06/05/2011

Cartas de Lille XIX

De alguma maneira, sei que já aqui estive. Este limbo, já sem piada nenhuma, que me mantém suspensa nas retóricas dos meus 15 anos. Eu tinha medo de ser sozinha e secretamente sabia que ia ser assim. A sábia paciência de encontrar o quanto O quero, no tanto que preciso dEle. Os baldes de água fria, a escorregarem-nos pelas costas hirtas, pela boca entreaberta de susto, pelos punhos inertes e fechados.
Depois dos 20, o pai passou a dizer-me que não devia voltar nunca mais aos sítios onde fui feliz. E eu... eu entretinha-me a esmiuçar a vida, a conta-la pelos dedos das mãos, e percebia, enfim, que não devia voltar nunca mais aos homens que me fizeram feliz. E eu dizia: não, pai, deixa-me ir, deixa-me cuidar deste meu mundo cão, destes homens repetidos que me trocam o coração por um maço de tabaco, que atravessam o oceano esquecidos de mim, que me conquistam os sonhos por tuta e meia. E assim me fazia mulher, pensava. Assim me esquecia da minha pequenez e brincava com o fogo, tal bonecas: nome, idade, passado e destino. De repente, são de novo 5h da manhã e eu sou de novo eu, aterrada de medo, dobrada sobre falsas memórias que nunca foram nossas. Tão certo como uso os dias para dormir e as noites para chorar. Mas por favor, não digas a ninguém.

1 comentário:

Mikhael disse...

Mesmo que o dissesse, ninguém entenderia o meu crocitar.