21/04/2014

Cartas de Évora IV

Dei-me conta que não voltei ao Porto desde o dia em que nos conhecemos. Hoje, ao refazer a mala, descobri-me demasiadamente amarrada, com o peso de um para sempre que subsiste aos lutos que te fiz, com o desespero que é lembrar-me do que ficou por nos acontecer.
Encontrei fotos do hotel onde te vi pela primeira vez e percebi que te escreverei cartas até morrer. Foi por despeito, por negação e por raiva e hoje escrevo-te finalmente por tristeza. Sinto-te no balançar de todas as minhas viagens, em todos os homens de sotaque, em todos os cais de partida.
Percebi enfim que te amei demasiadas vezes, muitas mais do que as que materializei. Dei-te o melhor de mim, durante demasiados anos, e ainda ontem, o meu avião tocava na pista e eu deixava as lágrimas correr, indiferente ao molhado que desenhava no pescoço, no colarinho da camisa, na minha vida.
Trai três homens contigo e só do último te arrependeste. Foste sempre uma mentira na minha história - uma mentira porque ninguém acreditaria na nossa verdade.
Hoje sei, enfim, que te levarei sempre comigo. Acordarei todas as manhãs perguntando que horas serão no teu fuso horário. Perguntando se terás visto aquele filme, se conhecerias aquela música. Não concebo mais que te voltarei a ver - a negação foi embora, finalmente. Mas continuarei a procurar-te em todos os estranhos do mundo, em todos os bancos de aeroporto, em todas as filas de trânsito.

18/03/2014

Carta a Paris

Rues de Paris by Laurentlesax
A ti.

Não faria sentido lembrar-te, ou não fosses talvez o compasso de espera que nunca se justificou – nunca vieste, nunca soube porquê. Eu tinha afinal 20 anos e tremi por várias meias horas numa Paris à chuva. Não te confundo com a ausência dele, mas talvez com a miragem de uma vida que teria acontecido diferente se tivesses vindo. Éramos todo aquele potencial que eu sentia – em delírio, talvez –, que me formigava os ombros, atraiçoava as mãos, adiava o sono. Acreditei piamente que aquela podia ser a minha história – não a nossa, mas a minha. Quase à hora de fecho, desci e subi várias vezes o Père-Lachaise.  Pergunto-me como me explicarias naquele cenário. Trazia-te gelado comigo, na tentativa de não te prever, de fingir que não te esperei a vida inteira. Mas esperei.
Tudo isto foi real. Naquela noite, sobraram em mim – e em ti, sem dúvida – todas aquelas madrugadas que me prometeste. Era assim mesmo, dir-te-ia – naquela altura eu não chorava como agora. Fui embora e não voltei a Paris. Continuo o luto porque desejei aquela “história-triste-que-daria-boas-cartas”, mais do que tudo. Mais do que a ti. Investi toda a honestidade e traição e vergonha que trouxe daquela noite, na vertigem que seria viver-te de novo. Tenho-te raiva. Sinto-me longe de tudo o que fui, quando querer-te era um engano. Preciso continuamente de ir embora e esquecer que me falhaste, que eu te falhei, que eu nunca fui o que precisaste. Esquece o atrito. Esquece a rotina. Não havia nada disso – tenho a certeza – quando naquela noite te esperei na sombra dos monumentos.  Foi no dia 13 de Novembro de 2010. Perdoei-te esse dia, e os outros. Por favor, não me esqueças. Tu não me escolheste, mas eu escolhi-te (escolho-te) em todas as insónias. Fui feita para todas as portas que me fechaste, para todos os sambas que eu não dancei, para todas as cartas sem resposta, para todos os homens que chamei de outros.

Por favor, não me esqueças.

01/03/2014

Cartas de Évora III



Os fins como te lembras deles. A necessidade de queimares tudo à tua volta e encheres a tua vida com a cinza do que já não és. Foi sempre assim. O frio, a velocidade dos dias, os nomes que esqueceste. Estás a correr em direcção à neutralidade de um passado que nunca enterraste - precisas de ar, precisas de tempo. A música de outros dias dissolvida na angústia de todas as paragens de comboio que viveste. Falta-te o metal, as travagens, os estranhos sentados à janela. Falta-te a guitarra dele - o melhor dos inícios da tua vida. Já morreste de felicidade sem perceberes. Era amor, ou tanto faz. Eras tu a favor do mundo, sem decisões, sem espaço para remorsos. Eras tu, apaixonada sem risco, adiando crenças, relativizando a leveza com que as melhores pessoas entraram na tua vida. Queres, mais que tudo, voltar atrás. Reviver. A liberdade das noites cheias de neve, os passeios vazios de gente, a confiança dos teus passos. 

04/02/2014

Cartas de Évora II



A tua memória é puro erotismo, na maioria dos dias. Eu vou de vestido vermelho e salto alto. Cheiro bem, estou de passagem e quis o acaso que te encontrasse outra vez - seria Milão, São Paulo? Não sei. Tanto faz. No resto dos dias, acordo de olhos vermelhos, escondida no perigo que é viver-te a tantos quilómetros de distância, a tantos dias de silêncio. Não entendo o que nos aconteceu. O que me aconteceu. A gente vai cruzando países e já qualquer homem nos serve e eis que, de repente, que não, que tinhas de ser tu, que todos os outros te ficam na sombra e tu nem eras excepcional como prometido. Faço calçadas e calçadas de ruas, perguntando às pedras se trocámos o orgulho por paixão, o despeito por promessa. O teu rosto, o teu nome, o teu sabor. Lembrar-te é quase pecado. Fazes-me falta onde nunca exististe. O teu lugar é no meu corpo e o meu lugar não é nenhum. Choro porque sim, por teimosia, por não poder largar-te, não ainda. A tua memória é puro erotismo e eu preciso dela - depois dela, não há mais nada. Depois dela, já nada me interessa.
Tudo isto é frio e tudo isto é novo para mim. Não me lembro da última vez que fiquei para trás, convencida que tudo não passara de um engano. Porque é isso que eu penso. Um dia vais ligar. Um dia vais me ver no aeroporto de Milão, ou Madrid, ou Frankfurt, e eu estarei de vestido vermelho e salto alto. E nessa noite, tanto faz. Talvez te despreze, talvez te veja como da primeira vez. Olá o meu nome é Bea e volto amanhã para França. Hoje tanto me faz.

19/01/2014

Cartas de Évora I

(...) Mas não era isso. Pelo menos dessa vez não era isso, e creio que nunca chegou a ser. Durante o tempo em que estivemos juntos, um Verão inteiro, lembras-te? Evitámos o drama, ou evitaste-o tu pelos dois, e é isso que eu dizia, a vida descrita por ti devia ser um vulcão de excessos, uma aventura no limiar do irracional, era quase uma ficção, e eu deveria ter percebido que essa é a tua maneira de viver, um romance vale mais que mil ensaios, dizias muitas vezes, e tinhas razão, pelo menos tinhas a tua razão, e é por isso que percebo o que querias dizer com a história do bêbado e da vida dele, sim, cada um vive por dentro a sua própria metade da vida convencido que é apenas uma metade, mas na realidade é a sua vida inteira, a sua vida incomunicável, sentida como coisa tão inteiramente sua que nem sequer vale a pena partilhá-la, e isto é mentira, é uma mentira moral, não se trata de não valer a pena, isso é uma desculpa com que se ilude o pavor de não se poder transmitir e partilhar, estamos tão longe uns dos outros, é isso que eu sinto, como estou longe de tudo e de ti, meu amor. (...) Sentia que me amavas por fora de mim, que entre nós só existia uma precariedade feita do simples desejo de estarmos um no outro, e que isso tornava absurdo todos os sonhos que sonhara contigo, tenho pudor em escrevê-los e também agora já não interessa, mas a minha vida imaginada ficara pelo caminho e eu tentava desesperadamente perceber onde é que falhara e, era curioso, ao mesmo tempo tinha a sensação confortável de que o nosso fora um episódio sem falhas, nem tuas nem minhas, e isso revoltava-me, porque era injusto que duas pessoas tão obviamente feitas uma para a outra, desculpa a vulgaridade, se atropelassem assim, na pressa de partirem cada uma para seu lado (...).




por António Mega Ferreira

14/01/2014

Cartas do Brasil II

Sinto que foste tu que foste embora e que eu nunca sai da zona de embarque do aeroporto. O beijo que me prometi não aconteceu e eu não parei de sentir frio desde então. Choro quando não consigo mais fingir que tu vais voltar. Tento falar com toda a gente, ser de toda a gente, perguntar se te conhecem.
Na última semana, os meus pesadelos tornaram-se mais reais. Belisco-me repetidamente para acordar, mas do lado de lá, eu ainda faço parte da tua vida - e do nosso imaginário.
A tua fantasia morreu, mas a minha ficou. Vive da dúvida de não saber para onde foste, porque é que não me procuras mais, porque é que o despeito se finge de amor, porque é que estavas naquela noite, naquele hostel, perguntando pelo meu nome e pelo meu destino.
De ti (agora, entendo) sei tão pouco que foi quase suicida dormir abraçada às tuas costas. E lembrar-me em ciclo de tudo o que podiamos ter sido, sem o consentimento de ninguém.
Enganei-me sobre o quase tudo que eras - esse quase nada engasgado na falta de jeito para me mentires. Tentei simplificar-te e não fazer perguntas. Vim embora sem saber o que fazer com a minha vida, sem saber o que fazer contigo, com a roupa que usei na tua cama, com as fotos que oportunamente esquecemos de tirar.
Hoje começo a minha vida do zero, pela enésima vez. Já desfiz as malas por completo. Já fiz o meu primeiro jantar. Vivo sozinha pela primeira vez - e trago-te minando o meu tempo, o meu sono, os meus lugares. Imagino-te repetidamente deitado do meu lado - mas depois lembro-me que tu não és assim, que talvez aqueles nem sejam os teus traços, que definitivamente aquele não é o teu jeito. 
E assim, finjo que avanço, arrastando-me por ruas que não são minhas, na expetativa de te perder por fim na próxima esquina. 

17/12/2013

Cartas do Brasil

Eu estava apaixonada quando naquele dia 13 o avião atrasou duas horas. Viajava há 15 dias pelo Brasil - tive chuva, tive sol, linhas de comboio cortadas, pão de queijo e cachaça mineira. E então era dia 13 e eu estava apaixonada por um homem que conhecera 3 anos antes e que vira 3 vezes na vida. Gosto de acreditar que foi por outra razão que cheguei a SP  naquele dia. Que é por outra razão que contei os dias e contei as horas desta forma. Que desejei que o tempo não nos adiasse mais, que desejei que o tempo congelasse naquela minha última noite em SP.
Todos disseram que não haveria amor em SP, e eu vim mesmo assim. Tudo foi verdade - por isso acordamos como dois estranhos. Talvez lamente tudo isto. Talvez um dia lamente tudo isto. A vila, o samba, a Paulista. A gente deu aquele último beijo sem graça; sentiamos que encerrávamos a nossa história que nunca foi o que fizemos por ela. Apesar de tudo, com 24 anos, fiz as malas e amei um paulista por 3 dias que demoraram minutos, com a certeza de que não nos veriamos nunca mais. Bebemos aquele tanto, ouvi Samba noite dentro, dormi com Maria Betânia, despedi-me com Gonzaguinha. Diria mesmo que tenho inveja da vida que tive. Ainda que nunca tenha havido amor em SP.

06/11/2013

6 de Novembro de 2006

Hoje o Cartas de Coimbra faz 7 anos. De uma escola secundária de Lisboa à Universidade de Coimbra. Das Cartas de Lille às Cartas de Bordeaux.
Vivi aqui o antes, o durante e o depois de Ti. Hoje parece que aconteceu tudo a uma outra pessoa, numa história diferente.
Criei este espaço para ficar perto da pessoa que mais amava. Foram anos e anos de desencontros - achava eu. Foi no dia em que deixamos de nos amar que eu vivi um verdadeiro desencontro e, desde então, a minha vida não foi outra coisa senão isso mesmo. Mas nos desencontros encontrei parte das melhores coisas do mundo, e nos Regressos as lições mais duras dos últimos 7 anos. Depois olhei em volta e vi que estava toda a gente a ir-se embora.
Não sei se o mundo foi sempre assim, ou se isto é o Portugal que sobrou para nós.

28/10/2013

Cartas de Lisboa XVIII

É nestes dias em que as coisas más acontecem. Como quando na enfermaria te falam de melhoria terminal e no dia seguinte o teu doente morreu. Assim são os dias de aniversário, com o frenezim das mensagens e dos telefonemas e das surpresas. Assim as cervejas bebidas com pressa. Assim a ressaca de todas as coisas boas: és insultuosamente feliz e depois faz-se silêncio e tu juras que podias morrer asfixiada nesse compasso de espera. Este dia já foi de todas as formas e tu querias seguir sem bagagem, sem ressentimento. Recebeste 145 mensagens, mas é das ausências de que te lembras. É daquele ano de que te lembras. Daquele futuro que se fechou, sem que nunca tenhas aberto um que o compensasse. É de Coimbra de que te lembras. É dele de que te lembras.
E no entanto, e apesar de insultuosamente feliz, e apesar de teres chorado de tanto rir, de teres sorrido de tanto lembrar, a noite fez-se de um silêncio insuportável. Querias ser melhor por todas as coisas incríveis que viveste hoje, mas tudo em ti é uma estúpida e injusta ausência.

07/10/2013

Cartas de Lisboa XVII


Encontrei-me novamente com a estranha que boicotou todos os projectos em plasticina que eu jurei fazer voar. Pergunto-me quantos planos nos correram mal e quantos esboços de nós dois nunca saíram do papel. Ou que nunca passaram de plasticina. Sei que ficámos estanques, pesando na vida um do outro, como pesam os outros nas vidas de que não se arrependem.
Mas eu era a estranha, a dita estranha. E isso da faca e do queijo na mão não era para mim: eu não conseguia decidir. Não era a dor da escolha, era a dor da renúncia. A responsabilidade das pessoas felizes. E num momento de pânico, eu diria (novamente) que não queria mais, que queria começar do início. Que não queria mais as músicas onde nos encontrámos a vida toda – sim, como se tudo isto tivesse durado uma vida. Faz tanto tempo que tento escrever e sinto que os meus constantes erros me interrompem. Ontem alguém dizia que todos temos um ideal de história de amor pessoal e eu sou da geração dos amores de viagem. A morte já não nos leva o coração, são afinal os intercidades e as paragens de metro. Aos 20 anos, separámo-nos mais do que o teríamos feito há 30 anos atrás. E no entanto, nunca fomos capazes de mudar a nossa rota – mesmo que isso tenha sido afinal uma derrota e não uma forma dissimulada de heroísmo. Passou-se enfim tanto tempo e eu continuo com este gosto a ressaca e metal na boca que me lembra todo o amor que ficou por resolver. Talvez o amor seja uma mentira. Ou talvez eu seja uma mentira. Mas, fosse como fosse, eu achava-me uma pessoa completa e eu achava-te outra pessoa completa. Assim como a ele, e a ele, e a ele. Mas em mim não havia pontos finais – coisas próprias de quem fala português. Em mim havia tantas histórias incompletas à espera de seguimento, que no fim do dia, eu nem sabia a quem devia fidelidade afinal.