23/09/2011

Cartas de Coimbra XLVIII, o regresso

Ainda bem que não pedi que viesse. Tenho no corpo a tentação de prosseguir na espiral que foram os últimos 12 meses, de olhar para trás e chorar até não me conseguir mexer. Foi há quase um ano que um homem normal me trocou o coração por um Fado de Amália, me guardou sob um chapéu-de-chuva uma noite inteira, me prometeu que o mundo jamais voltaria a ser o mesmo. Há dois meses, um homem normal deitava a cabeça no meu peito despido e desenhava fórmulas quiméricas na pele dos meus braços tensos e inúteis. A vida era uma perfeita aventura e hoje uma provocação constante para que me equilibre entre o sonho e o pesadelo de ser parte de Coimbra outra vez. Eu não sou parte de coisa nenhuma. Não pertenço aqui e naquele longe que se fez tão perto, fomos apenas pedras demasiado versáteis que nos encaixávamos onde tudo se poderia encaixar. Não sei sequer do que sinto falta. Aos poucos, vou-me sentido novamente inteira. Os medos, as crises de choro, os caprichos, o álcool entornado em todas as memórias de amor e ódio... tudo isso sou eu, foste tu, nós dois e os outros, ao tudo que roubámos entre lençóis, ao tudo que descobri com a sobriedade e a tristeza das manhãs. Fui feita para ser uma eterna exilada. Sou boa no limiar da tristeza, mas não aguento os compassos de espera, em que os homens da nossa vida se desvanecem e os nossos melhores amigos nos falham e, vamos realizando sonhos de uma vida sem que os brindes com vinho da casa nos satisfaçam.

10/08/2011

Cartas de Lisboa XII

Lisboa. E eu só queria ama-la assim na distância das inconsequências, uma emigrada para sempre, com o corpo alheado nas mãos erradas. Tenho saudades dos homens improváveis. Das histórias de amor de um inverno quente e maravilhoso, um abrir continuo de portas, um fascínio inquieto pelos lugares onde nunca estive. Lisboa. Estou de volta.

27/07/2011

Cartas de Lille XXIV

Há trinta minutos perdia a compostura e emocionava-me na Catedral de Rouen. Saía de cara mergulhada em lágrimas, com o mais parvo dos sorrisos. A minha mais ineficaz forma de agradecer tudo o que de terrível aconteceu nos últimos meses. A todos os cépticos ou homens de razão, a felicidade, aqui entre nós, tem a mão de Deus. Ou, com toda a naturalidade, a memória de dias felizes não é mais que uma porta de saída para pegarmos nas nossas vidas suspensas e partirmos até onde o coração nos levar.
Vi as pessoas menos prováveis chegarem à minha vida. Troquei todas as formas de Adeus com os homens que serão sempre, por definição, os homens da minha vida. A França explicou-me, em palavras caras, a ironia dos viajantes: como te deitas nos braços de alguém que não verás nunca mais. Fez-me sentar infinitas vezes à borda de tantas camas e à margem de tantos rios. Fez-me amar porque chovia e ser incompreensivelmente feliz porque fazia sol, contra todas as previsões. Dei-me conta do quanto adoro o cheiro das igrejas, o arrepio de entrar na penumbra e no frio dos lugares que aprendi a temer.
Acima de tudo, encontrei-me em bocadinhos dispersos. Em salas de pintura Impressionista, em corredores de aeroportos, em copos de vinho tinto. Sorri a todos os estranhos de mapa na mão e lembrei-me de nós dois. Sinto ainda o remorso de amar-te e não estar pronta para concretizar em ti, seja o que for.
O sino da Catedral treme-me nas mãos, no escorregar duma primeira e última cerveja. Eu sonhei com esta vida e sinto-a desvanecer-se ao mesmo tempo que a materializo em palavras. Só espero que um dia acredites que tudo o que se passou aqui foi muito maior que mim própria.

Rouen, 25 de julho de 2011

17/07/2011

Cartas de Lille XXIII

Respirei três vezes fundo e enviei a última mensagem para lhe dizer que nunca mais nos iríamos ver. E pouco depois, de respiração suspensa, li aquela última resposta de cordialidade e indiferença, toda ela carente de qualquer pontinha de despeito. Dei por mim no sítio onde o conheci, há tantos meses atrás, e compreendi tudo aquilo que custa compreender à luz do romance. Mas um dia o romance fica para trás, naquela estação apinhada de gente, naquele quarto tão completamente estranho para mim. E não nos doí quase nada, porque amor é uma outra coisa, e debaixo de tanta crosta mal cicatrizada, fiz o que pude, dei tempo ao tempo e decidi não o procurar nunca mais. Dizem que a vida se arruma por passos.
E no entanto, 11 meses se passaram, sob chuva constante, no passo lento de todos os meus regressos a casa, na implacável busca de um referencial para quem, não importa a que horas, pudesse voltar. Enterrei, uma por uma, todas as histórias. Reli pela última vez os primeiros emails, guardei para sempre todas as lembranças numa caixa de cartão, desfiz-me do que pudesse manter viva toda a espécie de rancor ou esperança.
Só não sei o que fazer contigo.

07/06/2011

Cartas de Lille XXII




Faltam dois meses para encerrar o que foram os melhores, os mais loucos e indesculpaveis dias da minha vida. Fui tudo o que, por definição, não sou e que, no fundo, fui feita para ser. Uma hedonista, uma irresponsavel, uma vendedora dos sonhos alheios. Uma perdedora de sorriso nos labios. Ontem, como sempre, no regresso a casa, revi-me na magia de ter 21 anos e caminhar sozinha e sem trunfos, na noite de Lille ou de outra qualquer cidade da Europa. Em mim trago um italiano que desapareceu sem rasto, um marroquino que queria o coração de todas as mulheres do mundo, um iraniano encantador de serpentes. Debaixo da pele, os amigos por quem teria dado a vida, não importa os muros que mantivemos entre nos: Espanha, Polonia, Hungria, Estonia, China. Tudo isto aqui tão perto. Tudo isto que era o meu chão e que se desvanece aos poucos, com a facilidade das coisas precarias.

E depois, as minhas partidas. A noite fria de Paris na entrada da Catedral Notre Dame, onde esperei sozinha e, apesar de tudo, não consegui chorar. O ritmo alucinante dos sem sono, sem manhãs e sem regras. A pontualidade das cervejas que nos traçam o sangue e nos empurram para o vendaval de historias que tu nunca ousaste ouvir.

Amsterdam. Para sempre. A eterna memoria de um romantismo que nunca existiu e contra o qual luto para que não se repita nunca, nunca mais. E ainda assim, todas as noites acordo nos braços do mesmo canadiano de olhos claros, com o mesmo sabor metalico de raiva, desilusão, capricho.

E de volta a Lille, toda a gente que me prende na eternidade de um so olhar e que me faz tremer por dentro. Os franceses que me esperam ainda naquela mesma estação de metro. O mercado dos domingos de manhã onde procurei o meu sentido, meses a fio. O Brasil dos meus sonhos, a Alemanhã das nossas melhores pessoas, toda esta vontade doente e insuportavel de partir e de nunca chegar, de repetir Bruxelas uma e outra vez, de ser feliz apesar de tudo estar errado, de seguir descuidadamente com os dias, sem ousar olhar para tras.

Um dia talvez, a alucinação acabara por passar. Mas hoje ainda, vivo o que so se vive nos filmes. Dou por mim entre o precisar de me encontrar e o precisar contante de me perder. Não sei quem realmente sou, mas nunca o soube. Nada disto me trouxe sabedoria, dinheiro ou verdade. Apenas magia. E, entre nos, não sei se alguma vez poderia pedir mais que isso. Vivi o que as mulheres como eu alguma vez vivem. E por tudo isto, e pela inconsequência dos amores bilangues, das paixões mudas e dos amigos eternamente de partida, obrigada.

26/05/2011

Cartas de Lille XXI



So I'm waiting for this test to end So these lighter days can soon begin I'll be alone but maybe more carefree Like a kite that floats so effortlessly I was afraid to be alone Now I'm scared thats how I'd like to be All these faces none the same How can there be so many personalities So many lifeless empty hands So many hearts in great demand And now my sorrow seems so far away Until I'm taken by these bolts of pain But I turn them off and tuck them away 'till these rainy days that make them stay And then I'll cry so hard to these sad songs And the words still ring, once here now gone And they echo through my head everyday And I dont think they'll ever go away Just like thinking of your childhood home But we cant go back we're on our own Oh, But i'm about to give this one more shot And find it in myself I'll find it in myself

So were speeding towards that time of year To the day that marks that you're not here And i think I'll want to be alone So please understand if I dont answer the phone I'll just sit and stare at my deep blue walls Until I can see nothing at all Only particles some fast some slow All my eyes can see is all I know Ohh.. But I'm about to give this one more shot And find it in myself I'll find it in myself



11/05/2011

Cartas de Lille XX

Amar-te terá sempre o desfecho sensato de quem já sentiu isto antes. Entregar-me de novo ao sono e rever uma e outra vez aquela mesma porta de entrada, aqueles mesmos passos de dança que nos levariam impossivelmente ao mesmo lugar. Quero deixar-te seguir a tua vida, mas tenho-te caprichosamente debaixo da pele. Não me adianta mais fugir, fingir a postura ou a indiferença. Lembro-me bem demais do teu cheiro e isso basta.
E, feitas as contas, ambos sabemos quão desonesta sou em pedir-te um último abraço. Eu quero-te inteiro, num impulso nocturno e sincero, que fala da vertigem que é ainda pensar em ti e no turbilhão de imagens que criámos juntos. Porque eu sempre soube que aquela última madrugada me traria presa para o resto da vida. Ou talvez presa já eu estivesse e apenas não to pudesse dizer.
Seremos sempre o paradoxo dos problemas que não existem por lhe termos esgotado todas as soluções. Mas, dizias tu, ninguém se rala.

06/05/2011

Cartas de Lille XIX

De alguma maneira, sei que já aqui estive. Este limbo, já sem piada nenhuma, que me mantém suspensa nas retóricas dos meus 15 anos. Eu tinha medo de ser sozinha e secretamente sabia que ia ser assim. A sábia paciência de encontrar o quanto O quero, no tanto que preciso dEle. Os baldes de água fria, a escorregarem-nos pelas costas hirtas, pela boca entreaberta de susto, pelos punhos inertes e fechados.
Depois dos 20, o pai passou a dizer-me que não devia voltar nunca mais aos sítios onde fui feliz. E eu... eu entretinha-me a esmiuçar a vida, a conta-la pelos dedos das mãos, e percebia, enfim, que não devia voltar nunca mais aos homens que me fizeram feliz. E eu dizia: não, pai, deixa-me ir, deixa-me cuidar deste meu mundo cão, destes homens repetidos que me trocam o coração por um maço de tabaco, que atravessam o oceano esquecidos de mim, que me conquistam os sonhos por tuta e meia. E assim me fazia mulher, pensava. Assim me esquecia da minha pequenez e brincava com o fogo, tal bonecas: nome, idade, passado e destino. De repente, são de novo 5h da manhã e eu sou de novo eu, aterrada de medo, dobrada sobre falsas memórias que nunca foram nossas. Tão certo como uso os dias para dormir e as noites para chorar. Mas por favor, não digas a ninguém.

01/05/2011

Cartas de Lille XVIII

Só queria dizer que trago comigo vida para lá do que tu alguma vez poderás imaginar. Que não sou capaz de voltar ao início, porque trago comigo paixões e desgostos que tu nunca poderás compensar. Que tu nunca poderás respeitar.

Só queria dizer que em mim há pouco mais que o sabor metálico das viagens e isso consola-me. Consola-me porque vejo nos outros uma multidão de partida, uma multidão que, como eu, estará sempre, sempre de partida.

A verdade é mesmo assim, sabes? Essa verdade que não admites – a verdade que ele não admite. Eu estarei sempre de partida. Feita em cacos, na penúria de uma memória que insiste em revê-lo, em acordes já sem brilho, em guitarras sem charme. Já não se trata de amar ao desbarato, sem travão. Trata-se de fugir. Trata-se de não conseguir ficar. De não conseguir olhar para ele, nem para ti, e achar que o glamour dos vinte anos me escorregou deliberadamente das mãos. Que fiz as escolhas de ocasião por mera estupidez. Porque não fiz. Fi-lo com a sensatez dos velhos, que olham para trás e sabem que a inconsequência e o exagero aconteceram no tempo devido.

E depois, em mim sobra apenas a gestão dos que vão e das marcas que deixam; dos que desapareceram um dia, no ar, sem morada ou rasto. Em mim sobraram os que não me dão consolo porque, de repente, Coimbra se tornou um labirinto sem graça, onde os vícios se repetem indefinidamente, e onde eu não tenho, nem nunca tive, um mero lugar.

Aqui, a solidão é uma ressaca de dois dias. Aí, a solidão acorda comigo todas as manhãs e não há maquilhagem que a esconda. Acordar novamente com o desconcerto de estar longe – e ao mesmo tempo, tão estupidamente perto... lamento, mas não importa quanto me pregues, tenho o coração em permanente fuga.