10/06/2024

Cartas de Portalegre IV

Tinha 17 anos quando te escrevi a primeira carta. Hoje tenho 34. Num intervalo de outros 17 anos, fui profundamente feliz e vivi coisas que sentia não merecer; olhando para trás, parece que aconteceram a outra pessoa. Não ficou provavelmente quase nada por fazer e, contudo, ainda hoje, o vazio é igual. 
Hoje como há 17 anos atrás, não sinto a ressonância do mundo e por mais insights que a vida nos dê, continuamos demasiadamente sós para conseguirmos dividir estas cartas.

Eu sei que o maior segredo é ser uma terapeuta deprimida, de repente incapaz de ajudar seja quem for porque as queixas de insónia e de apatia se tornaram lugares-comuns. Porque a convicção de que, um dia, vamos simplesmente decidir não continuar, nos parece demasiado familiar.

E, contudo, sei que a fantasia é um instrumento poderoso, um livre-passe para fora deste lugar - deste lugar onde apostamos todas as nossas horas, sem realmente tolerarmos a ideia de ficar. Fomos ficando. Fomos ficando e a fantasia de um amor resgatado é às vezes a única coisa que nos dá alento.

Deixou de haver poesia, ou o cheiro de cigarros e torradas queimadas nas manhãs de domingo. Deixou de haver lugar ou tempo para te escrever.

Desejamos, como toda a gente, voltar lá trás e sentir a tragédia das coisas menores. 

01/04/2018

Cartas de Lisboa XXI

Escrever-te nunca me salvou de coisa nenhuma, mas sempre que não aguento mais nada, é aqui que volto. Tudo isto foi um erro e quando os erros se tornam pesados demais, a gravidade do seu peso deixa-nos doentes. Está a acontecer. Sempre soube que um dia acabaria por acontecer. O peso dos erros, a entropia própria das vidas que roubámos e das vidas que fingimos, o choro convulsivo que nos enjoa e nos faz doer o corpo todo. Tudo isso a acontecer como sempre previmos. Um dia (ainda não) não aguentarei mais. Numa escalada de sintomas a corroerem os nossos sonhos e a desmascararem a fragilidade das nossas memórias. Tudo começou antes de ti. Foste também apenas um sintoma. Amar ao acaso, seguir o rumo das histórias destinadas ao fracasso, fragmentar a minha vida em gavetas e caixinhas, não me conseguir tolerar como inteira. Eu que sempre quis conhecer a verdade dos outros e me esforçava tanto para vestir as suas vidas! E tão previsivelmente presa ao peso da insónia, dos erros, dos remorsos, da prisão que é não suportar nada do que acontece à minha volta.
Ficou de repente visível e ao mesmo tempo ficou pior. Os doentes são eternos culpados - sem ninguém que lhe sustenha a culpa em surdina. Os doentes são maus. Não toleram a vida, somatizam o desapego, somatizam a vergonha. E eu que sempre quis conhecer a verdade dos outros! Agora estou sozinha, e se não tão sozinha, mais sozinha ainda do que poderia alguma vez imaginar. As pessoas dão-me náuseas e a solidão uma tremenda vontade de morrer. Deixei de ter uma casa onde voltar no Natal. Esqueci-me do sabor e dos cheiros e do perdão inconsequente dos nossos pais. Ninguém me reconhece, mas também ninguém me deu como perdida. 

06/10/2017

Cartas de Lisboa XX

SE TERMINAR ESTE POEMA, PARTIRÁS


Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido
está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que
continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse
beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei
em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á

a última coincidência que nos une.



MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DOS VENTOS NOS CIPRESTES

26/06/2016

Cartas de Lisboa XIX

Last Night (2010)


Há sítios em nós que não deviam existir. Odeio lembrar-me daquela despedida. Odeio pensar tanto em ti. Há 922 dias que me fui embora – que tu te foste embora. Odeio querer escrever-te tantas vezes e saber que tu desististe de me responder. Odeio que sejas importante, depois de tanto tempo. Odeio esta moral dos filmes: tu só existes porque passamos menos de 72 horas juntos. Só existes porque escrever-te nunca foi suficiente e porque a vida te aconteceu, e a mim também, mas eu fiquei sempre refém do reflexo do homem que nunca foste e que agora mais ninguém vai conseguir ser.

Há sítios em nós que não deviam existir porque estão armadilhados. Seria mais fácil acreditar em amores impossíveis, na lentidão com que os destinos se concretizam ou em distâncias insuportáveis. Mas nem tu nem eu alguma vez acreditamos nisso. Escolhemos vidas bem debaixo dos nossos narizes. Tu e eu nunca existimos, na verdade. Não como planeámos.

Recordo-me naquela noite em que escreveste. Preciso parar de pensar em ti. E eu deixei armadilhar-me. Pediste desculpa tantas, tantas! vezes - que eu perdi sequer o direito de te odiar. E ter a tua simpatia, e a tua confiança, a certeza ingénua que quase foi real, tudo isso me tem refém da eterna armadilha que me montaste. Da armadilha que me montaste sem querer. És um homem bom que me tentou amar. E tudo isso é extraordinariamente triste. Não fomos desenhados um para o outro e no entanto a minha vida ficou suspensa na tua boca. Mantenho de pé as pontes instáveis que nos ligam e finjo que elas conseguem ainda suportar o peso do tempo. Sei que um dia vais casar e um dia vais ter filhos e um dia talvez voltes de mão dada com eles. Encontrar-me-ás de costas voltadas para mim própria, na eterna depressão que é não ter verdadeiramente escolhido nada do que nos aconteceu e ainda tão pateticamente apaixonada pelas portas que tu deixaste entreabertas.

Há sítios em mim que não deviam existir mas existem. Talvez por ter sido a mais infiel das pessoas que conheço. A passagem do tempo sempre foi aflitiva e eu não podia deixar passar em branco as horas que um dia se podiam tornar em histórias. No fim do dia, dormir sozinha não era um problema mas um disfarce. Tu nem me conheces, talvez tivesses ficado se me conhecesses. Passaram-se 922 dias desde que me deixaste no aeroporto e aquela nem era eu - há tanto tempo que não sou eu. Nos primeiros meses, tive pesadelos todas as noites. Acordava suada, convencida que tinha gritado o teu nome durante horas. A negação durou demasiado tempo e hoje o luto voltou ao início.



28/12/2015

Cartas de Portalgre III

coton. by moumine


Somos sobras, apenas sobras. Tu sabes disso. Sempre soubeste - o exasperante desejo de me permitir consumir por esta paixão cega e ofensiva que nunca desistiu de mim. Tu não sei. Na minha fantasia mais doente, tu e eu teremos sempre uma história por acrescentar. Quase esqueço o teu corpo magro e tenso a tremer-me nas mãos. Quase esqueço que não nos olhamos nos olhos, não verdadeiramente. Mas eu era tua, tão levianamente tua, como hoje sou, à revelia de toda a gente e, ainda assim, tão estupida e pateticamente tua.
Orbito em torno da tua lembrança há 5 anos. Hoje sei o quão o tempo se torna inverosímel quando se fica paralisado. Não sei se te amo. Sei que me possuis, apesar do despeito, da distância, do mau sexo. Apesar dele. E apesar dela.
Entre a arte de esquecer e a incapacidade de lembrar, reinventamos a nossa história. Limámos os silêncios, beijámos melhor que nos livros. A saudade tira-nos o ar, e o sono, e a vida, mas sem querer, hoje somos apenas memórias delirantes que nunca aconteceram.

A vida que nós quisemos foi cancelada.

24/08/2015

Cartas de Portalegre II

lemonade by moumine

Aconteceu tudo há demasiado tempo. É irreal que ainda existas e que todos os dias te percas e eu te recrie, e eu te evoque, e por mais que morras, eu nunca deixe de acreditar que um dia vou deitar os meus olhos sobre os teus e vou ser tua, mais que tua, vou ser finalmente minha, muito minha - na derradeira aventura de amar a tua voz e o teu vagar e a tua eterna distância. Amor assim é certamente proibido. Morreria na tua boca, tenho a certeza. Não suportaria o teu toque, a tua nudez, o calor absurdo do meu rosto nas tuas mãos. Aconteceu tudo há demasiado tempo mas ainda aqui estamos os dois. Amo-te mais com o vagar dos anos, eis uma certeza. 

06/03/2015

Cartas de Portalegre

tomette. by moumine

foi bom ver-te. um dia, talvez, te concretizes na minha vida como um ponto final. todas as noites me lembro. sustenho a respiração, abafo o soluço, recrio os teus olhos fixos no chão; e eu ali, ao teu lado, tão longe. tão longe,tão hirta, tão fria, tão só.

e ali fico, hirta, triste, longe, partida, a fingir. finjo sempre, e às vezes dou por mim a chorar. sei-te escondido num luto onde não me deixas entrar - logo tu, que eras tudo, que eras chama, vento, história. não te posso amar porque não saberia fazê-lo. o teu corpo, as tuas mãos enormes, o teu desdém. mas fazes-me falta em tudo o que sou, em tudo o que faço. trago comigo a agonia de não saber de ti, de querer repetir-te em todos os estranhos, de te querer contar, de ter a certeza que em mim sobrará sempre um vazio maior que eu, maior que todas as coisas.

afinal amo-te. na incongruência que é ignorar estes porquês de andarmos há tanto tempo à espera do mundo. não sei onde estás. todos os dias, nestas minhas latitudes perdidas. não sei onde estás nem porque te importas em continuar tão longe. o meu amor foi um amor frio. contemplativo. infiél. indisponível. não sei onde estás mas procuro-te todos os dias. na lista telefonica, nas salas de espera, nas janelas de todos o aviões. em todos os homens em fuga. 

faltaram-nos as palavras. mais que o tempo, mais que a noite. eu só queria ter-te dito como paralizaste a minha vida e me empurraste nete vício de saltar sem rede. de amar sem destino, de ficar sem razão, de morrer sem ti.

um dia, talvez, te concretizes na minha vida.

22/09/2014

Cartas de Évora VIII

verre de soie. by moumine
Pudesse eu ao menos contar-te como foi acordar naquela manhã, depois de ti, depois de mim. Pudesse eu explicar-te como foi acordar para ti todos os dias da minha vida. Como foi enfrentar o vazio que era, e sou ainda, percebendo enfim que foste apenas um acaso, que eu fui apenas uma das tuas distâncias, que os teus desejos eram de aguarela, de uma pesada insónia, que nem eu nem ninguém conseguiamos mudar. Pudesse eu explicar-te como mudaste a minha vida, muito além daquela última carta que te escrevi – a única que cheguei de facto a enviar, sem nunca ter tido resposta.
E o teu silêncio não me traz paz. Tudo se tornou corrosivo – a chuva, as manhãs, os lugares que nunca verás. Eu queria contar-te a minha história, queria tanto!, mas não tinhamos idioma comum, um que em que realmente nos encontrássemos os dois, um em que me lesses por detrás das vírgulas. Queria que acreditasses que me salvaste, por um acaso. E que a memória dessa noite me salvou nos quatro anos que se seguiram.
Hoje já não existo, nem para ti, nem para mim própria. Estou ainda naquele segundo andar em Wazemmes a ouvir-te tocar. Foi um rompante de magia – e eu não consegui lidar com isso. Achei que sim. Achei que eram todas essas memórias (inventadas?) que me tiravam da cama de manhã; que me moldavam para ti, sem nunca desejar realmente repetir-te. Não foi certamente paixão. Foi uma outra coisa; talvez o embate da ingenuidade dos meus vinte anos com a honestidade da tua vida sem fronteiras. Não sei, nunca o soube.
Até nunca mais, dir-te-ia, se tivesse coragem - mas amanhã, novamente, vou procurar-te em todos os estranhos do mundo e viver a decepção um dia de cada vez.


26/07/2014

Cartas de Évora VII

Depois de tanto tempo - uma década, talvez, ele estava no meu sonho. Mas, magia por magia, ele já não era ele, a magia era outra e a minha ausência um facilitador de sonhos - só que este amor era ainda terno e calmo e fresco. Só que este amor tinha ainda 20 anos e o mesmo medo de falhar.
Pensei: talvez devesse voltar a vê-lo, talvez devesse escrever-lhe, talvez devesse contar-lhe. Toda a nossa vida era uma vertigem de partidas - e só a memória dele me valia. E de repente, ele estava de corpo e voz dentro de mim, tal e qual como da primeira vez. Como talvez tivesse estado sempre: no mais impenetrável dos sonos, na mais sincera das memórias. Eu e ele, naquele segundo andar em Wazemmes. Eu e ele, sob o mesmo guarda-chuva, sob o mesmo Setembro. Sob o mesmo Setembro de onde nunca saí, ao qual me moldei - devoção, música e encanto - eu procurava-te em todas as esquina e, sem querer, um ano se passou, sem que tivéssemos voltado àquele Setembro em Wazemmes. E de repente, estava tudo dentro do que podia até ser um pesadelo, o perder-lo de novo, várias vezes na mesma noite, o perde-lo no materializar do primeiro cheiro, no materializar do primeiro toque. O perde-lo ao primeiro sinal de fraude.

Da última vez que o vi, deixou-me um quadro assinado por ele - que eu perdi nas mudanças. No verso dizia «quão raro e maravilhoso era ter a certeza que conhecemos alguém».
Hoje de manhã escreveu-me de novo e disse-me que ia chegar.

02/06/2014

Cartas de Évora VI

reflet. by moumine
Foi tudo há tanto tempo. Não consigo amar-te como amei o mundo e como sinto o mundo em estilhaços dentro do que me resta. Toda eu minada de lugares onde não podes entrar. São segredos e são histórias e são canções que já ninguém sabe tocar. A mesma memória, todas as manhãs. Como se não eu não tivesse acontecido de tantas outras formas. Os últimos quatro anos para nada. Só o desejo de voltar, só o desejo de ir. O prender-me dia após dia àquela tarde em Wazemmes. O esquecer-me para me lembrar. Tu de costas voltadas. Tu na minha boca. Tu tão longe. São meses e anos e hoje como naquela noite em São Paulo. E hoje como naquele cemitério em Paris. Ainda te odeio e ainda te amo de formas que não consigo entender. Preciso ver-te e preciso tirar-te da minha vida. Como a cruz que és. Um eterno fim por concretizar. Fui uma pessoa melhor porque te tinha, porque não te tinha, porque o tinha a ele, mas principalmente porque sempre o terei. O lugar na terra que repetirei por saudade todas as manhãs, até que a consciência me deixe. Não sei que amor é este, mas faz-me bem e adia a tristeza que és ainda na minha vida.

Foi tudo há demasiado tempo.

22/05/2014

Cartas de Évora V

Quero contar-te que conheci um homem maior que tu. Foi talvez por fugir disso que naquela noite me viste no Porto, de mini Super Bock na mão, a fingir que não te vira. Sem ele, eu nunca seria uma mulher disponível para quebrar o gelo. Com ele, toda a minha vida se tornou perplexidade, vontade de ir embora, desejo de saber quem eras. Procurei-o em mim sempre que nada valia a pena - a lembrança nublada de várias Leffes ainda hoje me fazem continuar. Ele era o homem da guitarra. A cidade inteira sabia que o amava para lá do razoável - e que o amaria sempre, pela simples razão de que nós não nos conhecíamos, não de verdade. E isso pouco me importava. Era um amor que me mantinha em marcha. Que me mantinha. Era uma lembrança recriada à qual me agarrei quando me tiraste da tua vida.
Porque ele era um homem maior, muito maior que tu. Na tua ausência, eu fazia-me pequena e escondia-me o melhor que podia dentro das noites. Era a ausência dele que me acordava. 
Há dois meses escrevi-lhe: queria-o na minha vida, desta vez, a sério. Há pessoas que nunca se vão realmente embora e ele podia até ser uma delas, mas desta vez, eu queria-o aqui. Queria-o em Lisboa. Queria a voz dele em Lisboa, com as respectivas rugas de expressão e com a devida bagagem. 

21/04/2014

Cartas de Évora IV

Dei-me conta que não voltei ao Porto desde o dia em que nos conhecemos. Hoje, ao refazer a mala, descobri-me demasiadamente amarrada, com o peso de um para sempre que subsiste aos lutos que te fiz, com o desespero que é lembrar-me do que ficou por nos acontecer.
Encontrei fotos do hotel onde te vi pela primeira vez e percebi que te escreverei cartas até morrer. Foi por despeito, por negação e por raiva e hoje escrevo-te finalmente por tristeza. Sinto-te no balançar de todas as minhas viagens, em todos os homens de sotaque, em todos os cais de partida.
Percebi enfim que te amei demasiadas vezes, muitas mais do que as que materializei. Dei-te o melhor de mim, durante demasiados anos, e ainda ontem, o meu avião tocava na pista e eu deixava as lágrimas correr, indiferente ao molhado que desenhava no pescoço, no colarinho da camisa, na minha vida.
Trai três homens contigo e só do último te arrependeste. Foste sempre uma mentira na minha história - uma mentira porque ninguém acreditaria na nossa verdade.
Hoje sei, enfim, que te levarei sempre comigo. Acordarei todas as manhãs perguntando que horas serão no teu fuso horário. Perguntando se terás visto aquele filme, se conhecerias aquela música. Não concebo mais que te voltarei a ver - a negação foi embora, finalmente. Mas continuarei a procurar-te em todos os estranhos do mundo, em todos os bancos de aeroporto, em todas as filas de trânsito.

18/03/2014

Carta a Paris

Rues de Paris by Laurentlesax
A ti.

Não faria sentido lembrar-te, ou não fosses talvez o compasso de espera que nunca se justificou – nunca vieste, nunca soube porquê. Eu tinha afinal 20 anos e tremi por várias meias horas numa Paris à chuva. Não te confundo com a ausência dele, mas talvez com a miragem de uma vida que teria acontecido diferente se tivesses vindo. Éramos todo aquele potencial que eu sentia – em delírio, talvez –, que me formigava os ombros, atraiçoava as mãos, adiava o sono. Acreditei piamente que aquela podia ser a minha história – não a nossa, mas a minha. Quase à hora de fecho, desci e subi várias vezes o Père-Lachaise.  Pergunto-me como me explicarias naquele cenário. Trazia-te gelado comigo, na tentativa de não te prever, de fingir que não te esperei a vida inteira. Mas esperei.
Tudo isto foi real. Naquela noite, sobraram em mim – e em ti, sem dúvida – todas aquelas madrugadas que me prometeste. Era assim mesmo, dir-te-ia – naquela altura eu não chorava como agora. Fui embora e não voltei a Paris. Continuo o luto porque desejei aquela “história-triste-que-daria-boas-cartas”, mais do que tudo. Mais do que a ti. Investi toda a honestidade e traição e vergonha que trouxe daquela noite, na vertigem que seria viver-te de novo. Tenho-te raiva. Sinto-me longe de tudo o que fui, quando querer-te era um engano. Preciso continuamente de ir embora e esquecer que me falhaste, que eu te falhei, que eu nunca fui o que precisaste. Esquece o atrito. Esquece a rotina. Não havia nada disso – tenho a certeza – quando naquela noite te esperei na sombra dos monumentos.  Foi no dia 13 de Novembro de 2010. Perdoei-te esse dia, e os outros. Por favor, não me esqueças. Tu não me escolheste, mas eu escolhi-te (escolho-te) em todas as insónias. Fui feita para todas as portas que me fechaste, para todos os sambas que eu não dancei, para todas as cartas sem resposta, para todos os homens que chamei de outros.

Por favor, não me esqueças.

01/03/2014

Cartas de Évora III



Os fins como te lembras deles. A necessidade de queimares tudo à tua volta e encheres a tua vida com a cinza do que já não és. Foi sempre assim. O frio, a velocidade dos dias, os nomes que esqueceste. Estás a correr em direcção à neutralidade de um passado que nunca enterraste - precisas de ar, precisas de tempo. A música de outros dias dissolvida na angústia de todas as paragens de comboio que viveste. Falta-te o metal, as travagens, os estranhos sentados à janela. Falta-te a guitarra dele - o melhor dos inícios da tua vida. Já morreste de felicidade sem perceberes. Era amor, ou tanto faz. Eras tu a favor do mundo, sem decisões, sem espaço para remorsos. Eras tu, apaixonada sem risco, adiando crenças, relativizando a leveza com que as melhores pessoas entraram na tua vida. Queres, mais que tudo, voltar atrás. Reviver. A liberdade das noites cheias de neve, os passeios vazios de gente, a confiança dos teus passos. 

04/02/2014

Cartas de Évora II



A tua memória é puro erotismo, na maioria dos dias. Eu vou de vestido vermelho e salto alto. Cheiro bem, estou de passagem e quis o acaso que te encontrasse outra vez - seria Milão, São Paulo? Não sei. Tanto faz. No resto dos dias, acordo de olhos vermelhos, escondida no perigo que é viver-te a tantos quilómetros de distância, a tantos dias de silêncio. Não entendo o que nos aconteceu. O que me aconteceu. A gente vai cruzando países e já qualquer homem nos serve e eis que, de repente, que não, que tinhas de ser tu, que todos os outros te ficam na sombra e tu nem eras excepcional como prometido. Faço calçadas e calçadas de ruas, perguntando às pedras se trocámos o orgulho por paixão, o despeito por promessa. O teu rosto, o teu nome, o teu sabor. Lembrar-te é quase pecado. Fazes-me falta onde nunca exististe. O teu lugar é no meu corpo e o meu lugar não é nenhum. Choro porque sim, por teimosia, por não poder largar-te, não ainda. A tua memória é puro erotismo e eu preciso dela - depois dela, não há mais nada. Depois dela, já nada me interessa.
Tudo isto é frio e tudo isto é novo para mim. Não me lembro da última vez que fiquei para trás, convencida que tudo não passara de um engano. Porque é isso que eu penso. Um dia vais ligar. Um dia vais me ver no aeroporto de Milão, ou Madrid, ou Frankfurt, e eu estarei de vestido vermelho e salto alto. E nessa noite, tanto faz. Talvez te despreze, talvez te veja como da primeira vez. Olá o meu nome é Bea e volto amanhã para França. Hoje tanto me faz.

19/01/2014

Cartas de Évora I

(...) Mas não era isso. Pelo menos dessa vez não era isso, e creio que nunca chegou a ser. Durante o tempo em que estivemos juntos, um Verão inteiro, lembras-te? Evitámos o drama, ou evitaste-o tu pelos dois, e é isso que eu dizia, a vida descrita por ti devia ser um vulcão de excessos, uma aventura no limiar do irracional, era quase uma ficção, e eu deveria ter percebido que essa é a tua maneira de viver, um romance vale mais que mil ensaios, dizias muitas vezes, e tinhas razão, pelo menos tinhas a tua razão, e é por isso que percebo o que querias dizer com a história do bêbado e da vida dele, sim, cada um vive por dentro a sua própria metade da vida convencido que é apenas uma metade, mas na realidade é a sua vida inteira, a sua vida incomunicável, sentida como coisa tão inteiramente sua que nem sequer vale a pena partilhá-la, e isto é mentira, é uma mentira moral, não se trata de não valer a pena, isso é uma desculpa com que se ilude o pavor de não se poder transmitir e partilhar, estamos tão longe uns dos outros, é isso que eu sinto, como estou longe de tudo e de ti, meu amor. (...) Sentia que me amavas por fora de mim, que entre nós só existia uma precariedade feita do simples desejo de estarmos um no outro, e que isso tornava absurdo todos os sonhos que sonhara contigo, tenho pudor em escrevê-los e também agora já não interessa, mas a minha vida imaginada ficara pelo caminho e eu tentava desesperadamente perceber onde é que falhara e, era curioso, ao mesmo tempo tinha a sensação confortável de que o nosso fora um episódio sem falhas, nem tuas nem minhas, e isso revoltava-me, porque era injusto que duas pessoas tão obviamente feitas uma para a outra, desculpa a vulgaridade, se atropelassem assim, na pressa de partirem cada uma para seu lado (...).




por António Mega Ferreira

14/01/2014

Cartas do Brasil II

Sinto que foste tu que foste embora e que eu nunca sai da zona de embarque do aeroporto. O beijo que me prometi não aconteceu e eu não parei de sentir frio desde então. Choro quando não consigo mais fingir que tu vais voltar. Tento falar com toda a gente, ser de toda a gente, perguntar se te conhecem.
Na última semana, os meus pesadelos tornaram-se mais reais. Belisco-me repetidamente para acordar, mas do lado de lá, eu ainda faço parte da tua vida - e do nosso imaginário.
A tua fantasia morreu, mas a minha ficou. Vive da dúvida de não saber para onde foste, porque é que não me procuras mais, porque é que o despeito se finge de amor, porque é que estavas naquela noite, naquele hostel, perguntando pelo meu nome e pelo meu destino.
De ti (agora, entendo) sei tão pouco que foi quase suicida dormir abraçada às tuas costas. E lembrar-me em ciclo de tudo o que podiamos ter sido, sem o consentimento de ninguém.
Enganei-me sobre o quase tudo que eras - esse quase nada engasgado na falta de jeito para me mentires. Tentei simplificar-te e não fazer perguntas. Vim embora sem saber o que fazer com a minha vida, sem saber o que fazer contigo, com a roupa que usei na tua cama, com as fotos que oportunamente esquecemos de tirar.
Hoje começo a minha vida do zero, pela enésima vez. Já desfiz as malas por completo. Já fiz o meu primeiro jantar. Vivo sozinha pela primeira vez - e trago-te minando o meu tempo, o meu sono, os meus lugares. Imagino-te repetidamente deitado do meu lado - mas depois lembro-me que tu não és assim, que talvez aqueles nem sejam os teus traços, que definitivamente aquele não é o teu jeito. 
E assim, finjo que avanço, arrastando-me por ruas que não são minhas, na expetativa de te perder por fim na próxima esquina. 

17/12/2013

Cartas do Brasil

Eu estava apaixonada quando naquele dia 13 o avião atrasou duas horas. Viajava há 15 dias pelo Brasil - tive chuva, tive sol, linhas de comboio cortadas, pão de queijo e cachaça mineira. E então era dia 13 e eu estava apaixonada por um homem que conhecera 3 anos antes e que vira 3 vezes na vida. Gosto de acreditar que foi por outra razão que cheguei a SP  naquele dia. Que é por outra razão que contei os dias e contei as horas desta forma. Que desejei que o tempo não nos adiasse mais, que desejei que o tempo congelasse naquela minha última noite em SP.
Todos disseram que não haveria amor em SP, e eu vim mesmo assim. Tudo foi verdade - por isso acordamos como dois estranhos. Talvez lamente tudo isto. Talvez um dia lamente tudo isto. A vila, o samba, a Paulista. A gente deu aquele último beijo sem graça; sentiamos que encerrávamos a nossa história que nunca foi o que fizemos por ela. Apesar de tudo, com 24 anos, fiz as malas e amei um paulista por 3 dias que demoraram minutos, com a certeza de que não nos veriamos nunca mais. Bebemos aquele tanto, ouvi Samba noite dentro, dormi com Maria Betânia, despedi-me com Gonzaguinha. Diria mesmo que tenho inveja da vida que tive. Ainda que nunca tenha havido amor em SP.

06/11/2013

6 de Novembro de 2006

Hoje o Cartas de Coimbra faz 7 anos. De uma escola secundária de Lisboa à Universidade de Coimbra. Das Cartas de Lille às Cartas de Bordeaux.
Vivi aqui o antes, o durante e o depois de Ti. Hoje parece que aconteceu tudo a uma outra pessoa, numa história diferente.
Criei este espaço para ficar perto da pessoa que mais amava. Foram anos e anos de desencontros - achava eu. Foi no dia em que deixamos de nos amar que eu vivi um verdadeiro desencontro e, desde então, a minha vida não foi outra coisa senão isso mesmo. Mas nos desencontros encontrei parte das melhores coisas do mundo, e nos Regressos as lições mais duras dos últimos 7 anos. Depois olhei em volta e vi que estava toda a gente a ir-se embora.
Não sei se o mundo foi sempre assim, ou se isto é o Portugal que sobrou para nós.

28/10/2013

Cartas de Lisboa XVIII

É nestes dias em que as coisas más acontecem. Como quando na enfermaria te falam de melhoria terminal e no dia seguinte o teu doente morreu. Assim são os dias de aniversário, com o frenezim das mensagens e dos telefonemas e das surpresas. Assim as cervejas bebidas com pressa. Assim a ressaca de todas as coisas boas: és insultuosamente feliz e depois faz-se silêncio e tu juras que podias morrer asfixiada nesse compasso de espera. Este dia já foi de todas as formas e tu querias seguir sem bagagem, sem ressentimento. Recebeste 145 mensagens, mas é das ausências de que te lembras. É daquele ano de que te lembras. Daquele futuro que se fechou, sem que nunca tenhas aberto um que o compensasse. É de Coimbra de que te lembras. É dele de que te lembras.
E no entanto, e apesar de insultuosamente feliz, e apesar de teres chorado de tanto rir, de teres sorrido de tanto lembrar, a noite fez-se de um silêncio insuportável. Querias ser melhor por todas as coisas incríveis que viveste hoje, mas tudo em ti é uma estúpida e injusta ausência.