03/12/2009

Cartas de Coimbra XXXVI

Consider me dead. by ~RedFraction



Nunca direi porque é que naquela noite me fui embora. Há mentiras que fazem todo o sentido, quando disso depende tudo o resto. Nunca direi porquê um teatro tão mal encenado: às vezes procuramos refúgio nos sítios mais desadequados e isso acaba inevitavelmente por nos envergonhar. Principalmente quando o refúgio somos nós; ou o nosso regresso a casa, ou o constragimento que é decidir de impulso que algo está mal e nós não somos capazes de continuar a fingir.
Nunca direi porquê, precisamente naquela noite, sair pela porta dos fundos. Eles olham e até sabem que minto sobre quase tudo. E para mim a porta dos fundos será sempre uma fuga aos problemas, uma saída que o pânico me mostra onde fica, um poço de ecos onde apetece guardar as memórias más, o despeito e a vulgariedade.
Nessa noite, deitei-me e sonhei que era autista e que as coisas não seriam capazes de me magoar outra vez. Nessa mesma noite, saí pela porta dos fundos sem dizer nada porque não eram apenas naúseas, mas qualquer coisa que me ardia em todos os sítios, que me sugava as palavras boas e me gelava a ponta dos dedos. Saí por impulso, por inconsciência, por necessidade e por tristeza. Saí porque estava sozinha e porque precisava de estar sozinha. Saí por raiva, ou por capricho, ou por preguiça, nem sei... Saí porque a noite lá fora não era mais fria que as ideias, não era tão inesperada quanto as consequências, não era tão noite quanto o dia seguinte.
11/11/2009

05/11/2009

Cartas de Coimbra XXXV

existence by =Roinja

Existem elas e existimos nós. As que não têm nome. As que não têm rosto. O tudo que cabe sempre aos mesmos, os milagres que aos poucos se corrigem e se acomodam no devido lugar.
Tenho direito a este sentido de posse. A este bocadinho de fé e de cumplicidade que era meu, apesar de tudo. Tenho direito à tristeza, ao abandono, ao nó no estômago que me puxa para baixo, me revolta e me faz uma pessoa pior. Tenho o direito de não querer que me tirem os milagres. Sem eles, fico reduzida ao elo esquecido de uma equação lógica cuja solução todos preveram. Por razões que a medicina não explica, a minha cara é fácil de esquecer. Sou literalmente a multidão que envolve as pessoas bonitas. Faço parte de um contexto, um tijolo sem feições que ninguém reconhece.
Ao voltar atrás, olho com atenção e não sei o que fiz mal. Em que fase da vida perdi o andamento e o direito a ser notada. Talvez tenha sido sempre assim. Talvez tenha sido sempre apenas isto: a combinação de duas mãos nos bolsos e um sorriso triste e transparente.
Perdi o meu melhor amigo com o virar da estação. Seria com ele que ouviria pela última vez a Balada de Despedida do 6º ano Médico. Seria com ele que, um dia, quem sabe, da noite para o dia, eu ficaria adulta. Com quem passaria a última Queima, como se fosse a primeira. E ele choraria, e eu choraria. E esse seria o meu milagre porque pela primeira vez, era algo de genuíno que acontecia sem conquista, sem ressentimento, com a espontâneadade das coisas que secretamente sempre quisemos.
Mas há sortes que não são nossas e, tarde ou cedo, as circunstâncias acabam por fazer também da nossa vida um perfeito cliché.

19/10/2009

Cartas de Coimbra XXXIV


Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, o meu desenfreamento, o violento abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o segredo; e eu atirava-me outra vez.


Albert Camus, in "A Queda"

06/10/2009

Cartas de Coimbra XXXIII

I wish you were here by *duchesse-2-Guermante



Às vezes volto àquela tarde de chuva, à porta de casa. Ao inadequado que era estarmos os dois sentados no chão da rua, com tanto que conversar. Tenho saudades da sensação boa, da expectativa, do medo miudinho a fazer daqueles dias um mapa de hipóteses que não se esgotavam. Tenho saudades do teu olhar baralhado, tão parvamente franco, tão erradamente deslumbrado. Quem me dera ser a mesma mulher que fui nesse dia. Chegava por mim própria. Era um quadro branco onde não existiam memórias, nem lugares, nem cheiros, nem coisa nenhuma. Contava apenas comigo e estava bem assim. Queriamos um beijo, apenas um beijo e formalizámos as coisas, com a estupidez de uma primeira vez. Estavamos feliz. Meu Deus, como tu estavas feliz! Disseste coisas, falaste em mundos, multiplicaste o sabor que levaste na boca e pediste-me mais. Eu dei-te tudo o que tinha. Sobraram bocadinhos de esperança que já não me alentam. Tenho os bolsos vazios, as costas dobradas, o peito pesado. Fico acordada com a luz apagada à espera de um pensamento que me faça dormir em paz. Não consigo acordar. Quero dormir para sempre.

01/10/2009

Cartas de Coimbra XXXII



Quem é que tu amas? - continuou Murphy. - Eu, tal como sou. Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo. - Nada mal, para um Murphy. - Se assim é, por que diabo te esforças tanto para me modificar? Para poderes deixar de me amar - aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante honrosa - para deixares de estar condenada a amar-me, para seres dispensada de me amar.



Samuel Beckett, in 'Murphy'

16/09/2009

Cartas de Coimbra XXXI

Renewed preface by ~SayinBayan
Tento sentir as pessoas o mais que posso. Devo-te isso. Fazer da vida uma novidade, acomodar-me a novas arestas, preencher-me com outras formas de amor. Seguir em frente, no sentido em que todas as promessas se fecham e se apagam pela última vez. Sou feita de material diferente do teu e já não me importo. Um dia amaste-me mesmo assim. Apesar dos olhos húmidos, dos lábios salgados, do corpo estendido. Foi talvez a melhor lição de humanidade que podia ter tido. A desforra que Deus deu às mulheres por se darem assim. E na volta, cabe-me também a mim jogar aos dados com a própria sorte e escolher acordar num outro dia.
Fui ao fim do espaço e voltei. Deixei-te para trás, carregando-te comigo todos os dias nos sítios que mais doem. É assim todos os dias. O viver sem ti, sem que de facto te vás embora. Estás em todo lado. Nas minhas manhãs e nas minhas noites. O teu cheiro finalmente saiu mas ficou o teu tacto. O teu vazio. O teu medo. Há muito tempo que não importo e leio sozinha estas cartas. Um dia hei-de escrever a última e isso consola-me. Fui capaz de coisas do tamanho do mundo, mas isso não chegou. Fui capaz de coisas que ultrapassaram os teus sonhos, mas talvez nunca te apercebas disso. Não é uma história de amor, mas é a minha história e todas as minhas reticências. Não é um livro mas são as minhas cartas. A minha vida trocada por miúdos. Os meus porquês. Todos os meus segredos e tudo aquilo que me pedes para ter vergonha, mas eu não consigo. Tento sentir as pessoas o mais que posso. Devo-te isso. Deves-me também tu a mim.

10/09/2009

Cartas de Lisboa IX


Resumir o significado das coisas será sempre impossível, porque disso dependem as vezes que nos partiram ao meio, nos tiraram a virgindade às ideias, nos proibiram de ser completos. Não temos coragem de produzir mudança, não achamos bem desistir do que nos custou tanto a tornar firme. Somos nós que estamos em causa, no fim de contas. É tudo aquilo que aparentemente nos mantém à tona. Olho para trás e frequentemente tenho vontade de me ter mantido naive, uma eterna virgem sem pressa ou desilusões. Talvez assim o tempo passasse mais devagar. Talvez assim a distância entre nós e o chão fosse mais curta. Porque tudo é afinal uma questão de medo, se nos vamos ou não aguentar, se vamos ou não voltar a ser felizes.
Sei exactamente o que está certo, só não entendo porque tenho de o fazer. Não é de mim dobrar a própria vida em quatro e seguir em frente. Não é de mim ter coragem para devolver o respeito e a dignidade ao meu mundo. Não é de mim querer ficar sem ti. Ficar sozinha.

05/08/2009

Cartas de Lisboa VIII


Há momentos que não são mais do que hinos tristes à vida. Nós olhámos para os nossos quando eles choram e sabemos que a mágoa se propaga com os olhos, com a raiva que temos uns pelos outros, com o medo. Olhamos para os nossos velhos, para o destino falhado dos nossos velhos, para aquilo que eles chamam de arrependimento, para aquilo que eles chamam de desistência. As pessoas escondem-se dos acontecimentos numa concha muito própria e deixam a vida arrastar-se porque ela depende não só de amor e respeito, mas também de coisas logísticas como a coragem. Os velhos, mesmo antes de serem velhos, desistem das coisas e perdem o amor próprio. Os novos fazem a mesmíssima coisa. Ficamos todos presos uns aos outros. Ficamos presos às lágrimas dos nossos velhos, à tristeza que nos espera nas esquinas de cada felicidade, à confiança que perdemos – porque as mulheres ruins e os homens no geral fizeram com que a perdessemos.
Vivo na convicção que o destino não nos conduz a um fim, mas que garante que cada traição seja vingada. Solidão com solidão se há-de pagar. Não por maldade, sim por fatalismo. O casamento já pouco tem de sagrado, mas a Confiança é tudo. E mulher que tira isso a outra mulher não vale nada. Absolutamente nada.

29/07/2009

Cartas de Lisboa VII

Mujeres al borde de um ataque de nervios, Pedro Almodovar 1989


¿Cuántos hombres has tenido que olvidar en toda tu vida?
É com esta franqueza que Almodovar me convence a ver o filme até ao fim. É um tanto naive. Roça, como afinal a película inteira, o mau gosto, o burlesco, a falta de simetria de um história de amor falhada regada a gazpacho e sonoríferos. Perdoem-me os apreciadores, é um filme detestável. O que eu precisava hoje era de uma coisinha elegante. Não deixa de ser irónico, contudo. Aquela ali sou eu. Aquela ali, a personagem dos sapatos vermelhos, dos palavrões e das saias curtas. Sou eu e somos todas nós. Coño, diria. Também a mim me apetece um cigarro para o apagar na cama onde tantas vezes fizemos amor. Também eu conto com o dia em que dirás, pelo atendedor de chamadas, que “ya no me quieres”.
No fim de contas, talvez a realidade seja mesmo assim, burlesca. Talvez sejamos mesmo assim, feias, loucas, de perninhas finas, de olhar embriagado. Talvez os nossos namorados sejam terroristas, talvez nos usem, talvez nos mintam. Talvez as nossas melhores amigas se queiram atirar da nossa varanda para que reparemos nelas. Talvez exista algures um homem que valha a pena, que traia a mulher para ficar connosco, que seja gago, que repare telefones, que odeie a mãe e se arrisque por nós. Talvez a rotina seja realmente feita de coisas inverosíveis, sem que isso mude coisa alguma. Estamos apaixonadas e isso transtorna-nos de morte. O mundo tem de parar para deixar passar esse vendaval de medos, de ódios e estrogénios, ao sabor das coisas que eles dizem e que nós não podemos esquecer. Não importa, afinal, em que língua nos insultamos, apesar de em espanhol soar tanto melhor.
Eu, porém, já me olvidei de todos os homens que fui obrigada a esquecer com o tempo. Acho simplesmente que não deveria ter sido assim. A vida pode ter o mau gosto de uma comédia espanhola, mas os infortúnios raramente nos dão tanta vontade de rir. Às vezes parece que já só ficamos pelo sexo, pelo conforto físico. Não somos capazes de partilhar mais nada. Queremos ser melhores mulheres, com a paciência que só um par de cornos nos consegue dar. Queremos estar na retaguarda dos seus problemas, das suas angústias e não levar a peito as dúvidas que nos põem em causa a nós. Mas a certa altura percebemos que estamos a razar a fronteira do “não há nada que possas fazer”. E aí perdemos a vontade de tudo.

30/06/2009

Cartas de Coimbra XXX






Está na profundeza das ideias o ser amada, o ser feliz, o ser melhor. Queremos tudo isso num pacote de viagens que nos leve para longe e que nos restitua, um dia, ao sítio onde de facto pertencemos. Há dias em que me ponho a pensar nas coisas e nas coisas que acontecem e que mudam para sempre a vida das pessoas. Imagino repetidamente coisas terríveis que surgem sem ninguém contar com elas e que deitam por terra todos os planos, todas as banalidades, todas essas concepções enviesadas dos problemas. Penso demasiadas vezes nos azares e no excesso de ironia das coisas. Em como será formar-me um dia e não saber o que fazer a partir daí. O peso da responsabilidade, das contas por pagar, da solidão de um quartinho alugado na baixa de Coimbra. No fim de contas, o peso de um luta diária por um espaço que seja meu. Por um espaço que seja realmente meu! Sinto que não sou senhora sequer das minhas ideias. Uma estudante universitária, com a promessa de uma auto-suficiência tardia. Das que trabalham mas não se sustentam. Nem se sentem capazes disso. Temos todos medo de não sermos capazes. Medo de sermos pequeninos para sempre, de não recuperarmos o brio de antigamente, de nos deixarmos ir passivamente para algum lugar, eventualmente melhor. Temos medo que nos escape alguma coisa. Queremos o mundo e o mundo assusta-nos. Pensamos nas coisas com o embaraço de uma primeira vez. Somos demasiado virgens, apesar de tudo. Olho para trás e lembro-me que Deus me prometeu proteger para sempre. Hoje em dia, Ele só não o faz porque o faço por Ele. Pelo menos é isso que nos ensinam. Depois, seja lá de que forma, encaixamo-nos e ficamos sem saber onde meter as promessas, os caloiros que fomos e sempre seremos, os amigos e o passado. Brindamos pela última vez às inconsequências dos vinte anos e esperamos acordar adultos feitos, mulheres na sua completa acepção da palavra, para podermos fingir que confiamos nas pessoas que se deitam ao nosso lado. No fundo no fundo, não queremos tanto assim, porque sabemos que há coisas terríveis que não se devem mudar. Serão sempre os mesmos rituais de passagem.