04/07/2008

Cartas de Coimbra XIII


Às vezes parece que é só uma questão de tempo. Eu pensei que estava a fazer as coisas bem, mas tu vens e dizes que não, que nós nunca mudámos. Que nós nunca crescemos. Que nós ficámos apenas dependurados na verdade insastifeita sobre o que nunca seríamos. Nesta forma de estar, compassada com a música, retardada com os dias em que eu não voltei nem hei-de voltar. Com os dias em que eu não hei-de voltar porque preciso que estes deixem de ser os melhores dias da nossa vida.

E depois... depois, aqui a vida parou. Aqui, sem que seja preciso que nos digam seja o que for, tornámo-nos cumplíces de gente como nós. De gente que se traiu e que quer confiar outra vez. De gente que não quer ter de ser feliz outra vez, que tropeçou na prórpia vida vezes sem conta, que precisou de um abraço mais do que qualquer outra coisa na vida. E nós, nós estávamos lá a precisar do mesmo abraço, do mesmo abraço descomprometido. E nós estávamos lá, à espera do mesmo sorriso molhado das mesmas mágoas. À espera da mesma meia metade que quisemos ser um para o outro.
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Mas tu vens e dizes que não. E num estalar de dedos, tudo desaparece. A cumplicidade, a nossa nudez completa entrelaçada na vontade que partilhámos para que tudo fosse assim para sempre. E com a manhã a nascer nas nossas janelas, morre tudo com a calma com que encaro a falta que me fazes.

E hoje, hoje faço planos de me ir embora, de me acostumar à impessoalidade que preciso do mundo. De me acostumar a uma vida de contratos: sujeitar-me a troco de dias fáceis. E quando for, meu amor... quando for, farei de conta que deixo para trás apenas quatro paredes e uma última carta de amor na tua almofada. Farei de conta que os melhores dias da nossa vida nunca aconteceram. E que, no fim de contas, nós mudámos e nós crescemos e nós decidimos que seria tudo uma questão do tempo. E então eu decidi também que me devia ir embora.



2 comentários:

Patrícia disse...

E no fim de contas, percebemos que tudo (e digo tudo)) vale a pena quando pelo amor maior. Sabem, aquele, maior que tudo o que possamos saber. *

susana catarino disse...

e o tempo passa, tomam-se decisoes, arrisca-se... tudo em nome de uma coisinha estranha que se chama amor...