19/01/2007


No universo que recolho de ti em partes dispersas, do que foste e que hoje tornas a ser, no limiar do que os entretantos pediram que fosses. Tal o copo vazio que tantas vezes encheste para que eu acreditasse que a vida seria sempre assim, doce como tu me fazias crer que era. E as pétalas ameaçaram cair; o frio ameaçou-nos com as investidas de solidão, o medo de cair paralisou o tempo, e o Tempo o intervalo entre o tempo de te sentir perto e o tempo de te prever finalmente distante.
Seria capaz de me sentar enfim num degrau de porta e esperar por ti eternamente. Porque hoje de repente consigo acreditar que voltarás para me buscar. Que um dia então me levantarás o rosto, varrer-me-ás as olheiras, segredar-me-ás ao ouvido o som das palavras que procuro ouvir sem ter que entende-las. Desenharás no pó do chão o reflexo de todas as coisas de que sorrimos, de todos os estranhos a quem seguimos os passos e a quem descobrimos os manifestos de solidão por opção. Serás o riso genuíno que descortinarei por engano numa qualquer gaveta da memória, talvez o teu, e se não o teu, talvez o meu: mas certamente um dos tantos risos que ouvimos e demos enquanto dispúnhamos de um copo cheio de tudo e de um corpo prestes a dar-se. E hoje talvez tenhamos dado já o corpo e entornado o nosso copo; talvez tenhamos bebido a meias, esvaziado a sede de tantas coisas maiores, esperado demais. E hoje ainda somos demasiado jovens para decidir coisa alguma, para achar que a vida se conformou com a conformidade dos nossos planos, para pensar sequer que a morte ou o medo nos pararão um dia. Como talvez já nos tenham abrandado. E eu não quero viver em câmara lenta, de alguma forma não me parece real, nem tão pouco viável - não quando nos sentimos capazes de tanto mais e ansiosos por prova-lo a alguém .

3 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Muito bem escrito, sem dúvida.

maria. disse...

hoje ele me disse
que fora dado o inicio
a uma temporada sem fim determinado
de vale-sorrisos.

e eu estremeci
e morri de rir
estava feliz
por ter ele aqui.

Aesis disse...

Olá.
Adorei a imagem e a sua própria mensagem.
Adoro também concordar com o “homem do machado” e reforçar a tua particular competência com as palavras, sublinhando uma vez mais o espectro da evolução que identifico post após post.
A tua própria irreverência sentimental continua demarcada mas de forma mais sincera e entendida.
Tu permites e eu acedo à possibilidade de te comentar o que por vezes poderia conduzir à sensação de critica mas… mesmo que eu fosse uma entidade devidamente homologada para o efeito, a primeira medida que tomaria após a aceitação do cargo, essa seria a demissão.
Sou um estranho comentador, aliás… estranho sou em tudo o que faço mas pouco ou nada isso interessa, tendo em conta a real intenção que mais não é que o aceno da admiração.
(o meu link… é a corrente sanguínea deste blog?)
:)