02/06/2009

Cartas de Coimbra XXVIII


Eu sou pela vida, pela liberdade, pela perdição. Sou pela inconsciência,pela consistência, pelos desejos e não pelos sonhos. Sou pelos planos de viagem, pelos amigos, pelos melhores amigos, pelas longas madrugadas de felicidade e não de insónias. Sou pela vingança e não pelo tempo perdido. Sou pelas histórias de amor e não pelas promessas. Quero ter aquele brilhozinho nos olhos de quem regressa da vida e guarda consigo as experiências, os acidentes, os sustos, os riscos, a intensidade de uma decisão precipitada. Quero aquela gargalhada aliviada de quem não precisa nunca mais de chorar. Quer ser uma resistente, uma lutadora, uma artista. Quero ganhar a vida porque a mereço, porque a provei de todas as forma e feitios. Quero dar a volta por cima sempre que o ar me faltar. Quero tomar um café com um homem bonito, num país distante. Quero descobrir que a minha cidade Natal é Paris, é Roma, é Zagreb. Quero deitar-me num campo cheio de papoilas e esquecer-me dos bichos, da sujidade, das horas. Quero vencer o cancro, o meu que é psicológico, e o dos outros. Quero ler Balzac outra vez, tratados imensos sobre a vida de quem nunca existiu de verdade, sobre os espectatores, sobre os invisíveis. Quero ser insensível às coisas más, às traições dos homens, às faltas, aos excessos. Quero dormir na praia, aquecida com um abraço. Quero sair impune da vida. Quero que amar alguém seja indolor, seja simples, seja suficiente. Quero acreditar sem ter que pagar juros por isso. Quero ter um gato. Um cão, dois peixinhos e uma morada para enviar as minhas cartas. Quero que goste de mim. Da expressão dos meus olhos quando se riem, da minha voz quando falo a verdade, do meu peito aberto à espera de um feedback. Quero que seja pela vida.




Hoje fui às compras: a tua música tocava em todas as lojas em que entrei. Eu devia ter seguido o conselho da vida e arriscado mais. Uma mudança radical enquanto o mundo estivesse a dormir. Acordaria de manhã e seria uma pessoa que não querias perder de vista. Teria a tez e os lábios brilhantes, um assobio na ponta da língua capaz de me mostrar o caminho.

2 comentários:

Bruna disse...

'Quero ter aquele brilhozinho nos olhos de quem regressa da vida e guarda consigo as experiências, os acidentes, os sustos, os riscos, a intensidade de uma decisão precipitada.'
Beatriz, parece que estás a ler minh'alma! Achei seu blog lindo. Estou seguindo, pode ser? Obrigada desde já :*

poem of sky and sea disse...

Este post, mesmo que não estejas de acordo, foi bastante diferente dos outros.

mais leve, mais solto, mais vivo, mais livre, mais libertador.

Gostei bastante de ler :)

Vai! Só vives uma vez e por pouco tempo!



beijinhos e

Boa sorte ;)