07/11/2007

Cartas de Coimbra I


Sabes... penso em ti todos os dias. Na roda viva deste destino que não escolhi. Nem escolhemos. E, sabes, sento-me todos os dias quando chego a casa nesta cadeira e choro um bocadinho. Por nós dois. Fixo-me no silêncio que sobra quando percebo que vivo sozinha e longe de ti. Mais que isso, choro ao lembrar-me que a tua vida me passa o lado todos os dias e que no meu lugar outras tantas partilham tudo o que em ti me faz falta hoje.
Ainda na outra noite me pediram que falasse de ti. Sem querer, sem sequer esperar, chorei um bocadinho. E, sabes, por mais força, por mais máscaras, por mais persistência que juntemos ao rosto com que enfrentamos o dia... eu sei que no fim, eu vou chegar a casa e sentar-me nesta mesma cadeira e, novamente, tu não vais ca estar, tu não vais ligar, não me vais responder a mensagem que te deixei no computador para quando enfim chegasses a casa, e que depois de tudo isso, eu vou chorar, porque te sinto fugir, porque tu estas longe e eu longe estou, porque outras pessoas entram na tua vida e na minha também e o inevitável custa demasiado.
E nessa noite, por um bocadinho de lágrimas eu disse talvez tudo. Porque a vida hoje não me chega e dá me medo. Medo que um dia volte e tu já não esperes por mim. Hoje agarro-me aos últimos feixes de luz que entram pelos cortinados e escrevo-te sobre estas ultimas lagrimas que me secaram na pele. Amo-te como nunca achei possível. Como nunca me achei capaz. Mas a verdade é que te amo e esse será sempre um motor para perceber que no mundo o que se perde e se ganha é demasiado para admitir a individualidade como uma condição. Vivo de ti e da certeza que compensarás sempre tudo. Tudo, tudo... Da certeza de que sobre as lagrimas secas, outras tantas hei-de chorar. Por ti...

14/10/2007

Para ti, desde sempre,


Escrevo-te de uma secretária que não conheces, ainda. E digo ainda porque espero que venhas a conhecer todos os lugares da minha vida, e todas estas secretárias à frente das quais me sento para te escrever, ou para simplesmente escrever, ou para simplesmente coexistir sentada com a tua memória, com o teu retrato e a falta que hoje e sempre me fizeste.

Tu entendes. A vida é feita destas coisas pequenas e é a elas que me agarro quando sou pequena demais para todas as outras. E as minhas pequenas grandes coisas não são mais do que secretárias decoradas de um vazio figurativo. Não são hoje mais que as canções de sempre, aquelas que me trespassam porque me falam de ti; não são mais que ameaças de chuva, do que gatos pardos a olharem siderados para nós nas tantas viagens que nos habituámos a fazer sozinhos pelas ruas de Coimbra. Estas são as minhas pequenas coisas. As outras, as grandes, as coisas gigantes... essas são para depois. Para quando, passo ante passo, algo sugira que, na distância e nos tropeções, não existe nunca uma meta única. Nunca um desígnio que despeça todas as outras tantas hipóteses de recomeçar outra vez. E é assim que quero viver contigo: sem que nunca uma decisão seja uma sentença de morte para nenhum de nós, sem que nunca, por causa desta vontade de sermos maiores do que as expectativas nos esqueçamos de ser pequenos, sem que nunca paremos de amar as crianças de costas voltadas que fomos.
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E esta é talvez a nossa melhor canção de sempre...

19/09/2007

Coimbra...

Coimbra


A vida deu finalmente a volta ao contrário que eu há tanto tempo anunciava. Mesmo assim, a mesma vida que me trazia desprevenida. E vendo bem, não houve nunca forma alguma de estarmos preparados contra uma vida a fugir-se-nos do colo e a empurrar-nos para as decisões que só deveríamos saber tomar quando fossemos grandes. Mas eu não sou grande. E hoje estou a braços com um destinar demasiado corajoso para aquilo de que sou capaz.
Eu consegui o que queria. Foram três anos de uma interrogação extensa e demorada, de uma luta que não deveria ter levado tão a peito mas que deu frutos. Hoje sou estudante de Medicina e vivo a coisa como o despertar para uma vitória que outros tantos mereceram e não conseguiram. Mas eu consegui e parto, não tarda, para Coimbra. De braço dado com o Deus do meu mundo pequenino a jogar aos dados e a empurrar-me para longe de ti e de tudo o que é certo para mim. Coimbra. Coimbra, Coimbra, Coimbra. Todos me prometem um fundo nostálgico para os anos que serão os melhores da minha vida, apesar de tudo. E apesar de tudo, tu estás longe e eu não estou bem. E se não és tu que eu perco no meu novo céu, então sou eu que me perco nas ruas que descubro agora. As ruas de Coimbra.
E, sabes, peço, frequentemente e em segredo, para que o Deus do meu mundo pequenino me dê forças, porque, um dia, eu sei, chegarei a casa e quererei desistir. Tudo o que vejo é negro e chuvoso, tudo nevoeiro cercando uma vida que, de hoje em diante, é sozinha que se vê, na deriva de um universo de tradições, capas e batinas. Não foi isto que eu sonhei para mim. Mas é isto que tenho.
Hoje tudo é precário e vale mais que todas as palavras que te hei-de dizer na hora da despedida. Porque, afinal, não és o único que deixo para trás. Hoje, ainda em casa, tudo é seguro e esta falsa segurança quase me garante que vai correr tudo bem. Mas ambos sabemos que não, que nem tudo vai correr bem. Hoje tudo é uma contagem decrescente. Uma contagem decrescente para o primeiro dia do resto das nossas vidas.
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Caso para dizer... se te perguntarem por mim, diz que Voei...

25/08/2007

Um Particípio Presente Mais Que Perfeito


A vida rodou três vezes, no desejo palerma de que nunca jamais te vás embora. Agora eu entendo que és o melhor dos homens, o mais feito à minha escala, o mais moldado às minhas vontades, a mais sibilante palavra que, de hora a hora, me apetece que digas de novo ao meu ouvido. Fui embora e voltei, e Barcelona foi a cidade mais demorada de toda a minha história. Tu chamavas por mim a todas as horas e, do lado de lá, eu não podia ainda voltar. Agora vais tu embora e não tarda, no consentimento de todos os que nos olham de mão dada no metro, talvez um dia te vás sem data de regresso marcada. Depois, enfim, terei de esperar por ti num dia nublado e triste como este, rumo à rua de Santa Catarina, no Porto. Aí te espero. Quando nos tivermos esquecido um do outro, apesar de todas as juras de eternidade que ambos não quisemos verbalizar.
E nesse dia, meu amor, tomara que possamos continuar tudo aquilo que deixamos em suspenso. Tomara que tudo pareça igual ao que é agora, que me ames com a mesma intensidade com que as mãos se procuram agora, com que os olhos se fecham e os lábios se esquecem de tudo. Tomara que a minha voz te continue a parecer familiar. Que o sabor dos teus dedos finos continue igual. Que tudo possa ser como é agora. Um Particípio-Presente-Mais-Que-Perfeito.

10/08/2007

À vossa espera...


As férias costumavam ser para mim um poço bem fundo de palavras. Um poço que nunca secava porque havia ainda muito metafísica por entender e muitas experiências por adivinhar. Hoje sugiro-vos outras Palavras. Alguma poesia. Um nome que espero que registem e que lhe reconheçam o talento que eu lhe reconheço.


Se não tiveram ainda o prazer de conhecer, apresento-vos o meu actor e poeta preferido. Pedro Pinto. (H)A Espera...
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Vamos , vamos partir sobre as cidades cobertas sob gritos e mãos que se quebram dentro de si mesmas.
Recolhemos os passos rápidos num segredo quieto que fica por dizer já num sorriso escondido(...)

29/07/2007


O que eu não contava era que tu um dia me viesses a amar assim. Tão veementemente. Eu sempre achei que ambos os dois amaríamos, por destino, com a indiferença dos homens lúcidos. Eu sempre achei que meditaríamos sobre todos os nossos passos em frente e sobre todos os nossos passos atrás. Eu sempre achei que nunca jamais te ouviria dizer as coisas que me dizes agora. Essas coisas que nunca se querem ouvir quando se ama de menos ou não se procura ser amado demais. O que eu sempre quis foi que me visses. Que entendesses e prolongasses este meu fascínio por ti. O que eu sempre quis foi que me soubesses dizer Não com o jeito autêntico dos egoístas e que me prendesses a ti pela ocasionalidade deste nosso segredo adiado.
O que eu sempre quis foi poder amar-te sem medo do tédio ou de um qualquer enfastiamento precoce. Sem medo dos teus olhos vidrados e das tuas mãos suadas. Sem cansaço para o teu peito, sempre necessitado de encosto. O que eu sempre quis, o que eu realmente sempre quis… foi que reparasses em mim. Que me visses quando passava por ti e combinava contigo um café para mais tarde. Quando me dizias que Não por mero desinteresse.
O que eu sempre quis e o que eu realmente queria… é que não tivessem havido momentos de solidão. Que tivesses notado mais vezes no meu penteado novo. Que me tivesses convidado para tomar café contigo todos os dias. O que eu realmente quis foi ter podido impressionar-te ao segundo ou terceiro sorriso.
Mas isso agora não tem volta. Aprendeste talvez o quanto custa amar sem retorno. Mas achaste por bem amares-me mesmo assim, de qualquer maneira. Perseguindo o meu rosto e os meus braços ainda brancos, contanto os minutos para que eu voltasse para ti, mesmo vinda do abraço de outro. Agora falas de um amor diário e com rotinas. Falas da necessidade de me ver. Falas de uma saudade que eu não sinto. Tu agora és diferente. E, curiosamente, eu também. Sou capaz de prender-te e, porém, de te deitar fora também.

23/07/2007

Closer

Sempre quis escrever sobre este filme. Closer. Perto Demais. Um hino triste às relações.

Antes de mais preciso que saibas que não sei do que falo. Sou demasiado nova, demasiado ingénua e demasiado insegura para falar como argumento de autoridade. Coisa que não sou. Mas olho e vejo as pessoas a mudarem à velocidade da luz, olho e sinto que não sou capaz de suportar a inevitabilidade dos “felizes para sempre”.
Não se trata de não sermos capazes de amar. Porque somos. Somos mesmo… Amamos, mais não seja, aqueles que nos trouxeram ao mundo, amamos o nosso ego e os nossos valores. Porém, as relações humanas encerram coisas que desviam a nossa atenção para os detalhes errados. O Ciúme. Os Caprichos. A Traição. Uma perfeição que não existe em lado nenhum.
Penso nas relações que duram anos e anos. E fico siderada com isso. E depois olho e procuro pela individualidade de cada uma das partes. Uma individualidade esbatida num compromisso estranho e que, apesar de tudo, existiu desde sempre. Onde pára a noção de felicidade quando as pessoas parecem estagnadas, conformadas, à procura de relações paralelas, de mentiras piedosas, de fugas rápidas e silenciosas? Quando precisam apenas de fazer valer os seus compromissos para não se enfrentarem. Para não darem por si sozinhas. Quando tudo é feito para se estar encaixado nalgum lado. Para se seguir um estilo de vida adequado. Para se ser livre, preso num amor que é precário e que põe condições. Não sou capaz de conjecturar a eternidade de coisa alguma. Mas essa eternidade acontece e eu não consigo entender como. Ninguém permanece imune ao Tempo. Nem aos Acasos, nem às Tentações, nem a nada…

Closer celebra um amor leviano que cruza e descruza quatro vidas. Quatro vidas inverosímeis talvez, mas abraçadas a um tipo de amor bastante provável.

21/07/2007

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Olho e sei que estou num ponto de viragem. Amanhã não sei o que me acontecerá, nem a ti, nem a ninguém à minha roda. As filosofias estão perto de se perderem e a vida de passar a andar ao contrário. Deus não joga aos dados, mas nós parecemos jogar. Escolher assim o nosso fim sem a pressa que a angústia devia dar-nos. Temos medo do resultado final. E um dia falaram-me da beleza inatingível dos sonhos, como se isso fosse coisa que eu pudesse inverter, tocar ou lidar. Os sonhos não são bonitos. Os sonhos são estranhos. São confusos. São fugas estranhas de uma ideia que encerra em si uma simbologia demasiado sólida e áspera para que se fale de beleza. Os sonhos não materializam desejos. Não são doces. Nem simples. Os sonhos perdem-se num universo do qual não nos lembramos porque dormíamos enquanto ele acontecia.
Eu tenho saudades de quando era pequenina. De quando apertava nas mãos um destino com todas as hipóteses de futuro por definir. Quando eu ainda não era o que sou agora. E agora percebo que não é um sonho, mas um desejo, essa vontade tonta de puder voltar atrás e descobrir que, afinal, voltaria a escolher da mesma forma.

16/07/2007

A precariedade e a validade do Mundo


A minha maior convicção é que serei sempre a única pessoa que me acompanhará a vida toda. E a precariedade e a validade de todas as outras pessoas é, não apenas uma resignação, como também um alívio e às vezes um desconcerto que me torna pequenina aos olhos do mundo. Eu não acredito no destino, como já o disse tantas vezes. Eu acredito em Deus, como tantas vezes o insinuei. E escrevo pelo prazer que é provar que, pelo menos disto, sou capaz.
Acredito simultaneamente que o mundo é pequeno demais para que as pessoas da nossa vida se percam impassivelmente de nós. Vivo nessa esperança acesa de que em qualquer esquina, em qualquer fila de supermercado ou em qualquer estação de metro esteja uma cara conhecida de outros tempos. A tua eventualmente.
É como aquelas estranhas coincidências que nos fazem esbarrar com o mesmo sujeito dias seguidos, como se nos andássemos a perseguir mutuamente. É o primeiro Olá que o sorriso de engate traduz, quando à tua volta tudo é som e música e tu o que queres é ser levada pelas estrelas. É o segundo olá quando de manhã acordas e ainda te lembras do que sonhaste. O terceiro, enquanto não tens lume para lhe dar; o quarto quando descobrem que o mundo é afinal um mundo de acasos e de coincidências que se encaixam na perfeição. Quando vocês dois foram feitos para trocarem esses olhares inflamados e seguirem destinos diferentes. E depois não serão precisos mais sorrisos. Chega-nos o rosto. A presença de um desejo que te tenta a seres infiel a ti própria.
Hoje acordei e o que eu mais queria era trair-te. Embarcar numa viagem bem rápida para me sentir bem comigo própria – quanto engano!, dirias tu. Mas é o que sinto. A falta das frases clichés, da troca de números de telefone, de cafés a serem prometidos e, um dia, para nosso desgosto, a serem cumpridos. A falta daquele bicho mau que é a vaidade, a luxúria disfarçada de carência.

14/07/2007


O problema com a nossa época é que ela tem muitas placas de sinalização e nenhum destino.
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