Tudo isto nos custa como nos custam todos os novos começos. Ganhar coragem e ver-me de novo ao espelho. Desconstruir-me e montar-me de novo. Tudo isto nos custa como nos custam os sonhos hipotecados. Todas aquelas convicções que nos tiraram, tudo aquilo que eu era e tudo aquilo que me fazia vibrar, todo o nosso tempo que ninguém quis. Odeio Coimbra com todas as tantas razões que a idade esqueceu. A capa e batina dos ricos. A cerveja entornada dos cegos. Os amigos das portas de igreja que nos deixaram morrer. Olho para trás e seguro em mim a impotência de não querer menos. Coimbra não chega, da mesma forma que eu nunca cheguei para Coimbra. Passámos a vida inteira a pedir desculpa pelo medo que dá termos sido honestos por uma noite. Dói como nunca doeu, como nunca Coimbra fez que valesse a pena. Há tristeza, mentira e vidros partidos em todos os telhados desta cidade. Não há tradição nem magia em nada disto; as histórias de amor, alguém as afundou no rio na época de outras chuvas. Olho para este negro que despi e rasguei no chão e tenho dó de quem não tem mais nada senão Coimbra. É de solidão que falo nos goles de vinho, é por saudades de mim própria que preciso ir embora. Coimbra mata-me todos os dias. Coimbra vem, de mansinho, segura o meu corpo de encontro ao chão, pisa-me e vai-se embora. Coimbra diz que eu não valho nada. Coimbra não me vê. Não me espera. Não me perdoa. Coimbra não passa de um capricho. Coimbra matou-me, faz muito tempo, e ninguém fez nada.
«E ele me conhece o suficiente para saber que eu poderia até receber um estranho, mas nunca abriria a porta para alguém que de fato quisesse entrar.» CHICO
04/05/2012
21/04/2012
Cartas de Coimbra LV - reciclagens.
Há dias de perfeito pânico. O nó na garganta, as naúseas que parecem nascer-nos no coração, a boca seca de tanto mentir. O medo de parar porque ao parar o mundo nos cai ao chão e hoje temos, por definição, demasiadas consequências para abraçar. Olho para trás todos os dias, para que me sinta em casa. Revejo as fotografias daquele inverno a todas as horas; deito-me sobre os lençóis e no tecto do quarto desenho a vida que tivemos lá fora e que nos impede o regresso, e que nos mortifica porque a felicidade parecia afinal tangível, e de repente o cheiro e o toque das nossas melhores pessoas fugiu e nós não somos simplesmente capazes de seguir em frente.
Tenho comigo tantos segredos. Um sem-número certidões de incompetência para se fazer parte de alguém. Depois dele, na mais profunda das consciências e na mais plena das memórias, não haverá ninguém mais. Assim me responde cada centímetro meu, cada forma, cada trejeito...
Cartas de Coimbra LIV
Eles não sabem, mas eu penso em matar-me todos os dias. Aquela ansiedade dormente, encostada ao peito, de fazer as coisas de uma outra forma. Ficou a exaustão de já não ter faces para dar. Os sonhos ficaram demasiado longe, porque eu própria fiquei longe de tudo, porque eu própria me perdi o rasto, porque eu própria não me reconheço mais. O mundo grita que eu não valho mais nada. Todos, todos os dias, o mundo grita que eu não valho mais nada. Fiquei perdida no limbo dos lugares da minha vida, sem poder partir, sem poder ficar. Recuo àquela tarde de perfeita loucura em que te falei pela primeira vez dos meus ombros. Eu gemia, tal bêbada, no chão da lavandaria da Residência Saint-Camille. Repetia, em convulsões, todos aqueles artefactos de memória. Meu Deus, como eu era feliz. Aquela vertigem de loucura, de doença, de despeito. Aquele sorrateiro prazer de uma caneca de cerveja que se tornava em tantas outras canecas de cerveja e, de repente, eu estava ali, hipnotizada pelo turpor da máquina de lavar, apenas à espera de um milagre.
Ainda me lembro do cheiro. Do frio. Do sono. Ainda me lembro das dores do corpo e das dores da alma - dores que eram outras, dores que faziam tudo valer a pena.
Lembro-me que a felicidade tinha nomes e tinha pretextos. Nós eramos o que de mais verdadeiro havia no mundo, com todo aquele amor ligeiro e instintivo que nos trazia unidos. E sabiamos que a vida nos havia de chutar para cantos opostos e que amores assim morreriam, com o mesmo ritmo caprichoso com que nasceram. E hoje olhamos para trás e trazemos mais remorsos que coração. Roubaram-nos tudo. As nossas melhores pessoas roubaram-nos tudo. Absolutamente tudo. E, sabes, amor... toda a gente viu, toda a gente sabe. Será sempre o meu segredo mais bem vendido.
Eles não sabem, mas eu penso em matar-me todos os dias. E todos os dias de uma maneira diferente.
20/03/2012
Cartas de Coimbra LIII
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Dizer-lhe, enfim, que acabou foi talvez aquela forma tão minha de boicotar a própria vida e ajustar contas com uma culpa que trago escondida. Aquele adiar constante da paz que tanto evoquei, porque eu fui feita, afinal de contas, para ficar sozinha. E, novamente, dizem que entrei numa espiral de desespero, como há tanto tempo não entrava, aguentando-me neste limbo, cor-de-nada, em que todos evocam que perdi o juízo. Não sou daqui, nem de lado nenhum. Não lhe pertencia, como (agora sei) nunca te pertenci a ti. Fui um erro de cálculo. Um mero incidente. A partilha indiferente de fluídos, orgasmos e pena. Nunca vali o teu tempo, nem o teu esforço, nem o teu mérito. Eu fui dos enganos. Dos meses que se passam e do amor que me engole e me destrói, e me leva toda a força que eu não tenho, e toda a graça e prazer que não são meus. Como se a esperança fosse veneno e as minhas primeiras lágrimas um diagnóstico terminal. No fundo, eu sempre soube. Mulheres como eu não são felizes. Mulheres como eu rezignam-se. Mulheres como eu não viajam, não sonham, não ganham, não conquistam. Mulheres como eu não conquistam porra nenhuma. Mulheres como eu ficam presas para sempre naquelas tardes de agosto e nunca deixam de ser sombras.
Há dias assim. O teu melhor amigo trocou-te por duas patranhas e muitas histórias por acontecer. Sussurrou-te ao ouvido, mesmo antes de partir, que não havia mais ninguém. Tu morreste de novo. Precisas de fugir. Coimbra faz-te mal. Coimbra mata-te todos os dias e tu já não aguentas, e tu precisas de ir embora. Mas Lisboa está cheia dos homens que não te quiseram, e dos homens que não nos quiseram às duas. Continuar a crescer faz-te medo, e tu fazes dançar, entre os dedos, a caixa dos comprimidos. Já aqui estiveste e já daqui saiste, só não sabes se vale a pena. A realidade é uma outra coisa. Queres gritar e fazer as coisas bem, mas já nem voz tens, porque passaste a vida toda a pedir socorro e ninguém te ouviu. Lembraste daquele paciente que viste no hospital há alguns meses. O mundo é ingrato, e tu és ingrata, e depois lembraste que só querias metade do que sempre deste de ti. Dás-te conta que deste demais e que não sobrou nada de ti. És pó. Ou talvez tenha sido sempre assim. Sobraram-te três ou quatro convicções que já de nada te valem. A tua honestidade e a tua entrega conseguem ser anedóticas. O Mundo é uma outra coisa. O Mundo é proporcionalmente correcto e esteticamente justo. O Mundo, meu amor. O Mundo não precisa de nós. Nunca precisou.
13/02/2012
Cartas de Lisboa XV
it was a cold, winter morning... by mala_lesbiaNa estupidez natural dos homens, todos eles acabam por se misturar com o reflexo que vêm de si próprios no espelho dos elevadores. Coisas que a rotina faz e que a pobreza de espírito deixa alastrar. Manhã atrás manhã, vejo as lembranças a definirem-lhe os contornos dos olhos e ele não me deixa ajudar. Vejo-o tornar-se um pedacinho ridiculo de vaidade, tudo por conta de um medo que não deveria dizer-nos respeito. Todos os dias torna o amor uma coisa impessoal e desfeita pela própria incongruência do mundo; e todos os dias volta e abraça-me e diz-me que são fogos assim de que ele não precisa, e que são fogos assim que nenhum dos dois pode conter.
Na estupidez natural dos homens, hoje já todas as virgens aprenderam que o egoísmo não é corrigível. Somos a melhor coisa que alguma vez lhes acontecerá na vida e isso emerda-nos profundamente. Na guerra de espaços e de tempos e de pedaços de memória por explicar, eles deixaram o nosso coração para trás e nós morremos de tanto esperar por alguém que nos abraçasse como se realmente nunca nos fosse largar. E assim assim, tentamos ser sempre melhores. Carinho, sedução e paciência nunca hão-de chegar. Nunca. Não sei que procuras no mundo que o mundo não te queira dar, ou que felicidade escondida verás tu em todos os futuros que te foram vedados. Eu procuro a paz do teu corpo, depois de tantas horas e tantos quilometros feitos só para me dar por dois segundos. Já não consigo nem perdoar a complexidade que as mulheres não têm, porque foi tudo entrega, e foi tudo verdade, e foi tudo mais do que tu alguma vez mereceste. Vocês não passam, afinal, de um mero reflexo no espelho de um elevador. A liberdade e o direito à má escolha. O eterno castigo de uma liberdade sexual de que me arrependo em dias assim. Vocês não passam, afinal, do passado de outras mulheres que foram para lugares melhores e se arrependem como eu me arrependo.
Na estupidez natural dos homens, hoje já todas as virgens aprenderam que o egoísmo não é corrigível. Somos a melhor coisa que alguma vez lhes acontecerá na vida e isso emerda-nos profundamente. Na guerra de espaços e de tempos e de pedaços de memória por explicar, eles deixaram o nosso coração para trás e nós morremos de tanto esperar por alguém que nos abraçasse como se realmente nunca nos fosse largar. E assim assim, tentamos ser sempre melhores. Carinho, sedução e paciência nunca hão-de chegar. Nunca. Não sei que procuras no mundo que o mundo não te queira dar, ou que felicidade escondida verás tu em todos os futuros que te foram vedados. Eu procuro a paz do teu corpo, depois de tantas horas e tantos quilometros feitos só para me dar por dois segundos. Já não consigo nem perdoar a complexidade que as mulheres não têm, porque foi tudo entrega, e foi tudo verdade, e foi tudo mais do que tu alguma vez mereceste. Vocês não passam, afinal, de um mero reflexo no espelho de um elevador. A liberdade e o direito à má escolha. O eterno castigo de uma liberdade sexual de que me arrependo em dias assim. Vocês não passam, afinal, do passado de outras mulheres que foram para lugares melhores e se arrependem como eu me arrependo.
19/01/2012
Cartas de Coimbra LII
Quando o amor morreu, eu achei que morriam contigo todas as memórias. A raiva, a falta de confiança, o medo, a eterna sensação de que era a tua última escolha. Seguir em frente provou-te que eu estava melhor sem ti. Que eu fui o melhor que te aconteceu, conformada com todas as asneiras que te deixei fazer no passar dos anos. O dizeres-me, no conforto de me veres sem saídas, que procuravas todos os dias por outras mulheres. Que não, não tinhas tempo para um último serão, porque os teus amigos esperavam por ti. As vésperas das minhas viagens, quando tinhas tempo para o mundo inteiro menos para mim. A minha vida que não valia nada perto da tua: um eterno desempregado à espera que um cometa passasse. Os teus dias que se somavam e tu não tinhas nada para me dizer. Esse eterno desprezo de quem se contentou com o que mais ninguém queria. Essas semanas que se passavam sem um telefonema teu. Essa falta de caracter que, olhando para trás, esqueceste. Não concebo pior filho da puta que tu.
Quando o amor morreu, eu achava que podia seguir com a minha vida. Que homem algum, alguma vez me faria passar por tudo isso outra vez. Mas depois aconteceu e todos os dias te odeio um bocadinho mais. Encontrei a minha vida cheia de estilhaços do que um dia deixei que fosses, com o medo de te encontrar em todos os homens que viesse a amar, com o medo de que outros iguais me vergassem perante a evidência de que não mereço, porventura, muito mais. Olho para trás e detesto-me por todos os domingos à tarde que perdi contigo. Pelo nada que eras e que em nada me convertias. Pelas frases ligeiras que só a tua profunda maldade permitia. "Ao fim do meu dia, nem por um momento me lembrei de ti".
Lamento raivosamente tudo isto. A total ausência de compromisso. A inércia. Os melhores amigos que nunca quiseram saber de ti mas que me batiam em prioridades. Aquela maldita tarde em Sintra. Aquele maldito filme no cinema que não querias ver. Aqueles tristes aniversários de namoro. Aquela estúpida necessidade de competires com a minha felicidade em vez de fazeres parte dela. Aquela eterna dúvida de quantas vezes te enganei sem que tu te importasses.
10/01/2012
20/12/2011
Cartas de Varsóvia
E depois de uma viagem que te levou até às tuas melhores pessoas, voltas com o benefício da dúvida que talvez o teu avião se arrependa e te traga de novo a Varsóvia. Entretanto tocaste finalmente o chão do aeroporto e podes ainda fingir que a tua vida nunca vai deixar de ser essa passadeira rolante sem fim à vista, a tua mochila imensa sobre as tuas costas, aquelas cadeiras de gente tombada que dorme sob tantas partidas e nenhum regresso.
Depois de uma viagem que te trouxe tanta esperança. Que te encheu ingenuamente de certezas. Que te mentiu e tu não reparaste. Depois de uma viagem que ensinou ao teu corpo que nenhum homem alguma vez te terá tão inteira como todos os teus amores de passagem. Depois de histórias assim, não há medo nem compromisso que te convença a ficar. Tudo em ti é insatisfação, tudo em ti é ansiedade. Dás-te às coisas a meio gás, queres ir embora, e queres estar sempre, sempre de partida. A vida que deixas para trás, a vida dos fortes e dos determinados, não te faz feliz. Já pouco interessa que não sejas um deles. Já pouco dói que te tiraram o chão demasiadas vezes. O chão já pouco te vale porque tu queres mesmo é ir embora. Num banco de 2ª classe de um comboio nocturno de um país sem língua, com os olhos brancos dos sem sono que partilham contigo a distância, ao som da radio que te falará eventualmente do teu país e da tua língua. E então Barco Negro estará outra vez na radio de um país sem língua e tu vais saber que vais para o sítio certo.
02/12/2011
Cartas de Coimbra L
Lembro-me bem. Demasiado bem. As histórias quebravam-se, as relações entravam em constantes adiamentos, a vida fugia-nos das mãos, eu surgia e ia embora, eles surgiam e ficavam, e hoje fazemos todos parte de gavetas fechadas onde ninguém consegue mexer.
Foi quase pornográfica, sabes? A pressa com que me esqueci. A pressa com que quis pôr todos estes pontos finais de uma só vez. Repetia em monólogo que a vida, a minha vida, era para se arrumar por passos. Um acerto de pontas entre cada inspiração. Por cada Foi um prazer, mesmo quando não o era. E no entanto, a velocidade das coisas não me deixava pensar. Era tudo barulho, gemidos, os recortes gastos das músicas de sempre, mãos que me puxavam, mãos que me perdiam, memórias dispersas e sem sentido, o sabor de um alcool que eu não bebera, de um cigarro que eu não fumara, de um beijo que eu não conhecia. Fomos estupidamente felizes.
E depois pegamos no que restou de nós, nas cicatrizes ainda quentes e voltamos ao ponto de partida. Temos as arestas limadas, o coração mais pequeno, as vontades de novo alinhadas com o que sempre fomos. Olhamos para trás e sentimo-nos meros compassos de espera. Era comigo que ele dormia quando ela não estava. Era com ele que eu deixava todas as conformações do mundo enquanto tudo o resto falhava. E sim, eramos estupidamente felizes. Inconsequentemente felizes.
10/11/2011
Cartas de Coimbra XLIX
Há dois anos, as opções esgotaram-se e eu fui embora. Ele não me queria e eu queria um lugar exclusivamente meu. Tornava-me mais invisível a cada dia que passava, e ele só a queria a ela. Naquela noite, fui embora como quem foge e, no virar da hora das decisões, fiz as malas e prometi que aquela noite nunca mais voltaria a acontecer. E, no entanto, vi o reflexo da mesma memória repetir-se em mim, dias a fio. A distância não nos protege para sempre e o tempo não cura coisa nenhuma. Não. O tempo não nos cura. O tempo não nos consola. Deixa-nos entregues a uma nova história que escrevemos por cima de tudo o resto, uma história como nunca ninguém a pensou.
Um dia ele disse-me que o amor dos tontos viria para explicar tudo o resto. A vida que não se define num ano de exílio. A vida enxuta de cerveja, seca de chavenas de café e de boleias sem destino.
Um dia, ele disse que viria, como o disseram todos eles. Como eu o disse. A traição foi-me explicada como se o eu fosse o mundo e o mundo o meu espelho. Senti que a história muda aos 21 anos como se soassem por fim as badalas iniciais do resto da nossa vida e como se tudo aquilo fossemos nós próprios e tudo aquilo, a nossa razão de ser.
De repente, posso ser mais do que o próprio sonho porque fui, vi e voltei, e o sonho foi de fronteiras, sexo, incenso e promessas. Perdemos todos a vergonha na cara, chorámos os amigos a cada madrugada de insónia, lutámos em vão contra orçamentos tão curtos pelos reencontros que nunca tivemos. Foi o melhor ano da minha vida. O lugar distorcido onde as emoções chocam e tudo nos falta.
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