«E ele me conhece o suficiente para saber que eu poderia até receber um estranho, mas nunca abriria a porta para alguém que de fato quisesse entrar.» CHICO
08/04/2011
07/04/2011
Cartas de Lille XVI

your little heart by ~mala-lesbia
Não sei que consequências virão deste desatino, mas neste momento levo comigo o peso e a tristeza de ter encerrado o que foram, talvez, os melhores dias da minha vida. Partir assim, num impulso quase virgem, fez-me ver o quão isto não passa de um sonho tolo, irrepetível, onde liberdade e desprendimento começam no cruzar das fronteiras. Foi mágico, sabes? Perder-me assim nos abraços dos amigos, na intimidade dos nossos melhores amigos, no encanto dos desconhecidos que me deram abrigo, nos olhos azuis dos homens que procuraram a minha boca. Bonn, Köln, Amsterdam. Sinto-me ainda trémula e gelada pela pressa da partida. Há 6 horas que parti e parece que passaram 5 minutos desde que o deixei no cais da estação.
O que ele não sabe é que tu ligaste ontem à noite, enquanto ele dormia e que, apesar de tudo, eu não percebi o que me querias dizer. A vida seguiu o seu curso e eu olho para trás apenas para não conseguir perceber como vim aqui parar. Sou uma mulher de ideias e reacções fáceis, mas desfruto apenas dos rituais das chávenas de café que antecedem tudo o resto.
No meu espírito, contudo, nada mais que a insatisfação e a amargura das coisas precárias. O “Adeus, até um dia” que faz da nossa vida um eterno livro de repetições felizes, que jamais nos contentam. Foi bom demais para ser verdade, e no fim, tarde demais, percebi que nunca passou de uma mentira.
26/03/2011
Cartas de Lille XV

E há os eles da minha vida. E exististe tu. E eu existo e não entendo os contornos disto. Consumida nas pequenas misérias a que chamei vitórias. Segura num mundo movediço com sabor a vinho branco. Lamento, mas isso de nada me serve, porque o amor bateu a porta e eu abri a porta errada. Os homens continuam a desapontar-me pelo reflexo que vejo de mim própria. A promessa intempestiva de que tudo tem um prazo e de que tudo trás mágoa. E o charme cego de tudo aquilo que trás horas contadas.
Hoje de manhã, acordei de corpo tombado à cabeceira da cama, de maquilhagem rasgada na palma das mãos. O orgulho tem razões que a própria razão desconhece. E um dia, inevitavelmente, vou ficar indiferente ao tudo que se passa, ao tudo que se rouba no pedaço de chão entre dois bares. Vamos dar por nós destilados de raiva e de paixão, encostados à porta de serviço, a ignorar o cubo de gelo que seguramos na boca.
18/03/2011
Cartas de Lille XIV
Às vezes tenho a certeza que ela tira prazer de me magoar. Que ela me vê por dentro e vê o que falta e vê onde doi. Quero sair daqui mas não consigo. Não sei o que fiz de mal, não sei o como podia ter feito melhor. Quero seguir a minha vida mas ela não me deixa. Quero poder trabalhar sem ter o expectro dela a assombrar-me. Tenho medo que ela minta aos outros a meu respeito. Que ela queime as minhas roupas. Que ela me grite. Tenho medo da minha dependência, sem que dela precise para nada. Tenho medo das represálias e tenho medo da minha passividade e da minha insegurança e do efeito surpresa. Quero a minha dignidade de volta e para isso preciso de não ter medo do barulho insurdecedor das portas que ela bate, dos silêncios que ela maneja. Por favor, meu Deus, faz com que pare. Já não tenho a outra face para dar. Aliás, nunca imaginei que tivesse tantas. Por favor, faz com que pare. Eu hoje só queria poder trabalhar, distrair-me com a meteorologia, comer bolachas a tarde toda. Eu hoje só queria paz.
26/02/2011
Cartas de Lille XIII

la rue. by *moumine
Eu sei que vamos ficar bem. Como ficamos sempre depois dos rituais de passagem. Mas sei também que há perguntas que nunca deveriam ter sido ditas em voz alta. Que há lugares em nós onde nunca deveríamos ter entrado.
De repente, sinto-me uma perda de tempo e já não há ninguém que me reste por desiludir. Não fui feita para usar bata branca.

