05/04/2008

(In)Decisão

Elisa, por Pascal Renoux


Se eu pudesse abrir os olhos, veria que não fomos feitos um para o outro. Veria que dificilmente haverá alguém que me sirva tão perfeitamente como tu me serves. Veria que agora é tarde ou cedo para sermos felizes para sempre e se não for assim, desculpa meu amor, mas então não fomos feitos para estarmos juntos. Desculpa me amor, mas se decidires por mim, não decidas pelo que fomos. Decide se ainda é justo tudo isto, decide se ainda é justo pedires-me o tempo de uma vida inteira, mas não o decidas pelo que fomos. Sabes que estarás sempre nas entre-linhas do meu dia e da minha noite também, mas hoje sou mais feliz sem que estejas aqui ao meu lado.

Se eu pudesse abrir os olhos, veria o homem imperfeito que te tornaste e talvez por isso te amasse mais ainda. Veria que já não seguimos de mãos dadas à procura de um mesmo enquadramento. Já não estamos convictos que as direcções erradas nos hão-de levar ao mesmo destino, escolhido e desenhado por nós. Agora, mesmo de olhos fechados, eu sei que voltámos ao ponto de partida: à música a segredar-nos ao ouvido a história de amor que não tivemos, à música a embalar esta forma de estar que não quisemos. Meu amor, se eu pudesse abrir os olhos, amar-te-ia um bocadinho menos e assim tudo seria bem mais fácil para os dois. Apagaria o teu número de telefone, esqueceria os detalhes que nos juntaram, daria menos importância aos acasos que te afastaram. Meu amor, se eu conseguisse ao menos abrir os olhos!

Hoje eu sei que já decidiste. Como decidiste da primeira vez. Pelo meu bem, sem que eu te pedisse coisa alguma. Hoje sei que já decidiste, e sei que eu decidi também. Eu decidi adiar o tempo. Decidi matar memórias, decidi que não ia chorar quando me olhasses nos olhos e me dissesses que é melhor assim. Hoje eu decidi que não vou voltar nunca mais a esta cidade onde te perdi, onde desapareceste sem que eu desse conta. Decidi que seria feliz sem ti. E que lamentaria todos os dias que assim fosse.

5 comentários:

Karlinne disse...

Nunca pensei que existisse alguém que conseguiria transpor em palavras o que sinto tão perfeitamente...

Este post doeu fundo.

Vanessa disse...

a verdade é que não há ninguém perfeito. talvez, quando os abrires, te apercebas disso. mas o amor turva-nos os olhos, eu sei... :)

beijinho grande beatriz*

silent girl. disse...

ah o amor
sempre tão maravilhoso e tão cretino.
manda prendê-lo e depois
ensina-me como.

Nina disse...

A vida deveria ser mais simples e linear, não?
E ao abrir os olhos talvez descubras que as coisas são ainda mais assustadoras ...
Chorei ao ler o que escreveste.

isabel mendes ferreira disse...

vim...



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deixo um abraço. longo.