25/08/2010

Cartas de Lisboa XII

by ~nikolinelr
Vamos ser patéticos. Sinto-me sozinha. Dentro de dois dias vou viver para outro país. Queria emoção nas despedidas, comoção, tristeza, as últimas conversas com os amigos e os conhecidos que nos apoiam e vão sentir a nossa falta. Mas não foi assim. Não é assim. Para mim, houve apenas uma palmadinha nas costas, um sorriso circunstancial e um Bone voyage arrotado sem me olharem na cara. Já experimentei o espalhafato. Todas as formas de desespero: “hey estou de partida, ninguém vai sentir a minha falta?”. Pois, ninguém. Sou a miúda transparente. A que não se vê, a que não aquece nem arrefece ninguém. Tenho muita inveja, por menos politicamente correcto que isso seja. Tenho inveja dos que terão um pequeno exército a torcer para que voltem depressa. Dos que se sentem queridos e apoiados. Porque no fundo, o problema é esse. É ir embora, forçar os nossos limites e não sentirmos apoio à retaguarda.
Afinal, isto tem tudo para correr mal.

15/08/2010

Cartas de Lisboa XI

O que mói é que as pessoas para quem esperávamos ser especiais fazem todos em volta serem especiais. Será ciúme? Todas as minhas histórias têm pontas soltas. Eu tentei cortá-las, mas acabei por fazer pior. E é mesmo assim que vou embora.

31/07/2010

Cartas de Coimbra XLVII, a última

Desde o instante que em que o larguei que ainda não parei de chorar. Foi a última das madrugadas. Deitei-me para não dormir e levantei-me sem querer ir embora. Não sei fazer isto de outra maneira. Há coisas que nos roiem por dentro e não conseguia dizer-lhe porquê. Deixei Coimbra há horas e sinto-me desfeita. Talvez porque não tive nem voltarei a ter um regresso a casa. Já não sei para o que voltei, e tu nem sem quer cá estás. Voltei cheia de uma pressa que não tinha, com toda a bagagem emocional que as despedidas tinham e eu não sabia. Desde o instante em que o larguei que ainda não parei de chorar. Não dormi um minuto que seja. Fiquei bloqueada algures no corredor frio da Associação de Estudantes. Bloqueada no segundo em que o vi surgir. Eu juro que nunca me passou pela cabeça que ia ser assim. Há despedidas que nos parecem mais definitivas que outras. Sinto-me partida. Continuo a chorar e já estou tão longe. As últimas frases, os derradeiros minutos, os abraços repelidos porque as nossas próprias escolhas nos trairam, a impessoalidade com que dizemos que lhes estamos gratos por tudo, mas o que custa é o que não dissemos, é o que não ouvimos. Os copos de vinho que não levantamos pela última vez. Os gestos que significam tudo mas que tivemos vergonha que fossem demasiado. A Cabra. A capa rasgada dos amigos. As lágrimas dos amigos. A ironia dos amigos. A coragem que não é coragem, mas medo, abandono e remorso. O livro aberto que fingimos ser. Coimbra que hoje pouco ou nada importa, porque ficámos desmembrados, vazios, entorpecidos, sem vontade. Virámos costa e não voltamos a olhar para trás nunca mais.

20/07/2010

Cartas de Coimbra XLVI

Sommeil by moumine
Dizem que a pior insónia é a da indecisão. Eu há 201 noites que não durmo. Faço por tornar simples a angústia mas de repente são novamente três da manhã e nada mudou.
Faltam 39 dias. Destes passarei menos de metade contigo e desta metade serão muito menos que algumas horas.
Hoje não consigo ser sensível. Estou a tentar escrever sem que seja preciso chorar. Eu hoje só queria dormir. Só queria que a angústia se fosse embora. Que o medo e angústia se fossem embora.
Estou a dar um salto no escuro e a sofrer as consequências por antecipação. Isto já não é sobre nós, sabes? É sobre mim. As pessoas não acreditam que eu seja capaz e eu também não. As pessoas dizem que é capricho. Eu digo que é estupidez. Não, realmente eu não falo francês e decidi viver um ano sozinha em França. Tu não vais lá estar (nem ele), sob forma nenhuma, porque a isso não te podes comprometer. Mas a minha vida vai girar continuamente em torno de ti, pois a única convicção que veio com a insónia foi a de te amar em qualquer circunstância, sob absolutamente nenhum pretexto.
4h00. A angústia ficou de repente mais pequenina, mas ela acaba sempre por voltar. Tenho medo. Mais. Estou completamente aterrorizada. Qual coragem! Tudo isto (um dia vais concordar)... Tudo isto não passa de uma valente lotaria. E tudo isto me lembra que um dia tive o descaramento de querer ser médica, sem, no entanto, caber no molde das pessoas que querem ser médicas. Que um dia tive pressa de sair de casa, que um dia tive vontade de ser visível ao teus olhos. Para sempre.
Como vês, afinal, não parei um só dia de sonhar. Talvez seja daí que venha toda a angústia. Tivesse eu realmente coragem e não voltaria a sonhar nunca mais.

26/06/2010

Cartas de Coimbra XLV


Às vezes perco a perspectiva. A idade aconteceu, os cenários mudaram, fui feliz das formas mais absurdas. Deixei para trás um buraco de recordações que preferia não ter para te contar. Uma menina de casaco vermelho e mãos nos bolsos. Uma menina invisível.
Quando penso nisso, volto irremediavelmente àquela tarde de Verão, deitada aos pés da cama. Já lá vão talvez seis anos. Nessa tarde, escrevi que um dia tudo seria melhor. Eu seria melhor. Teria, como tantas vezes te disse, o mundo à cabeceira. Um perfeito vazio de expectativas.
A idade aconteceu e sou hoje como prometi ser aos 14 anos. Fui mais longe do que isso. Tenho o meu espaço, a minha voz, as minhas histórias. Não tenho casa. Tenho a melancolia pendular das viagens de comboio. Estou no melhor lugar do mundo quando se tem 20 anos. Sou sozinha. Amo-te exactamente como imaginei que te amaria um dia.
Contudo, a idade aconteceu e hoje sou ainda uma menina invisível. Tenho voz, mas não tenho palmas. Histórias mas não carisma. Sou crítica e, no fundo, uma permanente desasjustada. O problema serei certamente eu mesma. Ou não passaremos quase todos de más pessoas. Às vezes tenho a certeza que conseguem ver através de mim, como se eu não estivesse de facto ali. Fazem de mim pequenina e eu torno-me minúscula. Fiz demasiadas asneiras. Achei que o álcool mudaria tudo e eu seria finalmente uma mulher diferente. Mas nós nunca roubamos nada da própria vida. Nós roubamos da vida dos outros e eu roubei a esperança que não era minha. As frases feitas. As festas académicas. Os amigos. Nada disso é realmente meu. Pessoas como eu não têm vidas assim. Não em Lisboa, não em Coimbra, não em lugar nenhum, por mais longe que consigamos ir
. E eu fui demasiado longe para descobrir isso.

23/05/2010

Cartas de Coimbra XLIV

Nós perdemos sempre, amor. Perdemos sempre. Viajamos os dois em contra-corrente, com o metal dos comboios dissolvido nas veias e já não temos casa. Somos a casa um do outro e tomamos decisões para que isso nunca nos amarre. Vou viver para outro país porque te amo e quero que descubras tudo o que eventualmente há para além de nós. Eu sei que é o mais certo, mas tenho muito medo. Fecho os olhos e descubro os últimos três anos da minha vida, escondida contigo na sombra de mais um jardim de Lisboa. Ou de Coimbra. Ou a minha cama desfeita, amarfanhada, dividida em dois. Estou tão cansada. Tão cansada. Tirei-te a alma quando te disse que vou embora. E tu sentiste que eu morri nesse momento. Ainda custa a acreditar, mas não, nós não fomos feitos um para o outro.

11/05/2010

Cartas de Coimbra XLIII


Definitivamente uma cidade de segredos. Pela 3ª vez, abraçou-me à sua maneira e eu respondi-lhe ao meu jeito. Quem me dera que as memórias nos aquecessem tanto daqui para frente como a Queima nos aquece hoje. Porque a Queima das Fitas não se dá a entender aos mirones que vêem de fora ver o que não conseguem ver. A Queima das Fitas é dos apaixonados. Dos resistentes. Dos que bebem aos Amigos, aos segredos de Coimbra, às histórias que aconteceram dentro de nós próprios e que nos ensinaram, no fundo, o mais importante. De 2010 vou levar as escadarias das Igrejas, as capas negras sobre as pernas cansadas, as longas conversas que as madrugadas de espera perpetuaram. Vou levar o mais fantástico concerto à chuva e, por isso mesmo, uma alma lavada. Vou levar os momentos de confusão onde o coração pediu mais tempo. Um cortejo feito no braços dos amigos. Os post-its deixados na capa dos livros antes de nos afogarmos nas noites do Parque. As palavras que quase dissemos porque havia talvez amor em toda a cerveja que bebemos. E no final de nove noites, eu sei que nada terá mudado e que tudo o que vivemos durante a semana será enterrado com a normalidade de uma vida que continuamos a empurrar, alheia a tudo. Vamos olhar para a transparência dos outros e vamos sentir-nos agradecidos por Coimbra ter feito parte do caminho.

23/04/2010

Cartas de Coimbra XLII

paris .3. by ~moumine

Sou certamente uma má jogadora de tetris. O acumular de pecinhas na confusão que se torna para mim não poder fazer linhas de uma só cor. As peças são as fontes de conflito: os comboios, os horários dos comboios, os fins de semana de um dia, as aulas da segunda feira, os outros, a sensibilidade dos outros, a falta de tacto dos outros. Não trago o mundo às costas, mas comporto-me como se trouxesse comigo um atrelado de grandes dimensões. Bloqueei de tanto cliché que tentei processar de uma só vez. Foi talvez demais para uma mulher só. Hoje todos queremos fazer erasmus, todos queremos ser missionários, todos queremos ser pediatras. Isto assim já me chegava. Mas além disso, há as dietas, as bebedeiras, os bares bem frequentados, os interrails, a falta de tempo, a falta de sexo. Fizemos dos conceitos mais nobres lugares comuns com uma profunda e absurda falta de consistência. É tudo para inglês ver. Ou pelo menos uma boa parte. Somos gente demasiado obcecada em passar a perna aos outros antes que nos passem a nós. O despeito foge-nos das mãos quando não somos tão tapados quanto os outros. Somos espertos e muito pouco inteligentes. Perspicazes e corruptos. Filhos de médicos. Filhos de Professores. Nenhum de nós leu Mircea Eliade e isso só nos fez foi mal. Aqui dar umas passas já nem sequer é moda. É desespero. E meter cunha que esmiúce o desespero é estar ambientado e saber estar. Não sabemos pensar, nem ficar para trás, nem pedir licença. O mundo gira a nossa volta e já há virgens de lua de mel marcada. Mais um dia assim e fico esquizofrénica.

09/03/2010

Cartas de Coimbra XLI

by ~firar

Querido Luís,
Estas cartas são tuas. Escrevi-as talvez desde sempre. O papel de rascunho, o balançar do comboio, o timbre único da voz do Doherty. Está tudo nestas cartas. A minha vida inteira, virada do avesso, rasurada como se as palavras francas não soubessem que são poesia.
São cartas de amor, mas principalmente cartas para te revelar o que existe diante e por detrás dos meus olhos. Sempre te disse que vejo demais. Mas nunca te disse que o que vejo normalmente são coisas irrepetíveis e por isso tudo nestas cartas são também segredos. Abrir mão e falar-te deles é para mim a mais difícil prova de confiança.
O que aprendi contigo nunca mais poderei repetir. Sabemos, simplesmente sabemos, que estes foram os nossos melhores anos. E deles ficarão os cheiros, os sabores, a pele arrepiada e fria, as viagens de ida e as viagens de volta. Ficará também o medo de cair, o medo de, todas as semanas e todos os dias, partir para longe de ti e de, com isso, partir para longe do meu último lugar seguro. Ir embora será sempre motivo de luta interior, um estado permanente de guerra comigo, contigo e com o mundo. Mas amar-te precisará talvez sempre disto, desta forma calada de dizer-te por sinais de fogo quais as batalhas que escolhi e quantas ganhei. Nunca, em momento algum, tentei magoar-te. Seria atacar a mais vibrante das convicções que trago comigo. E nestas cartas dou-te o reflexo de tudo o que tenho de mim própria, os limites e as razões de todas as angústias, de todos os receios, de todas as promessas, de todas as histórias que fizeram sentido, porque te amava, de olhos mais ou menos fechados.

04/03/2010

Cartas de Coimbra XL


Se ter um blog é ter palavra, a minha palavra hoje é SEXO. Desculpem lá qualque coisinha, mas se tenho um blog, quero contar a minha história e a minha versão dos factos. Não consigo viver espartilhada nas minhas boas e más experiências sexuais e resignada ao facto de nem toda a gente ter bons ouvidos para o tema. Perversão para mim é corromper o que somos com mentiras, com preconceitos, com pressa. A confiança é tudo. E depois disso, o limite somos nós que o escolhemos.
Não trazemos escrito na testa o que fizemos ou gostaríamos de ter feito ontem à noite. Talvez os outros se surpreendessem com o que guardamos portas a dentro. De qualquer forma, o que não aceitam é que queiramos discutir isso na praça pública. Curiosamente é exactamente isso que tenho feito. Por descuido, claro está, porque eu achava que falava a gente amiga. Depois ficou a pairar o desconforto. E dei por mim culpada de três goles de vinho que me fizeram falar o que preferia ter falado sóbria. Dei por mim culpada de algo que encarava com tranquilidade até me dizerem, com o silêncio, que há tabus aos 20 anos totalmente intrasponíveis.
Ah e o título do post é pura coincidência.