21/10/2008

Cartas de Coimbra XVII

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Ainda bem/que o tempo passou/e o amor que acabou/não saiu ...
Ainda bem/que há um fado qualquer/que diz tudo o que vida/não diz ...
Ainda bem que Lisboa não é/a cidade perfeita/para nós ...
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Acordo todos os dias à espera que me surpreendas. Eu tinha grandes planos para naquele sábado voltar a casa e sentir-me querida por ti e por todos. Era o meu décimo-oitavo aniversário e eu estava à dois meses longe de casa. Achei que a festa surpresa era para mim, achei que ao bater da meia noite me ligarias, achei que teria uma noite sem a angústia de tudo estar longe. Foi apenas mais um dia, lembro-me. A única paz que me trouxeste foi aquele beijo onde te pedi para nunca mais me deixares, beijo este que levaste e com o qual tornaste todos os meus dias desde então um bocadinho piores a cada manhã.
Olhando para trás, chega a dar vontade de rir... eu realmente acreditei que teria uma festa surpresa para lá da porta de casa. Tolices que distância alimenta. Hoje sei que é na passividade e na discrição que a minha vida se encaixa.“Dezoito mais um” era o meu lema, para fazer de novo dezoito anos na semana que estava prestes a virar. Mas depois reparei que estavamos todos ocupados com o mundo pequenino e preverso que temos. Fazer anos a meio da semana tem dessas vantagens! A gente desculpa que não nos possam surpreender porque estamos longe. A gente desculpa que não se lembrem. A gente até que se descuida e chora um bocadinho quando ninguém está a olhar... Mas a gente habitua-se. Habitua-se a pouco. A quase nada. Eu, pessoalmente, já não espero sequer pelas tuas flores que me ficaram prometidas desde há tanto tempo. Já não espero que ligues. Já não espero que queiras ficar mais perto num dia como este, tão igual a todos os outros, quando, lá no fundo, eu só queria que por um dia pudesse ser importante. Dar nas vistas. Ouvir que fico bonita quando sorrio à chuva. Receber abraços, até de estranhos.


E o curioso é que também é de assinalar o 100º texto aqui publicado por mim. É bom que assim seja. Aqui eu sou importante, na ficção e no desejo de uma outra realidade, na transcrição do que fallhou, no tanto que ficou por dizer, quiçá de gritar.

3 comentários:

Vanessa disse...

tá quase... :)

(e todos os anos existe uma surpresa.)

beijinho*

Jude disse...

sinta-se abraçada.

Sombr|A|rredia disse...

Ainda bem que deste a conhecer este lindíssimo tema dos Deolinda :)



(gostei do teu blog ):))