naked by ~little-stupid-sophie«E ele me conhece o suficiente para saber que eu poderia até receber um estranho, mas nunca abriria a porta para alguém que de fato quisesse entrar.» CHICO
04/05/2009
Cartas de Coimbra XXVI
naked by ~little-stupid-sophie24/04/2009
Cartas de Coimbra XXV
O futuro chegou depressa demais. ontem tivemos os primeiros desgostos, ontem pensámos que nunca seríamos mulheres a sério, ontem tivemos medo de não crescer. o futuro chegou depressa demais e ninguém diria que ainda somos os mesmos. levo as mãos ao rosto e sinto-me igual. o mesmo medo de nunca ser uma mulher a sério. e nos intervalos do tempo, sinto as minhas nove vidas a esgotarem-se com o passar das horas. e faço delas um tributo aos nossos mortos, religiões aparte, apenas porque há lições de vida que só a morte nos dá, e uma delas é o Tempo.
16/04/2009
Cartas de Coimbra XXIV
19/03/2009
Cartas de Coimbra XXIII
ruas de CoimbraÉ ao som dos últimos acordes que Coimbra me castiga pelas palavras disparadas em todas as direcções. O nosso sangue hoje é álcool, o nosso sangue é vermelho escuro de um copo de pura estupidez. O nosso sangue hoje é espesso, o nosso sangue hoje é tóxico. O nosso sangue é aquilo que nos burbulha à flor da pele, na ligeireza que é confessar-nos às negras paredes dos recantos mendigos desta cidade. Nada fiz que não escondesse nas entrelinhas um amor maior que a impotência de estar longe de mim própria, que a impotência de ter uma mão cheia de ti e outra sem coisa alguma. Há pedaços de histórias que fomos nós que inventámos, tal era o vazio que consumia o nosso eco. Sobreviver ao que nos tornámos é hoje a tarefa mais dura, o destino mais nobre, a desvantagem de, nestas coisas da vida, a marcha-atrás não existir. Não te peço que me perdoes porque não quero que o faças. Porque não quero que me perdoes a felicidade descartável de uma rotina assim, porque não quero que me olhes por dentro e descubras que és mais feliz sem mim.
Não perdi o seguimento à vontade de morrer lentamente no teu abraço, numa felicidade platónica e meiga. Não perdi o calor dengoso com que prendo o teu corpo ao meu, a tua alma à minha, a tua vida à vida que a sorte ditar. Sou eu da cabeça aos pés, eu antes e depois dos licores destilarem uma noite de altos e baixos, eu quando peço por favor para ouvir a tua voz só mais uma vez. Amo-te com a indiferença dos loucos: preciso de ti, da tua paciência temperada de fogo, do teu cheiro familiar, da tua mão que me segura e que me protege. O que te posso dar é cada vez menos, porque também eu sou cada vez menos. Mas, se me pedisses, cantar-te-ia o rebentar disperso das ondas, as mil cores que existem no sabor da tua lembrança, o único e verdadeiro sentido para tudo o resto.
02/03/2009
Cartas de Coimbra XXII

É tudo uma questão de tempo, repito. Eu não sei dizer de outra forma, o tempo e o espaço têm cheiro e cor e normalmente nome. O meu nome é o teu. A criação invertida de um punhado de anos que serão sempre sobre ti. E em dias assim, eu paro e tento sentir-te como uma memória, o dedilhar dos teus dedos nas minhas costas, o crescer da tua voz soprada ao meu ouvido. O infinito que encontrávamos no sabor das coisas, nos beijos lentos que não tinham tempo, e eram felizes assim.
15/02/2009
(...)

Percebi cedo que não me adaptava às pessoas – àquelas pessoas, entenda-se. Eu queria ir para a faculdade, queria fazer as coisas bem. Era insegura acima de tudo, mas tinhas as minhas convicções, sabia de que cálices não beberia para já, sabia que guerras poderia escolher. Aquelas não eram simplesmente as minhas pessoas.
Um dia aconteceu que os meus colegas de turma quiseram humilhar uma amiga. Se ser-se obesa não era suficiente, escolheram a pessoa mais frágil, a que era mais fácil pisar. E assim surgiram cartazes dela por toda a escola, com versos ordinários, testemunhando só e apenas isto – não gostamos de ti, vales menos que nós. Nesse dia aconteceu eu perceber que era a única, à excepção da visada, que não tinha visto aquele projecto nascer. Naquele dia percebi que aos dezasseis anos não havia ninguém que dissesse: vocês são uns porcos, não valem nada, isso simples e inquestionavelmente não se faz a ninguém! Tirei sozinha os cartazes. Fui a única que a abracei. Os amigos de todos os dias viraram-lhe as costas. Ninguém, porra!, ninguém se indignou, todos se riram. O fato do respeito e da rectidão que vestiam não passava disso mesmo: de aparência. A cobardia nunca foi virtude mas naquele dia enojou-me. Lembro-me – juro que me lembro mesmo! – da sensação de aperto do estômago, do frio, das lagrimas a cairem devagarinho. A raiva veio depois. Veio com o tempo, com a instabilidade da consciência que sabe que devia ter feito mais. Veio porque estava sozinha e isso era pura e simplesmente errado.
Isto teve lugar há quatro anos atrás. Espero que entendam a dimensão desta história, acima de tudo, deste desabafo. Definitivamente não vão sentir a mesma indignação através de um discrição tão sintética.O carácter de quem viveu esse dia estendeu-se a todos os outros dias e a minha voz muda também. De alguma forma acho que podia ter sido mais atingida e tranquiliza-me acreditar que a minha forma de estar me protegeu disso. Por algum motivo, é uma lembrança que não me deixa, que se repete diariamente. Eu sei que fiz muito pouco. Não trago a consciência tranquila. Sei também que não desperdiçaria uma oportunidade de vingança. Uma nova e derradeira oportunidade de reescrever as coisas, de envergonhar as pessoas pequenas, as medíocres, de corrigir as falsas memórias que deixaram.
27/01/2009
Cartas de Coimbra XXI
16/01/2009
Cartas de Coimbra XX
02/01/2009
Cartas de Lisboa VI




