Faz um ano que o mundo parou e vestimos o luto. Sofremos muito… e depois a vida voltou aos carris, como não podia deixar de ser. Faz um ano que ele perdeu um pai e ela um marido. E fomos todos sentir com ela a dor imensa de um acontecimento para o qual não tínhamos ensaiado. O mundo parou. Literalmente. E nós, parados com ele, viajámos até lá, até onde as origens nos levam. Eles foram no próprio dia mas eu tive de esperar. E esperei. E depois, embarquei enfim na viagem mais silenciosa da minha vida. Acho que nem me ouvia a mim mesma. Toda eu era silêncio. Uma espécie de cimento endurecido, mal vestida, com o primeiro preto que vira no armário, com a expressão petrificada que me ficara desde que ela dissera “O avô morreu”.
A vida é mesmo assim, dizem. E assim mesmo é a nossa desorientação quando algo falha. Hoje sei que naquele dia algo falhou para que algo mais se encaixasse.
O tempo passou demasiado depressa. E ele foi o único avô que conheci. O único que me conheceu, o único que me ensinou canções de Natal. O único avó que me falara de outros tempos, que emigrara, que regressara. Mas minto-te se te disser que é nisso que penso quando aquele dia me pesa. Minto-te se te disser que pensei nele todos os dias da minha vida. Porque não pensei. Mas pensei todos os dias no meu pai. Na voz carregada de um remorso estranho de quem fez na vida tudo o que havia para fazer e fê-lo bem.
Todos os dias penso em como foi importante que as pessoas, por um dia, soubessem quem eu era e me dessem os sentimentos. O artificio dos gestos que são afinal importantes. Demasiadamente importantes. Tal como a precariedade da vida.
O mais importante foi sem duvida o manifesto de amizade que alguém trouxe. A manifestada presença de tantas pessoas, que não serviam afinal para conversas de café apenas. E que estavam ali, porque sentiam a obrigação de ali estar, não para enterrar os mortos, mas para abraçar os vivos.
Naquele dia eu teria carregado de bom grado a tristeza do meu pai. Eu teria dado tudo para o aliviar. Há pessoas que nós julgámos a vida toda que não choravam, mas que naquele dia choraram. E nós choramos com eles.
Hoje, onde quer que ele esteja, sei que o avô é senhor da Verdade que todos procuramos. Hoje, com pelo menos um ano de avanço sobre nós, ele saberá se estamos certos ou errados quando amamos desta forma, quando aclamamos Deus um Homem pregado numa Cruz, quando recordamos todos os anos os nossos mortos.
Porque eu acredito nesse Homem pregado numa cruz. E na precariedade da vida também. E nas segundas, terceiras e múltiplas oportunidades que a vida trás e reinventa.





