07/02/2008

Cartas de Coimbra V


E trocadas as voltas, sou muito mais pequena do que supus. Somos todos. Jamais da integridade que acreditámos ser, jamais da coragem que pensámos ter. E trocadas as voltas, cada vez que te sujeitas a voar, cada vez que sonhas, cada vez que te vês lá no alto onde não estás, o mundo tropeça-te nos pés e mais pequena te tornas. E mais ninguém ter tornas. E menos sabes, e menos entendes, e mais medo somas, e mais consciência tens do que perdeste com o tempo que consumiste a sonhar. E mais pequena és.

E trocadas as voltas, as aparências iludem. E tu iludes-te com o reflexo espelhado que tens de uma estranha história a minguar-te nas mãos. Lá no fundo tu só querias ter visto o nascer do sol com ele ao teu lado. Tu só querias ter fugido com ele para um fim do mundo onde ninguém vos pudesse encontrar. Tu só querias ter recebido flores, ao menos no teu dia de anos. Que te tivessem feito uma surpresa que fosse, e percebido que precisavas deles. Que precisavas de ti e que não te tinhas. Tu só querias ter sido outra a quem as coisas não pesassem tanto. Outra que ele não tivesse tido de deixar e que hoje ainda iria acordar a meio da noite e aperta-lo contra si. Outra. Tu só querias que as tuas mãos não gelassem cada vez que, para não chorares, tivesses de escrever. Que para conservares o ritmo te adiasses por tempo indeterminado. Lá no fundo, tu só querias ter sido feliz. Tu só querias ter sido feliz à tua maneira resguardada de esperares por um rasgo de sorte para embarcares na vida. Mas o teu rasgo de sorte não veio ainda e tu sentas-te de pernas cruzadas à espera do destino. Consta que ele há-de chegar quando menos esperares e que aí talvez te conformes e sejas feliz assim.

28/01/2008

Cartas de Coimbra IV

by Steffen Ebert


Depois da noite de ontem eu soube que o que se esgota por falta de vontade não se repõe nunca mais. Ou assim deve ser. A cerveja há de nos servir de alento nas noites mais frias, Coimbra terá pretensões de substituir o que não tem volta e nós dois seremos exactamente aquilo que nos tornámos, contra todas as formas que tens de te resguardares do que queres tentar e pensas que não deves. Sabes bem que foste feito para isto. Que o chão que pisas não é mais o chão que queres pisar. E quem se farta por fartar e quem se farta porque querer conhecer pessoas novas não merece nada mais, disseram-me, e isso eu não te perdouo, por que não o confessas e me mentes como, agora eu sei, sempre mentiste.

No destrocar dos pares, esta noite não fui tua, mas apenas minha – I didn’t lose my mind, It was mine to give away , tal como nos dizia a música. Esta noite brindei ao que sempre te disse, que um dia me deixarias, que partirias por estar cansado de mim e dos meus silêncios. Mas depois estou sóbria de novo e lembro-me que eram os teus silêncios, e não os meus, e que eram as tuas distancias, e não as minhas, que nos matavam todos os dias. Não era a minha insegurança, era a segurança que não tinhas para me dar, apesar de todas essas palavras esgotadas que disseste enfim, quando já não havia mais nada a fazer por nós. E eu, meu amor, eu sempre soube que seria bem mais fácil para mim assim. Mas quem corre por gosto não deveria cansar e aceitei-te tudo porque o amor é para os parvos – e eu não fui nada mais que uma parva.
Pelo menos agora o destino segue o rumo que se ocasionou que seguisse, sem já quase nada que me prenda aos dias que deixei para trás, onde ficaram os primeiros grandes amores da nossa vida fácil. Agora preciso de um primeiro amor difícil. Um daqueles, moderado o bastante para entender com que linhas se cose uma relação – preparado para que nem tudo se faça dos jardins, e das noites e tardes imensas daquele mês de setembro, para que nem tudo sejam manhãs intermináveis do amor de lençóis que construímos, do amor de Verão que não quisemos.

22/01/2008

"my own springtime"

.
Olá a todos. Estive ausente e no entanto sempre aqui. Estive ausente e no entanto com as mãos sobre a teclas e a necessidade sobre as palavras. Estive ausente e sempre soube que um dia acabaria por voltar. Triste, claro está, mas sim, eu um dia acabaria por voltar. Depois de arrumar a minha vida, de encaixotar metade do passado, de arrefecer os ódios – e as paixões interditas também.
Desde então que aprendo todos os dias como se vive sozinha. Aprendo como se perde. Como se perde o melhor que se tinha e como se recomeça aparentemente com quase nada. E os recomeços não são fáceis, concordarão comigo. Os recomeços precisam que acertes o compasso com as novas pessoas com quem vais ter de viver de agora em diante. Os recomeços precisam que fiques feliz com as conquistas pequenas, com os gestos miúdos, com a presença mesmo que calada dos amigos que te sobram e dos que, aos poucos, vão confiando em ti.
No fim de tudo, sabes enfim que estiveste este tempo todo sozinha. E que não vais querer voltar a casa nunca mais, porque Lisboa, ou esse sítio de onde vieste, se revestiu de tristeza com tudo o que lá deixaste – ou com tudo o que lá perdeste. Não vais voltar porque a luz se apagou, porque aquela chama pequenina cá dentro, de tanto tremer, se apagou. Não vais voltar porque agora o simbolismo das coisas é outro. Não vais porque lá ficou talvez a melhor pessoa do mundo e com ela todas as noites no jardim e todos os beijos e todo um amor que parecia inesgotável.

Este blog foi feito em nome de alguém que sempre o mereceu até ao dia em que não soube explicar porque me deixava quando eu mais precisava dele. Até ao dia em que não soube dizer porque me deixava quando eu mais precisava de alguém. Desde o inicio, era o nome dele nos contornos de todas as dúvidas, de todos os dissabores, de todas as alegrias, que exprimi sempre com tanto medo para que não fossem efémeras. Mas agora tudo isso me morreu nas mãos, sobre as teclas, na distância que me faz detestar Lisboa e a saudade que ela deixou de trazer. Dá vontade de acreditar que todo este blog foi em vão. Os caprichos de uma poesia triste que chorava uma história de amor ainda mais triste. Não me quero lembrar do quanto fui feliz com ele, porque as vezes dou por mim a pensar que fora melhor não o ter conhecido. Não, não... a minha vida não era só ele. A minha vida continua a multiplicar destinos e a tentar existir no meio das outras. Mas a melhor pessoa do mundo cruzou-se comigo e disse que me amava. E depois tornamo-nos amantes incompatíveis sem paciência para a distancia ou para a vulnerabilidade dos destinos que se adiam. Mas, prometo-te, eu um dia hei-de ser feliz outra vez.
Com alguém que me ofereça flores.

07/12/2007

"Para ti, desde sempre,"

Acabou enfim... tu vieste e disseste de tua justiça, que há amores de uma neutralidade tão grande que se anulam indeterminadamente para serem de novo o pó de onde vieram... e hoje, nunca pareceu tão legitimo odiar alguém. E, sabes, tento convencer-me que melhor assim. Para ti, desde sempre.

Vieste e foste,
ignoro se poderás voltar. Ontem, ao partires,
não reparaste que me deixavas menos feliz. Embora
tudo ficasse feito e decidido não sei que incompletude me
abalou – talvez a espera.
Perdi-me absurdamente no caminho e, por momentos,
a luz libidinal do teu pensamento
fugiu de mim. As coisas deixaram
a concretude com que sempre as tinha conhecido.
Sem perspectiva, nem letra.
Ao regressar à terra, não quis escrever no teu caderno.
Arranquei-lhe apenas esta folha. Fui um pobre corpo.
Rasguei-me a mim próprio e quis deitar-me fora.
Por isso te deixo este bilhete.
Vieste e foste.
Não foi por isso que te amei menos.
Em mim, não se realizou a tua conjectura sobre a
ressurreição da carne ________
Reconhecerás tu, neste impulso da visão, uma carta de amor?
.
Maria Gabriela Llansol

29/11/2007

Cartas de Coimbra III


Sabes, por mais que diferentes, nada mudou. Nada mudou desde aquela altura em que éramos dois no parapeito de um conhecimento e de uma felicidade que nunca, alguma vez, viriam a ser realmente nossos. Nada mudou desde que eu soube, bem cá dentro, que te amava e que toda a minha tola tristeza era por, um dia, tu ires embora como a mais natural das consequências da vida.
.
E nada mudou porque continuo, contudo, a ser sozinha, digas lá tu o que disseres. Sozinha, de um amor impetuoso e obstinado, levando-te o coração nas mãos como dantes, com a diferença de que agora já não em silêncio. Agora com o luxo dos beijos intensos que pretendem compensar as tantas vezes que esperei por ti sem que tu viesses. O luxo das mãos dadas que, apesar de tudo, não consigo trazer quentes. O luxo de uma vida que empurramos prometida mas que hoje, eu sei - nada vai ser como nós quisemos.

.
E eu continuo a precisar de mim sozinha, porque tu não me podes entender – não quando eu te digo que penso e sei que a eternidade é demasiado (pouco) para nós dois. E hoje, meu amor, não dói tanto porque também eu vou precisar, um dia, de recuperar a parte de mim que quer ser mais que os homens, e que o amor dos homens, e que as relações dos homens. Também eu vou querer ver o mundo. Também eu vou querer cumprir profecias, roçar utopias com a ponta dos dedo, abraçar o trabalho e esquecer-me de mim. Também eu vou querer seguir com a minha vida, como tu hoje me mandas fazer. E nessa altura, meu amor, talvez me consigas ver de todos os ângulos e não apenas daqueles de que precisas. Talvez consigas harmonizar as palavras com os actos e até mesmo esqueceres-te de ti.

Prometo-te que serei feliz, der lá por onde der…

.

Sempre tua,

...

28/11/2007

Cartas de Coimbra II


Esta música custa-me como se te contassem a tua própria vida de trás para a frente. O redor de muitos medos que não costumavas ter porque eras livre para te renderes no mundo sem olhares para trás. Para abraçares os feitiços de todos os homens e de todas as mulheres também. E agora é só o que tens. A tua vida encaixotada na dispensa das vidas, cantada aos ouvidos para que não esqueças que pelo menos tentaste e até acreditaste que podias ser feliz assim. Não fosse o medo...

E esta música custa-me como nos custam os primeiros fins. Custa-me como nos custam as primeiras distâncias, as primeiras certezas, os primeiros impasses. Como te custam as músicas que falam do que ficou por dizer, mas que sentiste em todos os centímetros de ti. Em todos os lugares em que paraste e desejaste ter tido alguém para os partilhares e te partilhares a ti, assim, naturalmente. Agora, peço apenas que oiças. E que me oiças a mim também.

07/11/2007

Cartas de Coimbra I


Sabes... penso em ti todos os dias. Na roda viva deste destino que não escolhi. Nem escolhemos. E, sabes, sento-me todos os dias quando chego a casa nesta cadeira e choro um bocadinho. Por nós dois. Fixo-me no silêncio que sobra quando percebo que vivo sozinha e longe de ti. Mais que isso, choro ao lembrar-me que a tua vida me passa o lado todos os dias e que no meu lugar outras tantas partilham tudo o que em ti me faz falta hoje.
Ainda na outra noite me pediram que falasse de ti. Sem querer, sem sequer esperar, chorei um bocadinho. E, sabes, por mais força, por mais máscaras, por mais persistência que juntemos ao rosto com que enfrentamos o dia... eu sei que no fim, eu vou chegar a casa e sentar-me nesta mesma cadeira e, novamente, tu não vais ca estar, tu não vais ligar, não me vais responder a mensagem que te deixei no computador para quando enfim chegasses a casa, e que depois de tudo isso, eu vou chorar, porque te sinto fugir, porque tu estas longe e eu longe estou, porque outras pessoas entram na tua vida e na minha também e o inevitável custa demasiado.
E nessa noite, por um bocadinho de lágrimas eu disse talvez tudo. Porque a vida hoje não me chega e dá me medo. Medo que um dia volte e tu já não esperes por mim. Hoje agarro-me aos últimos feixes de luz que entram pelos cortinados e escrevo-te sobre estas ultimas lagrimas que me secaram na pele. Amo-te como nunca achei possível. Como nunca me achei capaz. Mas a verdade é que te amo e esse será sempre um motor para perceber que no mundo o que se perde e se ganha é demasiado para admitir a individualidade como uma condição. Vivo de ti e da certeza que compensarás sempre tudo. Tudo, tudo... Da certeza de que sobre as lagrimas secas, outras tantas hei-de chorar. Por ti...

14/10/2007

Para ti, desde sempre,


Escrevo-te de uma secretária que não conheces, ainda. E digo ainda porque espero que venhas a conhecer todos os lugares da minha vida, e todas estas secretárias à frente das quais me sento para te escrever, ou para simplesmente escrever, ou para simplesmente coexistir sentada com a tua memória, com o teu retrato e a falta que hoje e sempre me fizeste.

Tu entendes. A vida é feita destas coisas pequenas e é a elas que me agarro quando sou pequena demais para todas as outras. E as minhas pequenas grandes coisas não são mais do que secretárias decoradas de um vazio figurativo. Não são hoje mais que as canções de sempre, aquelas que me trespassam porque me falam de ti; não são mais que ameaças de chuva, do que gatos pardos a olharem siderados para nós nas tantas viagens que nos habituámos a fazer sozinhos pelas ruas de Coimbra. Estas são as minhas pequenas coisas. As outras, as grandes, as coisas gigantes... essas são para depois. Para quando, passo ante passo, algo sugira que, na distância e nos tropeções, não existe nunca uma meta única. Nunca um desígnio que despeça todas as outras tantas hipóteses de recomeçar outra vez. E é assim que quero viver contigo: sem que nunca uma decisão seja uma sentença de morte para nenhum de nós, sem que nunca, por causa desta vontade de sermos maiores do que as expectativas nos esqueçamos de ser pequenos, sem que nunca paremos de amar as crianças de costas voltadas que fomos.
.
E esta é talvez a nossa melhor canção de sempre...

19/09/2007

Coimbra...

Coimbra


A vida deu finalmente a volta ao contrário que eu há tanto tempo anunciava. Mesmo assim, a mesma vida que me trazia desprevenida. E vendo bem, não houve nunca forma alguma de estarmos preparados contra uma vida a fugir-se-nos do colo e a empurrar-nos para as decisões que só deveríamos saber tomar quando fossemos grandes. Mas eu não sou grande. E hoje estou a braços com um destinar demasiado corajoso para aquilo de que sou capaz.
Eu consegui o que queria. Foram três anos de uma interrogação extensa e demorada, de uma luta que não deveria ter levado tão a peito mas que deu frutos. Hoje sou estudante de Medicina e vivo a coisa como o despertar para uma vitória que outros tantos mereceram e não conseguiram. Mas eu consegui e parto, não tarda, para Coimbra. De braço dado com o Deus do meu mundo pequenino a jogar aos dados e a empurrar-me para longe de ti e de tudo o que é certo para mim. Coimbra. Coimbra, Coimbra, Coimbra. Todos me prometem um fundo nostálgico para os anos que serão os melhores da minha vida, apesar de tudo. E apesar de tudo, tu estás longe e eu não estou bem. E se não és tu que eu perco no meu novo céu, então sou eu que me perco nas ruas que descubro agora. As ruas de Coimbra.
E, sabes, peço, frequentemente e em segredo, para que o Deus do meu mundo pequenino me dê forças, porque, um dia, eu sei, chegarei a casa e quererei desistir. Tudo o que vejo é negro e chuvoso, tudo nevoeiro cercando uma vida que, de hoje em diante, é sozinha que se vê, na deriva de um universo de tradições, capas e batinas. Não foi isto que eu sonhei para mim. Mas é isto que tenho.
Hoje tudo é precário e vale mais que todas as palavras que te hei-de dizer na hora da despedida. Porque, afinal, não és o único que deixo para trás. Hoje, ainda em casa, tudo é seguro e esta falsa segurança quase me garante que vai correr tudo bem. Mas ambos sabemos que não, que nem tudo vai correr bem. Hoje tudo é uma contagem decrescente. Uma contagem decrescente para o primeiro dia do resto das nossas vidas.
.
Caso para dizer... se te perguntarem por mim, diz que Voei...

25/08/2007

Um Particípio Presente Mais Que Perfeito


A vida rodou três vezes, no desejo palerma de que nunca jamais te vás embora. Agora eu entendo que és o melhor dos homens, o mais feito à minha escala, o mais moldado às minhas vontades, a mais sibilante palavra que, de hora a hora, me apetece que digas de novo ao meu ouvido. Fui embora e voltei, e Barcelona foi a cidade mais demorada de toda a minha história. Tu chamavas por mim a todas as horas e, do lado de lá, eu não podia ainda voltar. Agora vais tu embora e não tarda, no consentimento de todos os que nos olham de mão dada no metro, talvez um dia te vás sem data de regresso marcada. Depois, enfim, terei de esperar por ti num dia nublado e triste como este, rumo à rua de Santa Catarina, no Porto. Aí te espero. Quando nos tivermos esquecido um do outro, apesar de todas as juras de eternidade que ambos não quisemos verbalizar.
E nesse dia, meu amor, tomara que possamos continuar tudo aquilo que deixamos em suspenso. Tomara que tudo pareça igual ao que é agora, que me ames com a mesma intensidade com que as mãos se procuram agora, com que os olhos se fecham e os lábios se esquecem de tudo. Tomara que a minha voz te continue a parecer familiar. Que o sabor dos teus dedos finos continue igual. Que tudo possa ser como é agora. Um Particípio-Presente-Mais-Que-Perfeito.