06/11/2010

Cartas de Lille VI


Estraguei tudo. A mistura do prazer mudo com a tua memória. O reggae injectado nas nossas veias. O regresso à terra. A impotência de saber exactamente o que se quer, agora sem dúvida nenhuma. Desculpa estar tão longe. Tudo isto é um labirinto de gente e eu ia bem até me perder e ficar sozinha outra vez. As guitarras calaram-se. Ficou aquele silêncio magoado do fim de uma era. Angústia, ansiedade, um eterno lamento. Sinto que uma oportunidade de uma vida me fugiu das mãos. Que a deixei cair, que a parti em demasiadas partes, que fiquei coberta com o pó, o cheiro e a cor de uma repetição de noites que eu não planeei. Foi uma miragem. Continuo eu mesma. Pacientemente deslumbrada com a mais pequena demonstração de afecto. Um corpo quente a arrefecer ideias na transparência de mais uma noite.

30/10/2010

Cartas de Lille V

Aquela era a última cerveja. Lembro-me dele perguntar qual a parte do meu corpo que gostava mais. Eu disse: os meus ombros. Ele disse: as minhas mãos. Ele perguntou qual era o meu apelido. A conversa derivou para qualquer coisa que eu já esqueci. Alguém dividiu uma cerveja comigo. Alguém dividiu mais três cervejas comigo. Alguém me trouxe a casa. Sobraram sensações e cheiros do mesmo bar de sempre, frases inacabadas ou que perderam sentido no volume da música. Talvez hoje eu reformulasse os diálogos, mas eu já não sei ser sóbria. Depois de dois meses, eu já não sei nem quem sou nem o que quero. Todas as manhãs ressaco na cama as loucuras que me propuseram. Apanhar o primeiro comboio que sair daqui e ao mesmo tempo ficar. Não depender financeiramente de ninguém e poder ir para outro sítio e poder começar do zero outra vez. Fazer do medo adrenalina. Quero demasiado que a minha vida e o que faço com ela valham a pena. Não importa se resolvemos seguir para um plano B ou plano C. Estou bêbeda de ansiedade e sinto que me movo com uma multidão de gente à minha volta a empurrar-me em todos os sentidos. Há demasiados braços e demasiadas bocas para me enlaçar e me prender. Mas ainda assim, sou e serei sempre um templo guardado para ti.

Já sinto tremores. Não quero pensar no quão doente estou. Pergunto-me se quando a alucinação parar, vão doer mais. Não me sinto cair, mas há aquela sensação permanente de vertigem. Eu sei que é apenas uma ressaca. Estou a refazer-me aos poucos, sentada no chão da lavandaria. Quero voltar a Paris, ao Porto, àquela sala vermelha que cheirava a incenso. Quero voltar a Bruxelas. Quero a liberdade de espírito dos homens que conheci aqui. Estou viciada em pessoas. A amizade já não chega. Tento sugar todo o magnetismo que têm. Meu Deus. Acho que vou estragar tudo. Há solidão nisto tudo e, ainda assim, tu estás sempre comigo e eu estou sempre contigo. No meio da noite, paro e o teu rosto conforta-me. Serás sempre a minha pessoa, mesmo quando voltas a casa e eu sei que ambos queríamos estar noutro lugar. Um dia, vais embora e não voltas mais. Não te desejo menos. Também tu te embriagaste na minha ausência. A China profunda, os olhos azuis e os olhos negros das mulheres da tua vida. Entre nós, há um acordo tácito de não falarmos delas nem deles. Amamo-nos e por isso não podemos negar vida um ao outro. Somos um abrigo juntos mas estamos sempre a partir. Consigo lembrar ainda os teus olhos e as tuas mãos cheias de vontade, o calor e o cheiro, as manobras e os detalhes que só tu conheces sobre mim. Às vezes tudo isto te assusta. A cumplicidade demasiado conformada que temos. Ninguém acredita que te amo, nem tão pouco sei se tu acreditas. Eu sei que vou a uma velocidade perigosa e que nada disto te cativa. Mas nem por um momento te larguei a mão. Os meus lábios continuam os teus.

05/10/2010

Cartas de Lille IV


E quase meia noite e esta é a minha primeira hora vazia desde ha quatro dias. Estou sentada com Bruxelas à minha frente, a tentar endireitar as ideias. Sou estrangeira sob todas as formas e hoje deslumbro-me com quase tudo. Tenho o Barco Negro de Amalia a cobrir-me o corpo, uma tarde inteira de acordes flamencos e aràbes a repetir-se em mim hà mais de 48 horas. A Europa na minha vida e Portugal tão presente. E Lisboa em todo o lado.

Talvez isto seja o que passarei a chamar de sensações eràsmicas. Sim, sensações eràsmicas. O platonismo de os apaixonarmos por uma guitarra e de vermos o desespero tomar conta de nòs. Perdi a conta ao vinho, ao champanhe, à cerveja. No peito abre-se uma vontade de viver sem precedentes. Uma vontade estranha de amar e de amar ao voltar a ouvir cantar o Fado. Tenho um imenso medo de quando todo o êxtase morrer. De quando sobrar uma memòria amarga colada à pele. De quando não puder sentir isto nunca mais. De me tornar demasiado banal para tudo isto. Não suporto não sentir a vida a acontecer-me, a inevitabilidade disso, a eminência disso. Como se fosse tudo irreal. Europa, Lille, Bruxelas, Marrocos, Irão, Italia, o Fado, o destino que não é o meu porque não sou uma mulher bonita. Fodasse, digo, porque aqui ninguém me entende. Por algumas horas, tudo fez sentido, tudo valeu a pena. E depois, é como se nos escorregasse das mãos e estivessemos de novo bêbedos por capricho. Se pudesse, arrancava a memòria e não sonharia nunca mais com os acordes de uma tarde assim. O cheiro da casa, o nevoeiro do chà, o embaraço da espera e do silêncio. Que Deus me ajude, que preciso esquecer.

28/09/2010

Cartas de Lille III

Foi então que me disseram para não tentar ser quem não sou. Para não tentar vencer num cenário que não é o meu. Lembrei-me disso ontem quando caia no primeiro sono. Gostava que isso se entranhasse mais fundo. Que me chegasse à génese das ideias e apagasse as memórias mais turvas. Quero esquecer tudo o que gostaria de ter feito, tudo o que fingi que podia ser. Não há fantasma pior que o da conformação. E é disso que falo no intervalo que existe entre o que sou e a forma de estar que gostaria de ter tido. Faltou-me a coragem, pergunto. Mas não. Faltou talvez, como falta hoje ainda, a capacidade de definição. Não consegui escolher qual dos mundos o meu e deixei-me tombar para o lado mais fácil, porque não suportava mais a corda bamba da indecisão.
Hoje visto ganga escura, tenho o cabelo apanhado, óculos de massa grossa e as sobrancelhar por fazer. Vejo filmes americanos, emociono-me com best-sellers mas não com Almodovar. Não sei ser feminina, mas esforço-me por isso. Quando me perguntam pelo que gosto de fazer, só me ocorre dizer que sou fingidamente simpática e que oiço indie-rock.Tenho um blogue, o mais irónico dos sinais do quão banal me tornei. Do quão desinteressante me tornei.
É uma pena. Aos 14 anos eu ouvia música folk, lia romances de autores desconhecidos, tinha uma lista de filmes antigos que queria ver. Aos 14 anos eu sabia mais de história, geografia e de Amália do que sei hoje. Sabia argumentar e tinha uma opinião sobre quase tudo. Era uma idealista, uma sonhadora. Era indiscutivelmente inteligente e não duvidava disso. Vestia-me mal, sem estilo próprio, mas ainda assim, era provavelmente melhor pessoa. Cantava Joan Baez nas viagens longas, achava que quando fosse "grande" me tornaria militante da esquerda e que acamparia todos os anos no Avante. Aos 14 anos eu escrevia com mais imaginação, mais paixão e melhores palavras. Escrevia com uma indignação maior: o mundo era simplesmente um sítio injusto.

Aos 14 anos, eu desconfiava que o sexo seria uma coisa boa, mas não necessariamente romantica. Tinha pressa, mas uma pressa ideológica. Guardava para mim tudo em que acreditava e acreditava realmente em tudo o que fazia.

Tenho saudades do magnetismo que tinha pelas coisas que realmente interessavam. Pelo fundamental. Preferia ser melhor do que feliz, a todo o custo. Hoje, como se a vida me tivesse ensinado seja o que for, prego o oposto. Sou mais feliz, mas vergonhosamente banal. Perdi ferramentas para dar passos em frente e tudo isso porque me tentei encaixar em todos os lugares. Ser doce, amarga e intensa ao mesmo tempo. Tornei-me uma sincera insonsa. Mas não posso pedir desculpa por isso.

24/09/2010

Cartas de Lille II

No tumulto da rua de todos os dias, somos muitos e todos pedimos consolo aos 3 euros de álcool que é quase sempre o nosso jantar. De repente alguém fala a nossa língua e de repente todos falamos a mesma língua e todas repetimos com frieza que não é amor o que nos falta, mas sexo, mas lascívia, mas qualquer coisa que não é amor. Estamos sentadas numa mesa redonda e há cigarros apagados, cervejas mortas, um inglês metálico e semi automático. Diria que estamos envergonhadas. Por termos a vida do avesso, contas pendentes, uma história de amor que em voz alta se tornou apenas num cliché. Sorrimos estupidamente quando alguém pergunta onde ficaram as noites de sexo furioso, as roupas rasgadas, as manhãs que não tinham horas, quando o nosso quarto era um sítio quente e com vida. Olhamos para o fundo do copo vazio e quase em simultâneo para o fundo da carteira vazia. Porra. Fechamos a loja por hoje. Sentimos raiva na bebedeira insatisfeita que não podemos comprar. Na felicidade que os burros dizem que não podemos comprar. Nem com um bilhete de regresso a casa. E aí reside todo o paradigma. Isto já não é sobre esta França que nos suga o dinheiro e a felicidade. Isto é tristeza que trazemos colada a pele, não importa onde e com quem dormimos. Isto é querer ser feliz, de uma maneira ou de outra, cada vez com menos detalhes.

O silêncio pesa-nos finalmente porque voltamos quase sempre sozinhas a casa. Estamos absolutamente geladas. Queremos chorar mas fingimos que ainda não chegou a nossa hora. Somos tesas, pensamos. Somos exactamente como queriamos ser aos 14 anos. Somos cansativamente apaixonadas, pesarosamente irracionais. Temos medo de estar sozinhas e usamos boinas ridiculas de lã. Um único par de ténis rotos a esboçar a ideia que temos de nós próprias. Já não temos 14 anos e já não queremos fingir que somos intelectuais. Temos apenas 20 anos e perdemos toda a coragem.

05/09/2010

Cartas de Lille I

Eu já cá estou. Sinto-te comigo a cada instante. Não importa quanto te hei-de odiar um dia, hoje agradeço por seres, por mim, mais que tu próprio. Não importa a cama onde (não) estivemos juntos, esta será sempre a nossa casa. Esta será sempre a minha casa. Esta serei sempre eu própria.

A velocidade dos dias é brutal. A informação imensa a fluir a todas as horas, de noite e de dia. A logísitica de ser uma estrangeira a tempo inteiro e para todos. O destruir barreiras que se re-erguem todos os dias. A impressão que apenas a cerveja nos abre portas, quando na verdade as fecha. O frio que só eu sinto. O medo invisível. O cansaço de todas as manhãs. A água quente a jorrar no corpo gelado pela impessoalidade dos corredores. As pessoas que quisemos que fizessem parte da história. A solidão que será sempre uma constante, não importa a latitude. Somos afinal livros demasiado brancos, espelhos sem reflexo, tempo perdido. Todos os dias acordo à tua espera. Um dia hei-de voltar e nunca mais ir embora.

25/08/2010

Cartas de Lisboa XII

by ~nikolinelr
Vamos ser patéticos. Sinto-me sozinha. Dentro de dois dias vou viver para outro país. Queria emoção nas despedidas, comoção, tristeza, as últimas conversas com os amigos e os conhecidos que nos apoiam e vão sentir a nossa falta. Mas não foi assim. Não é assim. Para mim, houve apenas uma palmadinha nas costas, um sorriso circunstancial e um Bone voyage arrotado sem me olharem na cara. Já experimentei o espalhafato. Todas as formas de desespero: “hey estou de partida, ninguém vai sentir a minha falta?”. Pois, ninguém. Sou a miúda transparente. A que não se vê, a que não aquece nem arrefece ninguém. Tenho muita inveja, por menos politicamente correcto que isso seja. Tenho inveja dos que terão um pequeno exército a torcer para que voltem depressa. Dos que se sentem queridos e apoiados. Porque no fundo, o problema é esse. É ir embora, forçar os nossos limites e não sentirmos apoio à retaguarda.
Afinal, isto tem tudo para correr mal.

15/08/2010

Cartas de Lisboa XI

O que mói é que as pessoas para quem esperávamos ser especiais fazem todos em volta serem especiais. Será ciúme? Todas as minhas histórias têm pontas soltas. Eu tentei cortá-las, mas acabei por fazer pior. E é mesmo assim que vou embora.

31/07/2010

Cartas de Coimbra XLVII, a última

Desde o instante que em que o larguei que ainda não parei de chorar. Foi a última das madrugadas. Deitei-me para não dormir e levantei-me sem querer ir embora. Não sei fazer isto de outra maneira. Há coisas que nos roiem por dentro e não conseguia dizer-lhe porquê. Deixei Coimbra há horas e sinto-me desfeita. Talvez porque não tive nem voltarei a ter um regresso a casa. Já não sei para o que voltei, e tu nem sem quer cá estás. Voltei cheia de uma pressa que não tinha, com toda a bagagem emocional que as despedidas tinham e eu não sabia. Desde o instante em que o larguei que ainda não parei de chorar. Não dormi um minuto que seja. Fiquei bloqueada algures no corredor frio da Associação de Estudantes. Bloqueada no segundo em que o vi surgir. Eu juro que nunca me passou pela cabeça que ia ser assim. Há despedidas que nos parecem mais definitivas que outras. Sinto-me partida. Continuo a chorar e já estou tão longe. As últimas frases, os derradeiros minutos, os abraços repelidos porque as nossas próprias escolhas nos trairam, a impessoalidade com que dizemos que lhes estamos gratos por tudo, mas o que custa é o que não dissemos, é o que não ouvimos. Os copos de vinho que não levantamos pela última vez. Os gestos que significam tudo mas que tivemos vergonha que fossem demasiado. A Cabra. A capa rasgada dos amigos. As lágrimas dos amigos. A ironia dos amigos. A coragem que não é coragem, mas medo, abandono e remorso. O livro aberto que fingimos ser. Coimbra que hoje pouco ou nada importa, porque ficámos desmembrados, vazios, entorpecidos, sem vontade. Virámos costa e não voltamos a olhar para trás nunca mais.

20/07/2010

Cartas de Coimbra XLVI

Sommeil by moumine
Dizem que a pior insónia é a da indecisão. Eu há 201 noites que não durmo. Faço por tornar simples a angústia mas de repente são novamente três da manhã e nada mudou.
Faltam 39 dias. Destes passarei menos de metade contigo e desta metade serão muito menos que algumas horas.
Hoje não consigo ser sensível. Estou a tentar escrever sem que seja preciso chorar. Eu hoje só queria dormir. Só queria que a angústia se fosse embora. Que o medo e angústia se fossem embora.
Estou a dar um salto no escuro e a sofrer as consequências por antecipação. Isto já não é sobre nós, sabes? É sobre mim. As pessoas não acreditam que eu seja capaz e eu também não. As pessoas dizem que é capricho. Eu digo que é estupidez. Não, realmente eu não falo francês e decidi viver um ano sozinha em França. Tu não vais lá estar (nem ele), sob forma nenhuma, porque a isso não te podes comprometer. Mas a minha vida vai girar continuamente em torno de ti, pois a única convicção que veio com a insónia foi a de te amar em qualquer circunstância, sob absolutamente nenhum pretexto.
4h00. A angústia ficou de repente mais pequenina, mas ela acaba sempre por voltar. Tenho medo. Mais. Estou completamente aterrorizada. Qual coragem! Tudo isto (um dia vais concordar)... Tudo isto não passa de uma valente lotaria. E tudo isto me lembra que um dia tive o descaramento de querer ser médica, sem, no entanto, caber no molde das pessoas que querem ser médicas. Que um dia tive pressa de sair de casa, que um dia tive vontade de ser visível ao teus olhos. Para sempre.
Como vês, afinal, não parei um só dia de sonhar. Talvez seja daí que venha toda a angústia. Tivesse eu realmente coragem e não voltaria a sonhar nunca mais.