportunidade. Lamento que venhas tão tarde para dizer que me adoras. Eu esperei a vida toda e hoje descubro que tenho ainda uma vida inteira pela frente. Tive medo da iminência das tuas partidas definitivas e, de repente, conquistei um lugar dentro do teu espaço. Inverti os nossos caminhos paralelos. Comecei a prever-te, a saber o que dizer. Comecei, acima de tudo, a desistir. E só, então, tu tiveste tempo e vagar para me encontrares. Quando, na verdade, eu estive sempre aqui ao teu lado.
Ouves esta música? Foi o primeiro motivo que me destes para desistir. Eu partilhava contigo o bocadinho de insuficiência que era e tu não notavas. Nem tu, nem mais ninguém - só ele. Só ele… Não podes, pois, fazer-me crer que ele só me trouxe mal, quando eu sempre te procurei a ti nos lábios dele e tu não me soubeste atender.
A vida é eterna em 5 minutos, sabes? Durante os meus 5 minutos. Os meus 5 minutos de eternidade quando olho para o relógio e reparo que tu não vens mais. Nunca mais. E ele, ele virá, porque ele vem sempre. Basta chamar. Mas tu não. Tu nunca vens. Tu escolhes os teus 5 minutos e reparte-los de forma a somares segundos perdidos nessa tua vida de intermitência e de amores adiados. Preciso que pares de ser apenas espírito e te tornes homem. Pelos menos, por 5 minutos. Durante os meus 5 minutos. Não importa o sítio. Por hoje até te deixo subir. Quero ter a certeza que por 5 minutos me pertences e que, ao me abraçares, é a mim que abraças e a mais ninguém.

12/06/2007

Normalidades...

Não chega estarmos moralmente aprovados pelos códigos comportamentais que a Ética determinou e que a sociedade elegeu. Vendo bem, não chega sermos honestos, sermos justos, sermos modestos. Temos que ser saudáveis física, psicológica, emocional, espiritual e intelectualmente. Temos que viver imunes aos traumas que toda a gente tem (menos nós), ser respeitadores da ordem e do silêncio públicos, saber a vida de toda a gente e de ninguém. Temos que ser heróis, sobreviventes de uma doença qualquer que mistificou o nosso comportamento, temos que ter um calcanhar de Aquiles e ser simultaneamente perfeitos à luz de todos os contextos. Temos que perceber matemática, ler poesia, ser dois génios numa só pessoa, emocional e objectiva, artistas apaixonados por tanta arte que não chega efectivamente a ser arte, cristãos convictos que se dão a si próprios e que recebem nenhum, ateus frios e calculistas que pegam o touro pelos cornos e que sabem que nenhum deus lhes pode valer senão eles próprios. Temos que viver para os outros e para nós próprios. Ser simples e humildes, ambiciosos e tenazes. Temos que respeitar os outros e fazer pela vida tudo o que a vida exigir que façamos. Temos que fazer voluntariado, escrever num blog, praticar desporto, ter um gato, sair à noite e estudar espanhol. Temos que ir para a faculdade e ter um part-time num call-centre. Temos que ser originais, mas nunca excêntricos. Temos que ser bons mas nunca parvos. Bonitos mas nunca estúpidos. Perfeitos mas nunca ídolos. Temos que ser normais. Absurda e fanaticamente normais, não importa quantas incongruências isso implique, quanta falta de sentido lógico isso exija. Acima de tudo, dar resposta a tudo o que o mundo exigir de nós. Não vamos aprender com os tropeções da vida, somos escolhidos muito antes para que garantamos que não vamos tropeçar em momento algum da nossa vida. Vida esta que acreditamos ser passageira ou cíclica, duas filosofias numa só, o perfeccionismo a todos os níveis e sob qualquer ângulo.
Irrita-me viver assim. Irritam-me as pessoas formatadas de um único modelo, que partem dos mesmos ideais, que consomem as mesmas drogas, que gozam férias nos mesmos sítios, que se vestem de igual, que lêem as mesmas coisas, que são únicas e especiais de corrida, que não fodem de noite nem dormem de dia. Que estão gordas o ano todo e magras apenas aos olhos dos médicos. Que estão actualizadas mas não sabem discutir política. Que falam falam, mas que nunca dizem nada…

09/06/2007

Fim do Princípio, dizem eles...

(sem título)


Estou doente. Absurda e francamente doente. Logo nesta altura do ano, quando eu deveria estar no meu melhor, perfeita para te merecer, capaz para ultrapassar os contratempos das horas em que estamos longe um do outro. Os exames nacionais estão a bater-me à porta, tal a imagem da Morte vestida de negro munida de uma foice para nos levar a lucidez e as últimas forças. Parecendo que não, acabei ontem o secundário e espero não ter de voltar a sentar-me naqueles bancos de escola. Foram doze anos e do que eu preciso mesmo é de férias. Mas não as vou ter. Não ainda. Falta agora dar o litro, vestir a camisola, fingir que afinal não estou doente e que destas próximas semanas depende o resto da minha vida. Depois logo se vê. Se as faculdades têm lugar para mim ou não. De que material sou eu feita e por quanto tempo fui feita para durar.
Estou cansada… imensamente cansada… seguro a cabeça nas ombreiras das portas, durmo de dia porque de noite oiço as dores de ouvidos, penso em ti e na impossibilidade de te ver enquanto for melhor assim para os dois. Estou cansada… imensa e absurdamente cansada… Não tenho sequer espaço para a nostalgia. Para a saudade. Só tenho espaço para a razão prática que me ensina a somar logaritmos com equilíbrios químicos e com forças electromotrizes. E, claro, tenho também um espaço cativo para ti e outro para Deus, luzinha de cabeceira que me dá sarcasmo o bastante para que tudo isto seja uma brincadeira de crianças e a realidade um sonho mau.


Gosto de ti e dói-me a pontinha de espírito que mostra que tenho limites...

02/06/2007

6.ª Edição do Canto de Contos

Há que perceber. Gosto dele e o Porquê disso tudo não se esgota no facto de ser meu pai. Há que ter em conta a sua forma de ter Sido e de agora ser a sombra do que foi. Talvez o individuo mais notável de sempre. Sem dúvida… o Homem mais capaz, com a arrogância dos poetas cultos, as ideias dos políticos moderados, o sentido de humor de um menino de aldeia que hoje é o mais letrado dos homens, o melhor dos profissionais, o meu pai.
Ele já leu a biblioteca inteira, e pressupondo que isso até é verdade, o que ele escolheu ler foram os clássicos, os Émile Zolas e os Jules Vernes, os Torgas e os Tolstoi. Ele deu mil e uma voltas ao mundo em oitenta dias, naufragando na pessoa tão imediata que é ao duvidar dos génios e dos inovadores. Ele cursou e mestrou, falou-me de filosofia e de física, ficou em silêncio quando devia ter falado, percebeu tudo o que fiz e escondi a vida toda. Porque ele sabe, eu sou igual a ele...
E além de tudo isso, ri de piadas sem graça, vive do e para o desporto que a televisão e os jornais transmitem, não perde um jogo das ligas inglesa, espanhola ou portuguesa, é burguês, bebe cerveja e fala comigo sobre Pessoa, religião e cinema. É autoritarista e desarrumado. Tem o melhor coração do mundo: dá, acha que necessariamente tem de dar e fá-lo com um desprezo notável pelos motivos com que o faz. Fá-lo com a lógica matemática como só os homens mais geniais do mundo conseguem. Racionalizando a bondade. Achando-a tão óbvia e fácil que nos mete confusão como podem as coisas ser diferentes noutros lugares.
A vida com ele é difícil. E porém, sem ele, seria muito mais. Sei que, da idade de onde falo hoje, nada seria possível sem o seu apoio. E é a mais absurda das verdades quando digo que foi ele que me deu o mais fantástico dos votos de confiança. Ele é a minha Pessoa de eleição. Diga lá eu o que disser… :)
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Este post surge no contexto de um desafio literário, cujo tema é uma Pessoa à escolha de cada blogger. Os desafiados foram:
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29/05/2007


Tenho um medo dormente de te magoar. Um medo dormente de te perder. Um medo dormente, um medo medonho, um medo apavorado. Um medo escuro, mal definido, frio e trémulo, um medo imensamente vazio. Um medo incomensurável…

(Preciso de me ouvir para te poder escrever todas estas coisas – pois as ideias flutuam cá dentro a meia luz, quando sinto o repetir das tuas mãos nas minhas mãos e da tua voz na minha voz.)

Tenho um medo dormente e desgastante que me mostra porque nunca relação alguma funcionou comigo. E, contudo, eu seria capaz de magoar qualquer um, mas não a ti. Acho que não precisaria do inferno para me condenar, eu mesma me condenaria a um inferno de vida onde o remorso nos engole e suga até à raiz inocente do que ainda somos.
Por isso mesmo, tenho medo. Medo de dar os passos errados, mostrando-te a parte de mim que não faço questão que conheças. A parte estupidamente vidrada no efeito banal que os corpos conseguem quando se entregam assim, de mão beijada. A parte de mim que não questiona nada e garante um amor de poesias com fenómenos de telenovela. A parte de mim que tropeça nos mesmos erros a cada novo encontro. A parte de mim atormentada pelas dúvidas, dividida por formas de afecto que nos assustam, e aproximam, e afastam, e existem para adiar a felicidade plena que deveríamos ter encontrado hoje, ao virar da esquina.
Tenho um medo dormente de não ser o que procuras ou que nos tornemos naquilo de que sempre fugi: os amores condenados à rotina, às comparações, aos registos de memória sobre o que falámos e fizemos, e não falamos, não fazemos nem somos mais… Queria ter tempo para descobrir que o medo não tem razão de ser… Mais que isso, queria ter uma bola de cristal que me mostrasse que a vida nos promete pelo menos um Natal juntos. Pelo menos um lugar na memória para que no futuro não sejas mais um, para que no futuro eu procure outros tantos iguais a ti, comparados a ti, mais pequenos que tu, invisíveis ao teu lado.
Tenho um medo dormente de te perder.

18/05/2007

Ponto Final, Parágrafo

Vieste enfim. Este blog deixou de ter motivos para existir. Descobriste-me… descobriste-me com a literalidade mais ampla que as palavras podem ter.
Numa semana as coisas mudaram e eu sinto-me igual. Talvez porque não acredito que as coisas tenham realmente mudado. E eu confessei-te, e tu confessaste-me. E a imensidão de textos que te escrevi até hoje são, afinal, indícios de afecto demasiado falsos, demasiado meus, indícios que não falam de como realmente me senti durante estes últimos meses, arrastada num semi-sentimento, que não era nem saudade, nem a isenção desta.
Quero realmente que este texto seja um ponto final, parágrafo. Que entendas que leres e saberes, enfim, que é para ti que sempre escrevi, faz toda a diferença. Impedir-me-ia de continuar, ou não tivesses tu prometido que jamais voltarias. Ou não fosses tu entenderes que esta é a minha única forma de liberdade garantida…
Porém… não sei que te adiante mais. Sem que te o dissesse, saberias responder a quem te perguntasse por mim, que voei. Sem que me ouvisses, lerias na minha expressão tudo o que precisarias de saber. E a única coisa que não sabes e que não poderias, de forma nenhuma, saber… é que dentro de mim ecoa todos os dias a mesma e repetida pergunta.
Onde estás?

14/05/2007


Fui correr hoje à tarde, sabes? Até não poder mais. No sítio do costume, com a companhia de sempre. Com os mesmos motivos nas palmas das mãos fechadas. Tu e Ele. Nós os dois e nós os três. As aulas, o tempo, o futuro, o destino que escolho hoje e sobre o qual sei tão pouco. Os motivos de sempre a latejar-me no peito sem ar. E depois começou a chover. E eu corri com mais vontade. Quanto mais depressa, mais inevitáveis esses motivos. Menos a culpa das decisões mal tomadas. Menos o medo de agir mal e de ser obrigada a voltar atrás. E depois… depois choveu ainda com mais força e eu parei. Na paragem do autocarro de sempre. Reparei que os passageiros eram quase todos os mesmos. Facto sem importância nenhuma, mas que tu terias reparado. E terias encostado o rosto à janela molhada e acompanhado o ritmo da chuva como se fosse o teu próprio ritmo cardíaco a abrandar. E depois… depois não haveria depois. Irias assim, dormitando na chuva, nos sonhos salpicados de uma vida tão macia quanto o meu cansaço. Gosto de me sentir assim e de te lembrar assim. Como se toda a energia fluísse em mim, numa corrente suave e imparável, com ritmo e destino certos. Até a um espaço de certezas. E amanhã é outro dia. Para ti e para mim. Não importa se esse espaço não tiver sido ainda conquistado. O que importa é poder ver-te fixar-me e não restar dúvidas que existes, quiçá que existimos.

11/05/2007

Um ano depois...



Faz um ano que o mundo parou e vestimos o luto. Sofremos muito… e depois a vida voltou aos carris, como não podia deixar de ser. Faz um ano que ele perdeu um pai e ela um marido. E fomos todos sentir com ela a dor imensa de um acontecimento para o qual não tínhamos ensaiado. O mundo parou. Literalmente. E nós, parados com ele, viajámos até lá, até onde as origens nos levam. Eles foram no próprio dia mas eu tive de esperar. E esperei. E depois, embarquei enfim na viagem mais silenciosa da minha vida. Acho que nem me ouvia a mim mesma. Toda eu era silêncio. Uma espécie de cimento endurecido, mal vestida, com o primeiro preto que vira no armário, com a expressão petrificada que me ficara desde que ela dissera “O avô morreu”.
A vida é mesmo assim, dizem. E assim mesmo é a nossa desorientação quando algo falha. Hoje sei que naquele dia algo falhou para que algo mais se encaixasse.
O tempo passou demasiado depressa. E ele foi o único avô que conheci. O único que me conheceu, o único que me ensinou canções de Natal. O único avó que me falara de outros tempos, que emigrara, que regressara. Mas minto-te se te disser que é nisso que penso quando aquele dia me pesa. Minto-te se te disser que pensei nele todos os dias da minha vida. Porque não pensei. Mas pensei todos os dias no meu pai. Na voz carregada de um remorso estranho de quem fez na vida tudo o que havia para fazer e fê-lo bem.
Todos os dias penso em como foi importante que as pessoas, por um dia, soubessem quem eu era e me dessem os sentimentos. O artificio dos gestos que são afinal importantes. Demasiadamente importantes. Tal como a precariedade da vida.
O mais importante foi sem duvida o manifesto de amizade que alguém trouxe. A manifestada presença de tantas pessoas, que não serviam afinal para conversas de café apenas. E que estavam ali, porque sentiam a obrigação de ali estar, não para enterrar os mortos, mas para abraçar os vivos.
Naquele dia eu teria carregado de bom grado a tristeza do meu pai. Eu teria dado tudo para o aliviar. Há pessoas que nós julgámos a vida toda que não choravam, mas que naquele dia choraram. E nós choramos com eles.

Hoje, onde quer que ele esteja, sei que o avô é senhor da Verdade que todos procuramos. Hoje, com pelo menos um ano de avanço sobre nós, ele saberá se estamos certos ou errados quando amamos desta forma, quando aclamamos Deus um Homem pregado numa Cruz, quando recordamos todos os anos os nossos mortos.


Porque eu acredito nesse Homem pregado numa cruz. E na precariedade da vida também. E nas segundas, terceiras e múltiplas oportunidades que a vida trás e reinventa.

08/05/2007

6.ª Edição do Canto de Contos

Caros Escritores,

Está lançado um novo desafio! Convidam-se membros e não membros do “Correr da Pena” (e todos os que se quiserem juntar a esta iniciativa) a participar em mais um Mote literário. A ideia é publicarmos em simultâneo, no mesmo dia, à mesma hora, um texto (literário ou não, abordado da forma que quiserem) sobre um tema predefinido.

O tema deste novo desafio será dedicado a Uma Pessoa. Escolham-na. Uma pessoa importante, como um pai, uma mãe, um irmão, um avô, um melhor amigo, um namorado, um filho, um professor; ou uma pessoa não tão importante mas REAL, como uma vizinha, alguém com quem nos cruzamos todos os dias, o homem da banca dos jornais ou do café da esquina, o carteiro, enfim… quem quiserem. O importante é que rode em torne de alguém a quem possamos dar forma, personalidade e espírito (e contexto, já agora…). E idealmente… que seja real.
A publicação deve ser feita dia 2 de Junho , às 21h30 (data e hora sujeitas a alteração caso não forem adequadas para alguém).

Convidamos desde já os seguintes bloggers…
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:)
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P.S. - Para qualquer outro esclarecimento, contactem comigo (Beatriz), com a Vanessa ou com o Pedro Pinto

06/05/2007

When "2 become 1"...


Fecho os olhos e sustenho tudo o que sou e devia ter tentado ser. Estás à distancia de uma mão cheia de improviso e de um abraço com que te digo tudo o que posso, excepto a verdade; essa verdade que não se diz nunca, resumida a sensações que não têm nunca tradução em palavras ou gestos. Como aquelas paixões miúdas com as quais contámos a vida toda porque jamais poderão ser mais do que isso. E um dia elas tornam-se realidade e tu persistes ainda numa distância que não podes negociar comigo. E nesse dia eu preciso de ti, como nunca alguma vez precisei de alguém, e tu estás longe: disperso numa imagem que guardo sobre o areal de um sonho, de um sonho onde sou eu e é ele, junto a mim, e tu perdido na hipótese de como teriam sido as coisas se fosses tu, e não ele.
Queria enfim dizer-te mais do que o que o bom-senso sugere. Numa carta aberta, sem o risco de mais um desencontro. E então contar-te que existem coisas que desejamos demais para que, de alguma forma, se realizem. E se tal acontecer, será afinal só mais um forma camuflada de nos roubarem os sonhos, as fantasias. E não importará afinal que a tua distância se conte em quilómetros, horas ou numa outra forma sobre a qual eu nada possa. Porque tens sido tão mais real no meu imaginário do que a mão dele no meu ombro e na minha vida. E talvez por isso não careças de sol, cuidado ou sedução. E se estás ou tiveste ausente, eu reparei. E é para ti que escrevo. Hoje e talvez desde sempre.
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29 de Dezembro de 2006

03/05/2007

De uma estação ausente: só, contigo

Já não sei o que somos. Talvez dois pássaros que se prezam mais a voar do que presos a uma mão que garante apenas um regresso seguro. Já não sei o que somos. Não sei o queremos, o que fazemos de mãos dadas e corações fechados. Não sei o que pretendo de ti, não entendo o que vês em mim. Não sei nada sobre esse Tudo que julgámos os dois que eramos, não sei nada sobre afinal quase tudo. Não sei o que somos quando nos olhamos bem de frente, nem quando nos revemos nos destroços de gente que encontramos a caminho de casa. Quando falamos e sorrimos e eu sou a única que dá, e que acredita, e que perde. Já não sei... Já não sei o que somos quando estamos acordados por motivos tão obvios como a solidão a bater-nos à porta e a entrar sem convite. Já não sei o que somos quando a sinceridade se perde na nossa boca e dizemos verdades inconvenientes. Já não sei o que somos quando ouvimos músicas tão diferentes, quando vivemos vidas tão demasiadamente iguais para se completarem. Quando amamos de forma tão controlada ou destinada... Já não sei o que somos quando penso que o que mais tenho a esconder é o que mais te tenho a dizer. Não sei o que prentendes de mim, não entendo o que vejo em ti. Já não sei o que somos.
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All the promises we break, from the cradle to the grave
When all I want is you.

30/04/2007

"In My Place"


E hoje sei o que somos. Sem afinal motivo para voarmos. Não de mãos dadas. Seria um sonho que não queremos tornar real. A vontade ao serviço das circunstâncias, a teia mágica dos destinos a quererem tecer-se sozinhos, a engendrar e a partilhar uma intriga onde não existem personagens nem sentimento que justifiquem as perdas.
Somos amigos. O que mais podíamos ser? E ninguém deveria partilhar dessa realidade senão nós. Mas eu digo a todos, e digo ao mundo em redor, que somos amigos, que somos dois adolescentes a saltar barreiras de uma vida demasiado simples para ser simples. Interessa-me que durmas apoiado no meu ombro ou que me deixes dormir no teu. Não quero um beijo teu, mas um abraço. Interessa-me acordar e ver os teus olhos poisados nos meus, duas mãos dadas debaixo dos cobertores a respirar o mesmo calor… sem que nada mais nos apeteça.
Uma espera… é disso que a música fala, não é? Ou melhor, é disso que a música nos fala, quando estamos juntos. Do encaixe perfeito que os nossos sorrisos têm quando confirmamos que as almas gémeas não existem, nem se esperarmos uma eternidade inteira por elas. Somos duas peças nada simétricas que se encaixam. Ou pelo menos hoje acreditamos que sim. Amanhã, quem sabe? Talvez voltemos costas um ao outro e sigamos caminhos perpendiculares demais para se voltarem a unir. Ou pudemos vir a ser duas linhas curvas que se afastam e se aproximam quando o coração assim entende. Como se o coração entendesse coisa alguma! Não entende, mas nós, em código, fingimos que sim. Luxos que a amizade tem, mas que as paixões não permitem. Adoro esta música, quase tanto como fazer as pazes contigo e não esperar de ti mais do que o que me dás.
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.I was scared, I was scared
Tired and under prepared
But I waited for it
If you go, if you go
Then Leave me down here on my own
Then I'll wait for you...

27/04/2007



Sou a cor púrpura que te enche os olhos e a boca. Sei que sou. E pinto os teus dias como quem sorri ao sol de olhos fechados e é feliz por poder estar aqui. Sou o tudo que te preenche e te esvazia. Sou a música que sincroniza os teus passos com os meus e que te trás para perto. Sou o teu tudo, o meu próprio chão, o convergir despercebido das mãos, uma para a outra, um autocarro que nos leva para longe, abraçados num pôr-do-sol, mais brilhante que tudo e tão perfeito como quase nada. E o longe é o nosso destino, conjuntamente com o nunca mais… Estamos quase a chegar, mas faltará sempre o quase. Vamos de mãos dadas rumo a um destino final. Tu achas que eu sei onde fica a felicidade. E eu espero que tu saibas também. Será talvez na próxima paragem. Tu me dirás e eu te direi. Sentir-nos-emos, provavelmente, irremediavelmente felizes e as utopias deixarão de ser utopias para serem rotinas. Isto para te dizer que ainda acredito ser possível ter amor de sobra. E se digo Amor, não me chegaria apenas Amor. E se digo amor, falo das regalias de nos tocarmos e sentirmos num olhar apenas. Como se isso chegasse. E se falo de amor, falo de dádivas que acontecem todos os dias, de chuva e de vento que toldam o nosso mundo ocasionalmente. Falo de um equilíbrio que nos enche e reforça com esta estranha espécie de amor tão neutro e fácil. E se digo amor, falo, afinal, e sem rodeios, de ti. De ti a aproximares-te num horizonte de onde me mostras a vantagem de não seres meu, mas eu ser tua. Mesmo assim, deixas-me acreditar que és o meu lugar, o meu regaço, o meu abraço. Com a ternura das coisas simples, sem metáfora alguma que sustente a imensidão de sensações que tu susténs. Este lugar é perfeito assim, uma constante mudança de luz, de perdas e de ganhos, mas sempre o teu abraço, sempre a tua voz, sempre o extenso capricho de querermos fugir um do outro, mas Deus não deixar – porque para mim as coisas boas vêm de Deus. E se hoje não estás por perto, é porque estou acordada. Teremos a vida toda para sonhar.

24/04/2007

Digam lá o que os blogs disserem...



Sinto a tua vida a invadir a minha. Como se por mais que fugíssemos, mais os acasos falassem em nosso favor. Os acasos que ambos perseguimos mas que ninguém pode dar conta. Os sonhos que nos acordam, as palavras francas que nos apetecem mas que hoje, uma vez mais, vão ter de ficar para amanhã. As músicas que definem esperas, os entretantos e os silêncios, o vazio latejante das emoções sem espaço. O que queremos e perseguimos, o romper das manhãs e das noites para que tu sejas constante em mim e eu em ti. Os sorrisos pendurados, os abraços prometidos, os dias que contamos para que haja tempo… um dia. Por enquanto, no lugar do sonho, dorme uma hipótese. E uma esperança. Mas também a eterna e magoada razão, pedindo calma, pedindo luz, pedindo indiferença. Porque (tu sabes) da indiferença não nasce o sentimento. E sem sentimento, não haverá mágoa. E eu não terei de perder altura, porque terei subido apenas o que me foi legítimo subir. Lembra-te que não posso voar, digam lá o que blogs disserem. Fui feita para andar a direito, sem inversões de marcha. E a música vai ao ritmo que tu querias que eu fosse. Azar o teu. Eu vou muito mais a frente. Não te esqueças que faz muito tempo que fugimos um do outro e a distância que levamos, agora que queremos estar juntos, é demasiada para que eu recue. E não é de mim recuar. Nem de ti fazeres um esforço para me alcançares. Por isso eu prezo tanto a indiferença. A jaula disfarçada dos leões cuja responsabilidade é defender-se dos próprios erros. E o meu erro maior és tu. Tu e a tua tamanha vontade de seres tu próprio. Os meus medos? Esses hoje resumem-se a um só: o de chegarmos a um ponto sem retorno, onde eu lamente o que nos aconteceu, mas tu não. Porque foste mais capaz da indiferença que eu, e a inveja é uma coisa fodida. Prometo-te que farei o possível para continuar a fugir, mesmo que inadvertidamente me peças que não o faça. Um dia vamo-nos rir de tudo isto mas hoje não é esse dia.

23/04/2007

"70x7"

Então cá vai... Do fantástico e abismante universo da magia, chega-nos um desafio de 7 vaidades, 7 calcanhares de Aquiles e 7 bons motivos para se ser do feminino, entre outros 7's que dão que pensar (ai se dão!)... Take a look :)
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7 Coisas que faço bem
1 – Ouvir em silêncio
2 – Perdoar
3 – Fixar nomes, caras e números de telefone
4 - Gestão do tempo
5 – Discutir
6 – Textos expositivo-argumentativos
7 - Equações do 2.º grau =D


7 Coisas que não faço bem
1 - Remates em salto
2 – Gestão de dinheiro
3 - Fixar os nomes dos realizadores dos filmes que vejo

4 – Contar piadas
5 – Ignorar a autoridade
6 – Fixar matrículas de carros
7 – Enquadrar-me em grupos grandes de pessoas


7 Coisas interessantes no sexo oposto
1 - Sentido humanista e bondoso
2 - Boa capacidade argumentativa

3 – Auto-estima ligeiramente excessiva :P
4 – Capacidade e gosto na diferença, independência de um grupo
5 – Um grande e poderosíssimo sentido de humor
6 – Mistério q.b.
7 – Parecenças com o meu pai :D
(what a man!) lol

7 Coisas que digo frequentemente
1 - Já vou!!!!
2 - Que dia é hoje?
3 – ’Tás a falar a sério??

4 – Bolas, pa!
5,6,7 – (agora que penso nisso… acho que passo mais tempo calada que a exprimir-me em frases rotas de serem usadas… O que é bom ,certo? Não haver rotina nos diálogos :) …)


7 Actores/Actrizes Preferidas
1 – Pedro Pinto “Thales” =D
2 – Johnny Depp
3 – Nicole Kidman

4 – Meryl Streep
5 – Leonardo DiCaprio
6 – Juliane Moore
7 – Robbie Williams


7 Próximos Contemplados

21/04/2007

Soho Café



Ela está à porta, encostada ao betão, a ver a chuva cair. Está de costas: para ele e para o mundo. Vê-la ali parece não significar coisa alguma. Razões que a própria Razão desconhece levam muitas vezes as almas incapazes para sítios estranhos, para se perderem com a chuva e se encontrarem com as lágrimas. E se assim é, não será ele que lhe vai levar o abraço que ela diz precisar. Que ela diz precisar com a voz seca e calma. Com o rosto voltado e as mãos frias. Chove cada vez mais. Ela quer fugir, mas, mais que tudo, quer o abraço que ele lhe deve. Quer a devoção dos amores intelectuais. Quê-lo a ele e ao mundo dele. E que o mundo dele a queira a ela.
Ela sabe que ele está mesmo atrás de si, mas não fala. A respiração dele voa-lhe entre os dois hemisférios da mente e entre as mãos. Ela precisa desse abraço. Mas ele não tem coragem. Talvez também ele precisasse de um abraço, pensa. Mas não um abraço dela, um abraço do mundo, das festas, das eternas e sonâmbulas festas que o mundo guarda, e que ela conhece mas não percebe.
Um carro chegou. Um carro chegou e parou. E ela diz, Vou-me embora. Até amanhã, diz ele. Não, amanhã não nos vamos ver. Nem depois de amanhã. Então até depois. Sim, até depois. E ela vai embora, mas antes vira-se e dá-lhe a mão. Fria. O rosto dela está diferente. Também a voz. Até depois, então. E despede-se com o que podia ser um último beijo. E depois vai embora. Alguém espera por ela do outro lado da rua. Junto ao carro. Leva consigo a bagagem. Vai embora por muito tempo. E o que lhe deixa não é, afinal, um último beijo, mas um papel dobrado em quatro. E ele abre e entende.




"Se perguntarem por mim, diz que voei"

19/04/2007

Closer

Mize

Sabes o que sobrou? Esse ultimo olhar que me deixaste, que demorou mais que o habitual e que por isso eu soube que era o último. Por causa dele, sinto que sou a mais miserável das raparigas que hoje sobrevive à roda-viva deste amor de olhares e desencontros. Mergulho-me no abismo que é segurar o corpo sobre a cidade e ver Lisboa inteira a chamar por mim. E nestes dias, em que sou a mais miserável das raparigas a sobreviver à roda-viva deste amor, a cidade esgota-se, Lisboa é um imenso vazio de gente e o que sobrou fui eu.
Dou as mãos a quem encontro livre para me as dar também, que por norma sou eu própria, ainda que às vezes a necessidade de um abraço se imponha primeiro e o que sobra então não sou eu, mas as minhas mãos vazias. E depois as mãos seguram-se ao corrimão das escadas e o corpo desce de olhos fechados até perceber que não consegue ir mais longe. Porque caiu. É então que os olhos se abrem e o olhar avança sozinho. Procura uma ponta de céu onde voem vontades, mas toda a gente sabe que nas ruas escuras de Lisboa o céu fica longe demais, à distância de uma mão cheia de tudo e de um corpo erguido. Por isso, não sou eu afinal que sobro, mas as minhas mãos vazias, o meu corpo caído e os meus olhos fechados. Tudo porque hoje sou a mais miserável das raparigas que sobrevive à roda-viva deste amor de olhares e desencontros, enquanto tu me olhas e dizes tudo com a demora desse último olhar.
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Uma cruel e hilariante e cinematográfica impossibilidade de sermos Nós


Sabes do que menos gosto em ti? De olhar para o fundo da rua e ver que continua vazia. Tu não chegas e eu sei que, na medida dos nossos dias, eu fujo de ti porque tu foges também. E fazia muito tempo que não sentia o vento a passar por mim com tanta força. O que de certa forma é mentira porque o senti ainda ontem de mão dada contigo. Porém, para ti o ontem e o hoje não possuem qualquer relação de causa-efeito e, se hoje somos dois amantes a sonhar ao sol, amanhã vamos ver-nos apenas no relance de duas mãos que se acenam em lados opostos da rua. E, sabes, tenho um medo dormente de te perder. De que amanhã acordemos e não nos reconheçamos mais de mãos dadas com o destino.
Mas depois penso melhor e contento-me assim. Contento-me com essa felicidade estanque de dois amores eternos que não podem ser confessados, nem mesmo às palavras. E então, sei que o que temos são meia dúzia de olhares enlaçados, olhares estes que em breve vão abrir mão de tudo o que partilham e, quem sabe?, se de algo mais também.
E então, sei ainda que as promessas, que roubámos um ao outro em dias que, em bom rigor, nunca existiram, têm uma validade muito, muito curta. Uma validade que parece querer levar-me anos de vida também a mim. Mas não a ti. E é isso que me custa: o quão desimportante e precário é encostar-me ao teu abraço e adormecer nele; o quão simples é ausentar-me da tua vida sem que tu dês conta; o quão injusto é acreditar em linhas paralelas que se prometem cruzar num ponto incógnito do destino, mas que nunca, nunca o conseguirão fazer.
Desculpa se falo sempre do mesmo. A cada fim do dia eu volto aqui, a este mesmo sitio, e sinto a tua falta. Porque tu estás em todo o lado e não estás em lado nenhum.

16/04/2007

Viva Forever

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Do you still remember how we used to be,
Feeling together, believe in whatever my love has said to me
Both of us were dreamers, Young love in the sun,
Felt like my Saviour, my spirit I gave you, We'd only just begun


Às vezes apetece-me apagar a parte da minha vida que já não interessa. Rasgar as fotografias, livrar-me dos manuscritos antigos, queimar as folhas soltas de poemas e de diários. Às vezes apetece-me fixar essa certeza de que não me vou arrepender de põr um ponto final e um traço por cima em tudo aquilo que já re-experimentei vezes sem conta. Apetece-me ter essa determinação, essa coragem, esse agir livre da ameaça de um remorso. Porém, mais que o tudo ou nada que é apagar esses biblôs de memória da minha vida, a questão está em porquê querer faze-lo: porque não prolongar indefinidamente as recordações anexadas em papel? Porque não deixar que as lembranças de papel e de arquivos de Word se acumulem? Porquê apagar, porquê ignorar? Porquê sequer acreditar que, sem esses enfeites de como a vida foi um dia, me hei-de acabar por esquecer?
Na volta, talvez eu não procure uma fase nova sem nada que documente o que fui e como os dias foram outrora. Talvez eu procure precisamente o momento de viragem. O momento em que eu acendo o isqueiro e vejo os rostos, os instantes, o simbolismo do que se foi e já não se é, a derreter, a esfumar-se, a reduzir-se a pó. Talvez o que eu procure seja a intensidade das lágrimas que se emocionam ainda com o crescimento e com a mudança latentes em nós.

14/04/2007




Tenho muito medo de dizer o que sinto. E esta pode ter sido a frase mais simples que escrevi nos últimos meses e, contudo, a mais honesta. Não digo que tenho medo às vezes, porque são demasiadamente mais as vezes em que me inibo de dizer o que penso, do que as que digo e não me arrependo. E ainda agora fiz isso. Não falei porque não esperam que fale. Por aí, algures num blog amigo, li uma confissão que me tocou preferencialmente. Encheu-me os olhos de lágrimas. Apeteceu-me poder atravessar a rua e, na esquina de todos os dias, abraçar o autor dessa magia imensa que tanto me impressiona, mas que não esperam que partilhe.

We might as well be strangers. Não sei bem se somos estranhos, se amigos, se vizinhos num mundo de palavras. Não sei se ficaria estranho se eu me aproximasse para lhe dar testemunho das múltiplas formas de um só Amor que eu conheço, se não acreditaria em mim. Só sei que a voz que calo, fala numa perspectiva que ele acha que não devia ser a minha. Só sei que muitas vezes a vontade e o entendimento não se encaixam na identidade que trazemos connosco. Só sei que não tenho idade para que acreditem em mim.
E por isso mesmo, tenho medo, muito medo, de dizer o que sinto. E o que penso involuntariamente também. Porque não esperam que o faça. Ouviriam o que tenho a dizer com dois ouvidos mornos e adormecidos, como quem não reconhece quem diz e que, portanto, presume que nada há para ser ouvido.
E talvez tenham razão. Mas não é isso que eu sinto. Quero falar porque acho que tenho alguma coisa para dizer. E algumas lágrimas para chorar nos ombros certos, mas isso agora não interessa. Quero falar porque não cresci em vão e porque já saltei obstáculos quase tão altos como estes. Quero falar porque os abraços não dizem tudo e nem esses achas justo que partilhe. Não quero ser igual aos outros. Não quero que achem que o sou. Não quero que banalizem, nem que desdenhem das verdades tão prudentes e absolutas que eu digo e sei.
E hoje reparo que, como eu, somos muitos a pedir exclusividade. Hoje eu reparo e sei que, na voz de uma comunidade inteira, somos estranhos a deixar de o ser e a descobrir que, além quilómetros, outra vida pensa igual, sente igual e, se não é igual, é um pormenor de contexto desimportante que não nos afasta nem aproxima, mas apaixona. Todos os dias. E por isso, eu sei que não cresci em vão e que não quero perder isto em que acredito. Não sou, afinal, só mais uma.

13/04/2007

Palavras. Partidas e Chegadas


Tudo nos sabe a última vez. Voltei mas pareço partir. Como se só então sentisse a dimensão que tem dizer-te que fico e tu vais, como se só então partilhasse do medo de que eu vou e não volto, de que tu ficas e não darás pela minha falta. Como se só então pudesse suspeitar da identidade que mostrámos um ao outro, como se só então pudesse amar essa imensidão de coisas que ficaram por fazer e dessas outras tantas que ficarão por dizer quando um de nós se for embora. Nessa altura eu vou saber que não haverá passo atrás que possa ser dado. Os beijos acontecerão por descuido e os afectos, demasiadamente adiados, vão ser histórias por acontecer.
Não sei de que forma escutas a minha voz, se ainda a escutas. Sabes que podíamos muito bem ser dois estranhos a cruzarem-se todos os dias em passeios contrários e que então não terias dado por mim, nem eu por nós. Na volta, tem dias em que somos realmente dois estranhos a lutar contra uma corrente de controvérsia, tentando em vão acreditar que, depois do fim, seremos eternos amantes a discutir ao sol sobre a génese do mundo e sobre o que está ainda por vir. O texto vai longo e até hoje não coubeste em mim, quanto mais em tantas dúzias de palavras… além do mais, já dizia o cantor:

Words, they cannot love, Don't waste them like that, Cus they'll bruise you more

08/04/2007

Regressada



Alcains é uma terra de reencontros. Cada vez menos, mas ainda o é. E menos é afinal tudo o que este lugar ainda encerra. Pelo menos para mim. Para mim que já não procuro a ombreira desta porta pela madrugada; que já não me sento neste degrau, de cabelo molhado, a contar as pedras dos caminhos que já não percorro. Para mim que não adormeço mais à espera das estrelas cadentes que nunca vieram, nem dos desejos que nunca pedi, nem das promessas de vida que nunca fui capaz de fazer.
Alcains é ainda uma terra de reencontros, mas não para mim. Porque, sempre que volto, ainda que me cruze com os mesmo olhares, ainda que descubra as mesmas vidas estacionárias, nada me sabe a reencontro, tudo me sabe a rotina. Tudo me é estranho e ainda assim, mais que visto. Tudo perde magia, tudo ganha distância.
E Alcains… Alcains guarda as minhas origens, nada mais. Tal uma terra perdida do mundo que parece minguar sobre si e afundar pouco a pouco os segredos das famílias e o passado inacabado de todos os seus ancestrais. Alcains está sempre no sítio em que a deixo, prometendo voltar, e que revivo apenas quando te quero mostrar este bocado de mim que às vezes ainda precisa de respirar este lugar. Alcains morrerá um dia e das suas histórias sobrarão as fotografias cinzentas, os afectos adiados pelos quilómetros, os esqueletos de tantos armários por abrir. Alcains resumir-se-á talvez às canções de Natal que cantavam para nós, à imagem silenciosa dos avós, ao nosso corpo tão oco e indisposto, a chorar porque sim. Alcains será apenas, com o passar das gerações, um ponto esquecido no mapa, uma placa desviada que nos dá as direcções quando, na estrada, o nosso destino for outro. Alcains, um dia, não será mais que Alcains: o nome de outros tempos e de outras idades. E sorrir-me-á eternamente como o sorriso que eu hoje deixo aqui às pedras dos caminhos e às gentes vestidas de negro, que franzirão eternamente o sobrolho ao ver-me chegar.


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