12/06/2007

Normalidades...

Não chega estarmos moralmente aprovados pelos códigos comportamentais que a Ética determinou e que a sociedade elegeu. Vendo bem, não chega sermos honestos, sermos justos, sermos modestos. Temos que ser saudáveis física, psicológica, emocional, espiritual e intelectualmente. Temos que viver imunes aos traumas que toda a gente tem (menos nós), ser respeitadores da ordem e do silêncio públicos, saber a vida de toda a gente e de ninguém. Temos que ser heróis, sobreviventes de uma doença qualquer que mistificou o nosso comportamento, temos que ter um calcanhar de Aquiles e ser simultaneamente perfeitos à luz de todos os contextos. Temos que perceber matemática, ler poesia, ser dois génios numa só pessoa, emocional e objectiva, artistas apaixonados por tanta arte que não chega efectivamente a ser arte, cristãos convictos que se dão a si próprios e que recebem nenhum, ateus frios e calculistas que pegam o touro pelos cornos e que sabem que nenhum deus lhes pode valer senão eles próprios. Temos que viver para os outros e para nós próprios. Ser simples e humildes, ambiciosos e tenazes. Temos que respeitar os outros e fazer pela vida tudo o que a vida exigir que façamos. Temos que fazer voluntariado, escrever num blog, praticar desporto, ter um gato, sair à noite e estudar espanhol. Temos que ir para a faculdade e ter um part-time num call-centre. Temos que ser originais, mas nunca excêntricos. Temos que ser bons mas nunca parvos. Bonitos mas nunca estúpidos. Perfeitos mas nunca ídolos. Temos que ser normais. Absurda e fanaticamente normais, não importa quantas incongruências isso implique, quanta falta de sentido lógico isso exija. Acima de tudo, dar resposta a tudo o que o mundo exigir de nós. Não vamos aprender com os tropeções da vida, somos escolhidos muito antes para que garantamos que não vamos tropeçar em momento algum da nossa vida. Vida esta que acreditamos ser passageira ou cíclica, duas filosofias numa só, o perfeccionismo a todos os níveis e sob qualquer ângulo.
Irrita-me viver assim. Irritam-me as pessoas formatadas de um único modelo, que partem dos mesmos ideais, que consomem as mesmas drogas, que gozam férias nos mesmos sítios, que se vestem de igual, que lêem as mesmas coisas, que são únicas e especiais de corrida, que não fodem de noite nem dormem de dia. Que estão gordas o ano todo e magras apenas aos olhos dos médicos. Que estão actualizadas mas não sabem discutir política. Que falam falam, mas que nunca dizem nada…

12 comentários:

Unicus disse...

Gosto desse não acomodar. É sinal inquivoco de que o mundo ainda não está perdido e acredita, existem mais pessoas como tu, que se indignam.
Um texto bem maduro e adulto de alguém que sabe inequivocamente o que quer.
Beijos, Bea

CNS disse...

A formatação a partir de um unico modelo( que nem sequer nos damos ao trabalho de saber quem o concebeu) é o caminho mais fácil para preencher esse vazio. É mais fácil lidar com o cinzento, com automatização do comportamento do que parar para pensar. Para olhar para nós. Para dentro dentro de nós e ver esse imenso nada, que prenchemos com manobras de maquilhagem vãs.
Desculpa-me o comentário tão longo. Mas o teu texto disse-me mesmo muito. Muito daquilo que também tantas vezes digo. Obrigada.

zetrolha disse...

Prometo que escreverei um texto em que aborda todo o que escreveste mas sintetizado...

Abssinto disse...

É a loucura da normalidade a morder... O mal de sermos obrigados a vivermos todos a chocar uns contra os outros...

bj

o alquimista disse...

Nasceu a luz sobre as cidades, agita-se a ilha no encontro com o dia, acorda a emoção, a suave brisa, amanhece o sonho que a vontade guia. A lonjura é a distância da viagem, a idade não cobre os rochedos, passam ventos de encantamento descobrindo mil e um segredos...


Doce beijo

Vanessa disse...

Sim, às vezes apetece mandar tudo e todos às urtigas... :)

isabel mendes ferreira disse...

minha heroína!!!!!!!!!!!!!

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beijo.

Mateso disse...

Antes de quaisquer outras palavras os meus sinceros parabéns. Síntetizaste o mundo , dito moderno, de forma acutilante e pertinaz.
Não desejo alongar-me, se bem que o texto o mereça, mas flui-me o pensamento para uma "espécie" de molde-perfeito-de homem/mulher-marioneta-de-trapos-com-alma-vazia-de- -de-pessoa.

K disse...

Já leu isso?
Aquilo que criamos nunca é compreendido, apenas julgado ou condenado. (Nietzsche)

Only the truth you set you free... Sem julgamentos nem condenações, deixo uma perspectiva:

Para sermos nos mesmos, para expressar nossa própria verdade, é necessário criar nossos próprios valores, doa a quem doer. É preciso se afastar do rebanho, pois este não é suficientemente forte para verdades individuais...Sobretudo, temos que superarmos nos mesmos para esta necessidade!

Excelente exploração de valores neste texto, Parabéns! Poderia disponibilizar seu link em meu blog?

hasta

Anónimo disse...

Que falam falam, mas que nunca dizem nada…rssss
De politica nada falo, quanto ao Blog: Gostei demais do blog!!
E viva os anormaisssssssssssss!
beijo
Elis

eueapoesia.zip.net

Ana Teixeira disse...

Fantástico, como sempre, tudo aquilo que escreve.
Estou sem palavras.
Li e reli, na tentativa de encontravar algo com o qual não concordasse, ... e nada.

Obrigada

Ana Teixeira

saudosista do futuro disse...

ui! ui! que carga!
(a disparar para
todos os sítios)

muito bom Beatriz.


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eu que tantas vezes
falo falo e não digo nada.