23/04/2010

Cartas de Coimbra XLII

paris .3. by ~moumine

Sou certamente uma má jogadora de tetris. O acumular de pecinhas na confusão que se torna para mim não poder fazer linhas de uma só cor. As peças são as fontes de conflito: os comboios, os horários dos comboios, os fins de semana de um dia, as aulas da segunda feira, os outros, a sensibilidade dos outros, a falta de tacto dos outros. Não trago o mundo às costas, mas comporto-me como se trouxesse comigo um atrelado de grandes dimensões. Bloqueei de tanto cliché que tentei processar de uma só vez. Foi talvez demais para uma mulher só. Hoje todos queremos fazer erasmus, todos queremos ser missionários, todos queremos ser pediatras. Isto assim já me chegava. Mas além disso, há as dietas, as bebedeiras, os bares bem frequentados, os interrails, a falta de tempo, a falta de sexo. Fizemos dos conceitos mais nobres lugares comuns com uma profunda e absurda falta de consistência. É tudo para inglês ver. Ou pelo menos uma boa parte. Somos gente demasiado obcecada em passar a perna aos outros antes que nos passem a nós. O despeito foge-nos das mãos quando não somos tão tapados quanto os outros. Somos espertos e muito pouco inteligentes. Perspicazes e corruptos. Filhos de médicos. Filhos de Professores. Nenhum de nós leu Mircea Eliade e isso só nos fez foi mal. Aqui dar umas passas já nem sequer é moda. É desespero. E meter cunha que esmiúce o desespero é estar ambientado e saber estar. Não sabemos pensar, nem ficar para trás, nem pedir licença. O mundo gira a nossa volta e já há virgens de lua de mel marcada. Mais um dia assim e fico esquizofrénica.

09/03/2010

Cartas de Coimbra XLI

by ~firar

Querido Luís,
Estas cartas são tuas. Escrevi-as talvez desde sempre. O papel de rascunho, o balançar do comboio, o timbre único da voz do Doherty. Está tudo nestas cartas. A minha vida inteira, virada do avesso, rasurada como se as palavras francas não soubessem que são poesia.
São cartas de amor, mas principalmente cartas para te revelar o que existe diante e por detrás dos meus olhos. Sempre te disse que vejo demais. Mas nunca te disse que o que vejo normalmente são coisas irrepetíveis e por isso tudo nestas cartas são também segredos. Abrir mão e falar-te deles é para mim a mais difícil prova de confiança.
O que aprendi contigo nunca mais poderei repetir. Sabemos, simplesmente sabemos, que estes foram os nossos melhores anos. E deles ficarão os cheiros, os sabores, a pele arrepiada e fria, as viagens de ida e as viagens de volta. Ficará também o medo de cair, o medo de, todas as semanas e todos os dias, partir para longe de ti e de, com isso, partir para longe do meu último lugar seguro. Ir embora será sempre motivo de luta interior, um estado permanente de guerra comigo, contigo e com o mundo. Mas amar-te precisará talvez sempre disto, desta forma calada de dizer-te por sinais de fogo quais as batalhas que escolhi e quantas ganhei. Nunca, em momento algum, tentei magoar-te. Seria atacar a mais vibrante das convicções que trago comigo. E nestas cartas dou-te o reflexo de tudo o que tenho de mim própria, os limites e as razões de todas as angústias, de todos os receios, de todas as promessas, de todas as histórias que fizeram sentido, porque te amava, de olhos mais ou menos fechados.

04/03/2010

Cartas de Coimbra XL


Se ter um blog é ter palavra, a minha palavra hoje é SEXO. Desculpem lá qualque coisinha, mas se tenho um blog, quero contar a minha história e a minha versão dos factos. Não consigo viver espartilhada nas minhas boas e más experiências sexuais e resignada ao facto de nem toda a gente ter bons ouvidos para o tema. Perversão para mim é corromper o que somos com mentiras, com preconceitos, com pressa. A confiança é tudo. E depois disso, o limite somos nós que o escolhemos.
Não trazemos escrito na testa o que fizemos ou gostaríamos de ter feito ontem à noite. Talvez os outros se surpreendessem com o que guardamos portas a dentro. De qualquer forma, o que não aceitam é que queiramos discutir isso na praça pública. Curiosamente é exactamente isso que tenho feito. Por descuido, claro está, porque eu achava que falava a gente amiga. Depois ficou a pairar o desconforto. E dei por mim culpada de três goles de vinho que me fizeram falar o que preferia ter falado sóbria. Dei por mim culpada de algo que encarava com tranquilidade até me dizerem, com o silêncio, que há tabus aos 20 anos totalmente intrasponíveis.
Ah e o título do post é pura coincidência.

17/02/2010

Cartas de Lisboa X


Às vezes damo-nos conta que as circunstâncias nos dão sinal de que chegámos novamente ao ponto de ruptura. A partir daqui, não seremos nunca mais felizes para sempre, não seremos mais razoáveis, não seremos mais pacientes. Lemos nas entre-linhas, nos filmes a preto e branco e nas conversas de café, frases que deambulam de boca em boca e falam do fatalismo a que não nos conseguimos habituar. Por mais que tente e me mostre calma, não há serão nem copo de vinho que tornem a ideia mais doce. Prometi a mim própria que iria para longe por querer, mais que tudo, ficar. Mas apesar de tudo, tenho medo de ficar por ti. Viver desligada, nunca foi real para mim. E tu sabe-lo. E mesmo assim eu finjo. Temos passado a vida inteira a fugir, a tomar decisões que nos empurram em direcções opostas. Eu amo-te. Com todo o lixo emocional e logistico que isso implica. E estas nunca deixaram de ser cartas de amor. Por mais longe ou por mais perto que estejas.

22/01/2010

Cartas de Coimbra XXXIX

maybe by ~koffk
23h00. Tenho a casa vazia, a sensação de que me falta tudo, que um mundo melhor ficou lá fora quando eu resolvi fugir para aqui. Ando de trás para a frente à procura de um interruptor que mude o curso dos dias, à procura de vida nas divisões fechadas à chave. Não sei para onde foram as pessoas que foram embora. Não sei para onde foram as pessoas que foram embora sem mim.
02h00. Viajo de lugar em lugar. A internet é um mundo demasiado extenso onde cabem todas os vícios que eu poderia ter. É fatal. Já vi todas as fotos que tirámos juntos, já li o blog inteiro, já ouvi todas as músicas que me poderiam magoar, já remoí todas as memórias más. Estou entre a parede e a inércia. Bloqueada no meu próprio cemitério, onde se encaixotaram os fantasmas, as perseguições, os medos.
03h00. A certa altura, nesta noite que aparentemente nunca vai acabar, acabei por adormecer. De olhos inchados, boca seca, cabeça dormente. Só quero não acordar nunca mais. Não sei o que se passa. Os meus sonhos já não são corridas contra o tempo, mas causas perdidas. Mas consequências daquelas noites impetuosas em que tudo se podia dizer e de repente eramos reféns dos nossos instantes de tristeza.
08h30. Acordei e adormeci novamente. Seria fácil dar um empurrão à própria vida, dizem. Bastaria talvez ter deixado o despertador tocar até ser forçada a seguir em frente. Quem me dera perceber onde tudo isto me leva e parar a tempo. Quem me dera perceber de onde veio isto tudo. Quero continuar a dormir.

10/01/2010

Cartas de Coimbra XXXVIII

The calm before the storm by ~Ninruz


Durmo devagar porque preciso de toda a paz para ver a vida em retrospectiva, sem que isso me pare. É o medo de que todos falam, a desconfiança que nos forra o coração, a desventura de acreditar em coisas reais, que moram na porta ao lado e nos tiram o prazer de quase tudo. Os empurrões das multidões deixam-me quase sempre indisponível para estar bem. Já esgotei todas as caras com que podia fingir, já usei todas as frases de conveniência. Do outro lado da estrada, sinto o frio de um mundo que nasceu da nossa arrogância e principalmente do nosso desespero. Não foi isto que eu escolhi para mim. Não foi isto que eu desejei a ninguém.
Na última noite do ano, não contei as doze badaladas, bebi o meu e o teu champanhe, chorei e disse o que não sentia. Tive a certeza que ires embora será, um dia, a coisa mais anti-natural que me poderão fazer. Mas acabarei por me habituar à ideia.
À meia noite estavas lá tu, e a chuva, e o barulho, e o frio. Estavam as coisas irrelevantes, a cidade e a nossa própria estupidez. Demos por nós a tropeçar nos lugares onde nunca quisemos voltar. A desafiar o tempo, a fragilidade dos nossos momentos, as promessas que não podemos nem devemos cumprir. O que eu não sei, dificilmente me magoará e por isso fazemos de conta que a eternidade nos cabe nas mãos cada vez que trocamos novamente um primeiro beijo. Já não sou capaz de mentir, nem de tornar as coisas mais fáceis. Tocar-te já não me queima apenas por fora. Quero a parte de ti que não tens para dar. A tua fé, a tua tranquilidade. No fundo, não é que isso tenha importância, porque não tem. Um dia deixo-te e deixo-te exactamente porque te amo. Nas entre-linhas, é isso que me pedes e eu escuto o que tu dizes, mesmo que não pareça. Eu só queria um lugar onde não houvessem batalhas, nem abismos, nem tempestades. E gostava que esse lugar fosses tu. Mas acabarei por me habituar à ideia.

12/12/2009

Cartas de Coimbra XXXVII

midi. by *moumine


Percebi talvez que fugir nunca vai realmente adiantar de nada. As batalhas perdem-se na mesma, não importa com quanta força fechemos os olhos. Na rádio vai tocar sempre a mesma música à hora errada, por muito que a gente finja. E a gente finge para se poder aguentar. Na nossa concha, sabemos coisas que mais ninguém sabe e vemos coisas que mais ninguém vê: o lançar dos dados a definir a história dos nossos acasos e dos nossos riscos; a estúpidez de um lápiz azul a rasurar-nos, a excluir-nos e a isolar-nos.
Hoje percebi que ficar e ver as coisas acontecerem talvez não nos mude tanto assim. No fundo eu sei que vai ficar tudo bem. E quando ficar, tomara que seja para ser diferente mas acima de tudo irreversível. Para que não doa mais. Para que não doa como tantas vezes nos doeu. Para que não doa como ainda nos dói. Às duas.
Hoje sei que se olhar bem de frente não me vou atraiçoar tanto assim. Vou esperar pela hora certa de dizer, pela hora certa de virar as costas, pela hora certa de ir embora de vez. A solidão é um lugar comum, por muito que te apliques, e haverá sempre um erro de simetria entre nós dois. A música na rádio diz que apenas um beco triste e vazio dará eco a quem nunca teve voz. Este é o meu beco, amor. O meu verdadeiro beco. E isso enche-me de medo.
Tenho medo que me vejam por dentro e desfaçam em nada os emaranhados de espelhos partidos que trago comigo. Quando nos faltam alicerces, até as más ideias nos suportam e nos tentam manter de pé. Porque, no fim da jornada, tudo isto será um quadro de loucura e perder aos poucos o compasso de uma vida normal não nos fará piores pessoas, nem tão pouco piores mulheres.
Tomara que entendas tudo isto. Esta podia ser a última carta, mas não consigo abdicar do significado que tem poder amar-te mesmo assim, tão absurdamente longe de ti. Um dia isto será talvez a única coisa que vai restar, da minha voz e de mim própria. A vida será para sempre aquele último comboio em que entrei e que me irá atravessar vezes sem conta, até que finalmente já não saberemos como é estar em casa.
Ainda bem que (ainda) aí estás.

03/12/2009

Cartas de Coimbra XXXVI

Consider me dead. by ~RedFraction



Nunca direi porque é que naquela noite me fui embora. Há mentiras que fazem todo o sentido, quando disso depende tudo o resto. Nunca direi porquê um teatro tão mal encenado: às vezes procuramos refúgio nos sítios mais desadequados e isso acaba inevitavelmente por nos envergonhar. Principalmente quando o refúgio somos nós; ou o nosso regresso a casa, ou o constragimento que é decidir de impulso que algo está mal e nós não somos capazes de continuar a fingir.
Nunca direi porquê, precisamente naquela noite, sair pela porta dos fundos. Eles olham e até sabem que minto sobre quase tudo. E para mim a porta dos fundos será sempre uma fuga aos problemas, uma saída que o pânico me mostra onde fica, um poço de ecos onde apetece guardar as memórias más, o despeito e a vulgariedade.
Nessa noite, deitei-me e sonhei que era autista e que as coisas não seriam capazes de me magoar outra vez. Nessa mesma noite, saí pela porta dos fundos sem dizer nada porque não eram apenas naúseas, mas qualquer coisa que me ardia em todos os sítios, que me sugava as palavras boas e me gelava a ponta dos dedos. Saí por impulso, por inconsciência, por necessidade e por tristeza. Saí porque estava sozinha e porque precisava de estar sozinha. Saí por raiva, ou por capricho, ou por preguiça, nem sei... Saí porque a noite lá fora não era mais fria que as ideias, não era tão inesperada quanto as consequências, não era tão noite quanto o dia seguinte.
11/11/2009

05/11/2009

Cartas de Coimbra XXXV

existence by =Roinja

Existem elas e existimos nós. As que não têm nome. As que não têm rosto. O tudo que cabe sempre aos mesmos, os milagres que aos poucos se corrigem e se acomodam no devido lugar.
Tenho direito a este sentido de posse. A este bocadinho de fé e de cumplicidade que era meu, apesar de tudo. Tenho direito à tristeza, ao abandono, ao nó no estômago que me puxa para baixo, me revolta e me faz uma pessoa pior. Tenho o direito de não querer que me tirem os milagres. Sem eles, fico reduzida ao elo esquecido de uma equação lógica cuja solução todos preveram. Por razões que a medicina não explica, a minha cara é fácil de esquecer. Sou literalmente a multidão que envolve as pessoas bonitas. Faço parte de um contexto, um tijolo sem feições que ninguém reconhece.
Ao voltar atrás, olho com atenção e não sei o que fiz mal. Em que fase da vida perdi o andamento e o direito a ser notada. Talvez tenha sido sempre assim. Talvez tenha sido sempre apenas isto: a combinação de duas mãos nos bolsos e um sorriso triste e transparente.
Perdi o meu melhor amigo com o virar da estação. Seria com ele que ouviria pela última vez a Balada de Despedida do 6º ano Médico. Seria com ele que, um dia, quem sabe, da noite para o dia, eu ficaria adulta. Com quem passaria a última Queima, como se fosse a primeira. E ele choraria, e eu choraria. E esse seria o meu milagre porque pela primeira vez, era algo de genuíno que acontecia sem conquista, sem ressentimento, com a espontâneadade das coisas que secretamente sempre quisemos.
Mas há sortes que não são nossas e, tarde ou cedo, as circunstâncias acabam por fazer também da nossa vida um perfeito cliché.