04/02/2007

Grapes and lemon, by Alexei Antonov


Não conseguira coisa alguma, uma vez que fosse na vida. A não ser, claro está, essa certeza de não o amar a ele e de ele não a amar a ela. Porém, soubera um dia que Deus criara o Amor e o Vício como duas faces de uma mesma moeda, e que nela, o que sobrava agora, era esse Vício, esse vício feito do hábito de se deixar levar pela fome de um mundo demasiado atento à sua inocência, pronto para lha substituir por uma outra forma de estar.
Sim... porque para ela a inocência era uma forma de estar. Ou teria sido até há pouco mais de um mês atrás. Nessa altura, escolheu esquecer-se dos avisos, dos tropeções que já dera à custa do mesmo motivo. E embarcou nos braços de uma paixão extinta, namorou sem compromisso, apostou-se numa vida paralela sem continuidade possivel e, principalmente, sem forma alguma de se acharem as palavras certas para se justificar a vontade de um fim.
Na volta, ela entendeu que vivia assim o vício do calor humano, nos braços errados. Nos braços que tinham um perfume que não era o seu. Nos lábios que tinham um gosto que não era o dela. Mas era afinal um vício. O entretém das horas vagas, que eram cada vez menos e cada vez mais rápidas.
E o que custa, explica-me ela, é querer por força que o destino decida por si, que a vida lhe diga, de uma vez por todas, se deseja assim esse amor bandido e acomodado, se prefere a humanidade latente na voz da razão e disso tudo tão maior que o próprio vício e que ela própria.
Na volta, acho que ela entende que os “eles” e “elas” que lhe rasuram o destino, em nada o mudam. O que a assusta não é afinal a sua indefiniçao no enredo em que está perdida, mas essa tão imensa pequenez em se reconhece como se olhasse e visse as coisas na perspectiva de uma criança de cinco anos, prestes a descobrir-se sozinha, com uma mão cheia de nada e outra sem coisa nenhuma, a não ser, claro está, dessa própria pequenez de que é feita e da responsabilidade de ter querido crescer.
Ela não sabe, enfim, se é medo, desconfiança ou preguiça. E eu digo-lhe apenas que no seu lugar também não saberia. Afinal, nestas coisas do coração, não podem existir verdades absolutas. Estamos por nossa conta e risco. Ela ri-se. Foi nisso que pensou quando optou amar aqueles braços que no fundo não amava, mas que lhe faziam tanta falta.

De repente, parece-me que sei do que fala. Talvez daquele abraço aquecido feito à medida das nossas almas geladas. Sim, é isso... A banha da cobra, dirias tu. E eu concordaria, claro está. Porque afinal de contas, ela e eu vendemos a esperança que ainda éramos e só um mês depois percebemos que nos haviam roubado esse tudo que tínhamos sido e que havíamos prometido ser um dia outra vez.

2 comentários:

Corvo Negro disse...

Aqui vai mais um comment estranho (à Corvo, afinal)... não vires costas ao sol se o sol te faz bem.

Beatriz disse...

Um bem relativo, que não explicita em qual dos sóis devo acreditar