21/04/2007

Soho Café



Ela está à porta, encostada ao betão, a ver a chuva cair. Está de costas: para ele e para o mundo. Vê-la ali parece não significar coisa alguma. Razões que a própria Razão desconhece levam muitas vezes as almas incapazes para sítios estranhos, para se perderem com a chuva e se encontrarem com as lágrimas. E se assim é, não será ele que lhe vai levar o abraço que ela diz precisar. Que ela diz precisar com a voz seca e calma. Com o rosto voltado e as mãos frias. Chove cada vez mais. Ela quer fugir, mas, mais que tudo, quer o abraço que ele lhe deve. Quer a devoção dos amores intelectuais. Quê-lo a ele e ao mundo dele. E que o mundo dele a queira a ela.
Ela sabe que ele está mesmo atrás de si, mas não fala. A respiração dele voa-lhe entre os dois hemisférios da mente e entre as mãos. Ela precisa desse abraço. Mas ele não tem coragem. Talvez também ele precisasse de um abraço, pensa. Mas não um abraço dela, um abraço do mundo, das festas, das eternas e sonâmbulas festas que o mundo guarda, e que ela conhece mas não percebe.
Um carro chegou. Um carro chegou e parou. E ela diz, Vou-me embora. Até amanhã, diz ele. Não, amanhã não nos vamos ver. Nem depois de amanhã. Então até depois. Sim, até depois. E ela vai embora, mas antes vira-se e dá-lhe a mão. Fria. O rosto dela está diferente. Também a voz. Até depois, então. E despede-se com o que podia ser um último beijo. E depois vai embora. Alguém espera por ela do outro lado da rua. Junto ao carro. Leva consigo a bagagem. Vai embora por muito tempo. E o que lhe deixa não é, afinal, um último beijo, mas um papel dobrado em quatro. E ele abre e entende.




"Se perguntarem por mim, diz que voei"

2 comentários:

marie disse...

muitas vezes sentei com um café a minha frente perdida em meus livros na esperança vazia de que alguém sentasse a minha frente e me falasse que nao podia acreditar, pois esteve sempre a me procurar.


doce ilusao
meus cafes sempre terminaram frios e o livros manchados por minhas lagrimas solitarias

Abssinto disse...

Partir. E desfazer ilusões... Fica a dor, mas é passageira (ou será que é apenas esquecida com a chegada de outra dor ainda maior, como diz o Pedro Paixão!?)