19/04/2007

Closer

Mize

Sabes o que sobrou? Esse ultimo olhar que me deixaste, que demorou mais que o habitual e que por isso eu soube que era o último. Por causa dele, sinto que sou a mais miserável das raparigas que hoje sobrevive à roda-viva deste amor de olhares e desencontros. Mergulho-me no abismo que é segurar o corpo sobre a cidade e ver Lisboa inteira a chamar por mim. E nestes dias, em que sou a mais miserável das raparigas a sobreviver à roda-viva deste amor, a cidade esgota-se, Lisboa é um imenso vazio de gente e o que sobrou fui eu.
Dou as mãos a quem encontro livre para me as dar também, que por norma sou eu própria, ainda que às vezes a necessidade de um abraço se imponha primeiro e o que sobra então não sou eu, mas as minhas mãos vazias. E depois as mãos seguram-se ao corrimão das escadas e o corpo desce de olhos fechados até perceber que não consegue ir mais longe. Porque caiu. É então que os olhos se abrem e o olhar avança sozinho. Procura uma ponta de céu onde voem vontades, mas toda a gente sabe que nas ruas escuras de Lisboa o céu fica longe demais, à distância de uma mão cheia de tudo e de um corpo erguido. Por isso, não sou eu afinal que sobro, mas as minhas mãos vazias, o meu corpo caído e os meus olhos fechados. Tudo porque hoje sou a mais miserável das raparigas que sobrevive à roda-viva deste amor de olhares e desencontros, enquanto tu me olhas e dizes tudo com a demora desse último olhar.

8 comentários:

Pedro Pinto disse...

Lindissimo.
As melhoras Bea...
Beijinho

Cristiano Contreiras disse...

delicia de blog! muito bom!

Corvo Negro disse...

Injusto Bi?
Surpreendente Bi?

...pois.

Miserável? Assim... repentinamente?

(sempre gostei do "viva forever")

Vanessa disse...

Um dia destes, [ já há algum tempo atrás, agora que penso nisso... ] andava eu pelas ruas do Porto, a sentir-me uma das raparigas mais miseráveis que sobrevivia à roda-viva de um amor de desencontros, quando alguém, sem dizer nada, se chegou à minha beira e ofereceu um abraço. Depois disse: este é totalmente grátis. Sorriu e foi embora. Surpreendente? Talvez. E isto é verídico. Basta um gesto para deixarmos de nos sentir tão miseráveis. E aquele abraço salvou-me o dia. Mesmo sem querer dizer nada. Hoje, espero, que estas palavras te salvem o dia também. Ainda que acredite que muito do que aqui escreves é ficcionado, pedaços de vidas reais que vais juntando todos os dias... :)

Beijinhos*

Nunca é tarde para roubar um sorriso... :p

E também sempre gostei do Viva Forever, confesso! ;)

Beatriz disse...

Vanessa,

Já tinha ouvido falar do fenómeno dos abraços grátis que anualmente ocorre no Porto. E o que eu senti foi (mais uma vez lol) uma tremenda inveja.
O que escrevo é sim um ajuntamento de vidas reais. Um emaranhado de ficcção com muita retórica à mistura. Mas é onde me revejo nos últimos dias. É uma ficção que acompanha o meu estado de espirito e as minhas queixas do mundo real. Que têm contornos francamente nítidos, mas que eu tendo a ampliar (como quem diz, a exagerar).

Obrigada por me teres vindo sorrir. Faz realmente toda a diferença :)


Ao Pedro, Ao Cristiano,

Obrigado pela visita


Ao Corvo,

Seja bem regressado.

isabel mendes ferreira disse...

um abraço.


não voes.
para longe.

voa alto e ao perto.


::::::::::::::::::::::::


um beijo B.

Abssinto disse...

Adorei... Opá, opá!
bj

Abssinto disse...

"Quem me leva os meus fantasmas
E me diz onde é a estrada..."