15/03/2007



Aquela ali deitada a fixar o nada, sou eu. Não tem as minhas feições, não o meu cabelo, não as minhas cores, mas tem a ideia. A definição do que sou quando tudo falha e, de repente, não éramos tão pouco há já muito tempo. Aquela sou eu, digas lá tu o que disseres. Sou eu, apesar de eu ter relevo e ela não. Sou eu mesmo que tu digas que não. Eu, independentemente da presença dela ser outra, mais leve e definida, mais breve. Eu mesmo que o Nada que fixo seja outro, mais concreto e limitado, a tender para os rostos e para as formas, a fugir do vazio que o Nada sugere. E esse nada… todos os dias a comprometer-me com a desistência, a saber que daqui em diante tudo dependerá de mim e eu desse tudo que condiciono sempre que fico estática a ver as coisas acontecerem sem as poder inverter. E serei, como sou hoje, o cansaço personificado de quem vive de antemão as derrotas e imagina que o destino lhe fará xeque-mate a cada intenção. Serei, quem sabe, uma chave sem fechadura. Um prolongamento de demasiadas vidas a crescer sem suporte, sem um chão que não ameace ruir a qualquer instante, com um medo tão imenso e triste que não me move nem me recua, mas me mantém.
E eu… eu serei, com sou hoje, aquela ali deitada a fixar o nada. E, tal e qual como acontece hoje aqui nesta perspectiva, o futuro dará as reviravoltas que quiser, dar sem me comprometer ou alterar. Continuarei a valer o que as minhas vozes interiores ditarem que valha, sem as poder inverter. Continuarei presa à avaliação constante a que me prostro, de valor numerado e equacionado, dependendo da força das circunstâncias e da vontade de mais(como se a vontade pudesse alguma coisa!). Lamento, mas hoje tudo falha e eu sou aquela ali a fixar o nada. O Nada como me sinto. O Nada a desenhar-me as formas simples de se ser feliz, tão complicadas de alcançar e impossíveis de entender.
Lamento mas hoje tudo ameaça ruir. E amanhã vou precisar que me abraces e jures que isso para ti não faz diferença: que para ti Tudo ou Nada é-te igual, que para ti sou suficiente sendo este Nada suspenso no horizonte que ela fixa e que eu fixo também. Lamento mas nem de lágrimas se constrói um Nada tão oco como o que me tornei ainda agora. E depois… depois espero que me imagines com os contornos dela e acredites que aquelas são as minha feições, o meu cabelo, as minhas cores. Não preciso que te preocupes com a ideia. A definição do que sou amanhã será provavelmente outra, ainda que, em rigor, eu serei a mesma e continuarei a precisar desse teu abraço que hoje tenho como certo.

7 comentários:

Clarissa disse...

Doce Beatriz... venho para te falar da tua Moema e encontro este texto... e percebo que o que vinha dizer-te faz todo o sentido neste post.
Os ruídos de fundo são por vezes demasiado fortes mas eu sei que tu ouves para além deles, ou não escreverias desta forma, ou não te quedarias a olhar o nada... quando parece que o nada te engole...
Há um ano atraz encontrei-te menina, numa escrita triste e olhar melancólico. Hoje sinto-te mais uma mulher angustiada, ciente de si e do mundo...
Eu sei que vais ouvir a tua Moema, procura-a e deixa-a falar pela escrita, mesmo que lá fora só a Beatriz possa existir.

Obrigada, doce Beatriz.
Um enorme abraço apertado

maria . disse...

eu não preciso de braços que me alfinetem.

a vida doi
e pesa
por isso eu caio
e fico assim
quase como a moça
da imagem


fica bem :*

Filipa disse...

Nilistas somos todos nós às vezes, pobres humanos, cara e queridíssima prima. Mas é do nada que tudo parte para um tudo, como o caos para o cosmus. De ti só espero isso, porque acredito muito em ti.
beijo e abraço

isabel mendes ferreira disse...

Beatriz....


escreves muito muito muito adentro.



______________ler-te é um verdadeiro oásis.


beijo.

Stranger à la carte disse...

A vida dá-nos novos papéis todos os dias.





Que tal aprender a representar?

;)

Aesis disse...

Tens razão. Aquela foste tu e... voltarás a ser certamente.
Sim, tens definitivamente o direito de seres apenas tu e não uma pretensão ou uma consequência. Tens de ser tu realmente, diagonal e obliqua, mesmo que que os narizes se torçam e os olhos se fechem.
O abraço... esse não precisa ser o perfeito mas sim o mais disponivel na extensão da verdade.

isabel mendes ferreira disse...

apenas um abraço. hoje. terno....