01/05/2011

Cartas de Lille XVIII

Só queria dizer que trago comigo vida para lá do que tu alguma vez poderás imaginar. Que não sou capaz de voltar ao início, porque trago comigo paixões e desgostos que tu nunca poderás compensar. Que tu nunca poderás respeitar.

Só queria dizer que em mim há pouco mais que o sabor metálico das viagens e isso consola-me. Consola-me porque vejo nos outros uma multidão de partida, uma multidão que, como eu, estará sempre, sempre de partida.

A verdade é mesmo assim, sabes? Essa verdade que não admites – a verdade que ele não admite. Eu estarei sempre de partida. Feita em cacos, na penúria de uma memória que insiste em revê-lo, em acordes já sem brilho, em guitarras sem charme. Já não se trata de amar ao desbarato, sem travão. Trata-se de fugir. Trata-se de não conseguir ficar. De não conseguir olhar para ele, nem para ti, e achar que o glamour dos vinte anos me escorregou deliberadamente das mãos. Que fiz as escolhas de ocasião por mera estupidez. Porque não fiz. Fi-lo com a sensatez dos velhos, que olham para trás e sabem que a inconsequência e o exagero aconteceram no tempo devido.

E depois, em mim sobra apenas a gestão dos que vão e das marcas que deixam; dos que desapareceram um dia, no ar, sem morada ou rasto. Em mim sobraram os que não me dão consolo porque, de repente, Coimbra se tornou um labirinto sem graça, onde os vícios se repetem indefinidamente, e onde eu não tenho, nem nunca tive, um mero lugar.

Aqui, a solidão é uma ressaca de dois dias. Aí, a solidão acorda comigo todas as manhãs e não há maquilhagem que a esconda. Acordar novamente com o desconcerto de estar longe – e ao mesmo tempo, tão estupidamente perto... lamento, mas não importa quanto me pregues, tenho o coração em permanente fuga.

07/04/2011

Cartas de Lille XVI


your little heart by ~mala-lesbia

Não sei que consequências virão deste desatino, mas neste momento levo comigo o peso e a tristeza de ter encerrado o que foram, talvez, os melhores dias da minha vida. Partir assim, num impulso quase virgem, fez-me ver o quão isto não passa de um sonho tolo, irrepetível, onde liberdade e desprendimento começam no cruzar das fronteiras. Foi mágico, sabes? Perder-me assim nos abraços dos amigos, na intimidade dos nossos melhores amigos, no encanto dos desconhecidos que me deram abrigo, nos olhos azuis dos homens que procuraram a minha boca. Bonn, Köln, Amsterdam. Sinto-me ainda trémula e gelada pela pressa da partida. Há 6 horas que parti e parece que passaram 5 minutos desde que o deixei no cais da estação.

O que ele não sabe é que tu ligaste ontem à noite, enquanto ele dormia e que, apesar de tudo, eu não percebi o que me querias dizer. A vida seguiu o seu curso e eu olho para trás apenas para não conseguir perceber como vim aqui parar. Sou uma mulher de ideias e reacções fáceis, mas desfruto apenas dos rituais das chávenas de café que antecedem tudo o resto.

No meu espírito, contudo, nada mais que a insatisfação e a amargura das coisas precárias. O “Adeus, até um dia” que faz da nossa vida um eterno livro de repetições felizes, que jamais nos contentam. Foi bom demais para ser verdade, e no fim, tarde demais, percebi que nunca passou de uma mentira.

26/03/2011

Cartas de Lille XV


E há os eles da minha vida. E exististe tu. E eu existo e não entendo os contornos disto. Consumida nas pequenas misérias a que chamei vitórias. Segura num mundo movediço com sabor a vinho branco. Lamento, mas isso de nada me serve, porque o amor bateu a porta e eu abri a porta errada. Os homens continuam a desapontar-me pelo reflexo que vejo de mim própria. A promessa intempestiva de que tudo tem um prazo e de que tudo trás mágoa. E o charme cego de tudo aquilo que trás horas contadas.

Hoje de manhã, acordei de corpo tombado à cabeceira da cama, de maquilhagem rasgada na palma das mãos. O orgulho tem razões que a própria razão desconhece. E um dia, inevitavelmente, vou ficar indiferente ao tudo que se passa, ao tudo que se rouba no pedaço de chão entre dois bares. Vamos dar por nós destilados de raiva e de paixão, encostados à porta de serviço, a ignorar o cubo de gelo que seguramos na boca.

18/03/2011

Cartas de Lille XIV

Às vezes tenho a certeza que ela tira prazer de me magoar. Que ela me vê por dentro e vê o que falta e vê onde doi. Quero sair daqui mas não consigo. Não sei o que fiz de mal, não sei o como podia ter feito melhor. Quero seguir a minha vida mas ela não me deixa. Quero poder trabalhar sem ter o expectro dela a assombrar-me. Tenho medo que ela minta aos outros a meu respeito. Que ela queime as minhas roupas. Que ela me grite. Tenho medo da minha dependência, sem que dela precise para nada. Tenho medo das represálias e tenho medo da minha passividade e da minha insegurança e do efeito surpresa. Quero a minha dignidade de volta e para isso preciso de não ter medo do barulho insurdecedor das portas que ela bate, dos silêncios que ela maneja. Por favor, meu Deus, faz com que pare. Já não tenho a outra face para dar. Aliás, nunca imaginei que tivesse tantas. Por favor, faz com que pare. Eu hoje só queria poder trabalhar, distrair-me com a meteorologia, comer bolachas a tarde toda. Eu hoje só queria paz.

26/02/2011

Cartas de Lille XIII


la rue. by *moumine

Eventualmente, as expectativas mudam. Conformam-se. Seguimos o rumo patético das adolescentes tardias. Para nós sobraram amores trincados e deitados fora. Pessoas embrulhadas em papel prata que não conseguimos reciclar ou vender. Os lugares queimam-me. Cheios de uma nostalgia que finalmente se começa a desprender e a tornar-se culpa. Sabotei-me repetidamente até não fazer sequer sentido esperar seja pelo que for. Já não há lugares mágicos em Lille. Há espelhos partidos por toda a cidade onde vejo a minha imagem distorcida pelo despeito. Já não há amor ou beleza nos nossos sorrisos. Há fantasmas, habituação, vontade mesquinha de novos zeros que nos permitissem fazer de conta que nada aconteceu. Um dia, vamos voltar a ver-nos e na intensidade de tudo o que foram os últimos meses, vamos perceber a dimensão dos esqueletos que guardamos no armário. O que acontece aqui, morre aqui. Mas não morre. Não morre nunca. Cicatriza talvez e no lugar do vazio com que aqui chegamos, levamos todo este lixo emocional, repetido em todas as línguas do mundo.
Eu sei que vamos ficar bem. Como ficamos sempre depois dos rituais de passagem. Mas sei também que há perguntas que nunca deveriam ter sido ditas em voz alta. Que há lugares em nós onde nunca deveríamos ter entrado.
De repente, sinto-me uma perda de tempo e já não há ninguém que me reste por desiludir. Não fui feita para usar bata branca.

02/02/2011

Cartas de Lille XII


O frio das primeiras horas da manhã não tem preço. Tem o gosto destemperado dos sonhos que interrompemos. Deus tem comigo demasiados segredos. Na minha cabeceira, não existe senão a consciência da precariedade das coisas, erros por defeito, tristeza revestida por tantos porquês suspensos. Que me perdoem, mas a minha vida ficou para sempre condensada naquela tarde. Passaram-se 4 meses e a expectativa continua infiltrada em todas as minha ideias. O rosto dele presente em todos os homens. O pavor da sua presença a minar a minha insuficiência. Que me perdoem, mas ha qualquer coisa de irresistivel na ideia de o procurar pela cidade e de nunca o ter achado. De ouvir vezes sem conta a musica que me tera tocado, de sentir a dimensao de todas as hipoteses que se abriram e se fecharam com o desgaste de uma vontade assim, tao estupidamente perturbante.

Na minha cabeça, aquela noite repete-se em flashes. Não posso sequer acreditar que aconteceu. Lille esta cheia dele, e Lille esta cheia de pressa. Vou traze-lo comigo para o resto da vida, estampado tal uma vertigem naquilo que foram os meus 20 anos. Não concebo a ideia de ter envelhecido e de repente isto tera sido apenas uma mentira. Um jogo de sensações a ameaçar levar-nos a loucura. E apesar disso, a humanidade deste desfecho tera sempre uma razão de ser, o fazer-nos voar apesar do quão pesada trazemos a consciência, o fazer-nos chorar por mais que sejam lagrimas de crocodilo. Preciso esquecer.

30/01/2011

Cartas de Lille XI



O primeiro metro da manhã. O frio das nossas mãos ainda quentes, o bocejar de uma noite a preto e branco, a distância dos meus olhos por não saberem onde trago o coração. Viver assim e os estragos que faz. Os homens que não amo e com quem me deito. Os homens que amo e que hoje ainda procuro na mesma rua, na janela que hoje ainda não sei qual é. Os cheiros de um mercado com a tradição gelada dos domingos de manhã. As caras que nunca são a que eu mais procuro. Os acordes que nunca são os da guitarra que eu realmente quis. A sensação de caminhar vazia, no desconcerto que é sentir as palavras nascerem-me de um arrepio, no desconcerto de amar toda a gente e ninguém. O reboliço e os pregões dos vendedores árabes que têm os mesmos olhos dos homens que não me quiseram, dos homens que me venderam, dos homens que não escutaram o que a minha respiração dizia. A minha verdadeira natureza, moldada num rosto que foi teu. Escrita num corpo que eu achava que seria teu para sempre.

No primeiro metro da manhã, não me reconheço mais nem sei o que faço aqui. E no entanto, neste equilibrio de mágoa e despeito, de sexo e traição, sinto-me suspensa, a pairar sobre a realidade, uma realidade que, um dia talvez, eu perceba, foi apenas cobardia, mentiras de resolução adiada, cinismo, falta de caracter. E ainda assim, estou, sem qualquer engano, onde deveria estar, onde deveria ficar para o resto da minha vida.