16/04/2007

Viva Forever

.
Do you still remember how we used to be,
Feeling together, believe in whatever my love has said to me
Both of us were dreamers, Young love in the sun,
Felt like my Saviour, my spirit I gave you, We'd only just begun


Às vezes apetece-me apagar a parte da minha vida que já não interessa. Rasgar as fotografias, livrar-me dos manuscritos antigos, queimar as folhas soltas de poemas e de diários. Às vezes apetece-me fixar essa certeza de que não me vou arrepender de põr um ponto final e um traço por cima em tudo aquilo que já re-experimentei vezes sem conta. Apetece-me ter essa determinação, essa coragem, esse agir livre da ameaça de um remorso. Porém, mais que o tudo ou nada que é apagar esses biblôs de memória da minha vida, a questão está em porquê querer faze-lo: porque não prolongar indefinidamente as recordações anexadas em papel? Porque não deixar que as lembranças de papel e de arquivos de Word se acumulem? Porquê apagar, porquê ignorar? Porquê sequer acreditar que, sem esses enfeites de como a vida foi um dia, me hei-de acabar por esquecer?
Na volta, talvez eu não procure uma fase nova sem nada que documente o que fui e como os dias foram outrora. Talvez eu procure precisamente o momento de viragem. O momento em que eu acendo o isqueiro e vejo os rostos, os instantes, o simbolismo do que se foi e já não se é, a derreter, a esfumar-se, a reduzir-se a pó. Talvez o que eu procure seja a intensidade das lágrimas que se emocionam ainda com o crescimento e com a mudança latentes em nós.

14/04/2007




Tenho muito medo de dizer o que sinto. E esta pode ter sido a frase mais simples que escrevi nos últimos meses e, contudo, a mais honesta. Não digo que tenho medo às vezes, porque são demasiadamente mais as vezes em que me inibo de dizer o que penso, do que as que digo e não me arrependo. E ainda agora fiz isso. Não falei porque não esperam que fale. Por aí, algures num blog amigo, li uma confissão que me tocou preferencialmente. Encheu-me os olhos de lágrimas. Apeteceu-me poder atravessar a rua e, na esquina de todos os dias, abraçar o autor dessa magia imensa que tanto me impressiona, mas que não esperam que partilhe.

We might as well be strangers. Não sei bem se somos estranhos, se amigos, se vizinhos num mundo de palavras. Não sei se ficaria estranho se eu me aproximasse para lhe dar testemunho das múltiplas formas de um só Amor que eu conheço, se não acreditaria em mim. Só sei que a voz que calo, fala numa perspectiva que ele acha que não devia ser a minha. Só sei que muitas vezes a vontade e o entendimento não se encaixam na identidade que trazemos connosco. Só sei que não tenho idade para que acreditem em mim.
E por isso mesmo, tenho medo, muito medo, de dizer o que sinto. E o que penso involuntariamente também. Porque não esperam que o faça. Ouviriam o que tenho a dizer com dois ouvidos mornos e adormecidos, como quem não reconhece quem diz e que, portanto, presume que nada há para ser ouvido.
E talvez tenham razão. Mas não é isso que eu sinto. Quero falar porque acho que tenho alguma coisa para dizer. E algumas lágrimas para chorar nos ombros certos, mas isso agora não interessa. Quero falar porque não cresci em vão e porque já saltei obstáculos quase tão altos como estes. Quero falar porque os abraços não dizem tudo e nem esses achas justo que partilhe. Não quero ser igual aos outros. Não quero que achem que o sou. Não quero que banalizem, nem que desdenhem das verdades tão prudentes e absolutas que eu digo e sei.
E hoje reparo que, como eu, somos muitos a pedir exclusividade. Hoje eu reparo e sei que, na voz de uma comunidade inteira, somos estranhos a deixar de o ser e a descobrir que, além quilómetros, outra vida pensa igual, sente igual e, se não é igual, é um pormenor de contexto desimportante que não nos afasta nem aproxima, mas apaixona. Todos os dias. E por isso, eu sei que não cresci em vão e que não quero perder isto em que acredito. Não sou, afinal, só mais uma.

13/04/2007

Palavras. Partidas e Chegadas


Tudo nos sabe a última vez. Voltei mas pareço partir. Como se só então sentisse a dimensão que tem dizer-te que fico e tu vais, como se só então partilhasse do medo de que eu vou e não volto, de que tu ficas e não darás pela minha falta. Como se só então pudesse suspeitar da identidade que mostrámos um ao outro, como se só então pudesse amar essa imensidão de coisas que ficaram por fazer e dessas outras tantas que ficarão por dizer quando um de nós se for embora. Nessa altura eu vou saber que não haverá passo atrás que possa ser dado. Os beijos acontecerão por descuido e os afectos, demasiadamente adiados, vão ser histórias por acontecer.
Não sei de que forma escutas a minha voz, se ainda a escutas. Sabes que podíamos muito bem ser dois estranhos a cruzarem-se todos os dias em passeios contrários e que então não terias dado por mim, nem eu por nós. Na volta, tem dias em que somos realmente dois estranhos a lutar contra uma corrente de controvérsia, tentando em vão acreditar que, depois do fim, seremos eternos amantes a discutir ao sol sobre a génese do mundo e sobre o que está ainda por vir. O texto vai longo e até hoje não coubeste em mim, quanto mais em tantas dúzias de palavras… além do mais, já dizia o cantor:

Words, they cannot love, Don't waste them like that, Cus they'll bruise you more

08/04/2007

Regressada



Alcains é uma terra de reencontros. Cada vez menos, mas ainda o é. E menos é afinal tudo o que este lugar ainda encerra. Pelo menos para mim. Para mim que já não procuro a ombreira desta porta pela madrugada; que já não me sento neste degrau, de cabelo molhado, a contar as pedras dos caminhos que já não percorro. Para mim que não adormeço mais à espera das estrelas cadentes que nunca vieram, nem dos desejos que nunca pedi, nem das promessas de vida que nunca fui capaz de fazer.
Alcains é ainda uma terra de reencontros, mas não para mim. Porque, sempre que volto, ainda que me cruze com os mesmo olhares, ainda que descubra as mesmas vidas estacionárias, nada me sabe a reencontro, tudo me sabe a rotina. Tudo me é estranho e ainda assim, mais que visto. Tudo perde magia, tudo ganha distância.
E Alcains… Alcains guarda as minhas origens, nada mais. Tal uma terra perdida do mundo que parece minguar sobre si e afundar pouco a pouco os segredos das famílias e o passado inacabado de todos os seus ancestrais. Alcains está sempre no sítio em que a deixo, prometendo voltar, e que revivo apenas quando te quero mostrar este bocado de mim que às vezes ainda precisa de respirar este lugar. Alcains morrerá um dia e das suas histórias sobrarão as fotografias cinzentas, os afectos adiados pelos quilómetros, os esqueletos de tantos armários por abrir. Alcains resumir-se-á talvez às canções de Natal que cantavam para nós, à imagem silenciosa dos avós, ao nosso corpo tão oco e indisposto, a chorar porque sim. Alcains será apenas, com o passar das gerações, um ponto esquecido no mapa, uma placa desviada que nos dá as direcções quando, na estrada, o nosso destino for outro. Alcains, um dia, não será mais que Alcains: o nome de outros tempos e de outras idades. E sorrir-me-á eternamente como o sorriso que eu hoje deixo aqui às pedras dos caminhos e às gentes vestidas de negro, que franzirão eternamente o sobrolho ao ver-me chegar.


.

02/04/2007

" Holding Back The Years"... again


Um dia eu escrevi assim:


Espero que entendas. Às vezes procuro dizer-te estas coisas ao teu lado, mas nunca pareces querer escutar. E eu venho, então, escrever na tua ausência e contar-te tudo isto que eu queria ter chorado contigo. Tudo isto que me faz falta, que eu não posso mudar, que eu não posso sequer entender ou omitir.
Escrevo-te de uma viagem que faço entre as facções de duas vidas. Entre o rasgar rápido da paisagem, do tempo que se conta sem que tenha já importância, sem que tenha já um papel nesta estrada.Traço uma linha entre o passado dos que vim outrora aqui enterrar e este futuro que persigo além colinas. Porque – tu sabes – foi aqui que o avô morreu. Porque –sabes também – nenhum de nós teve tempo para esperar que a mágoa acabasse. Porque precisei de mais noites para entender a relação que tenho com este lugar, mas um outro universo de exigências levou-me para longe dele, e do avô, e das madrugadas ainda escuras de Agosto e do tudo que este lugar ainda significa.
E é cada vez mais difícil explicar o que me move com tanta franqueza a este lugar, sabes? Tenho medo que sejam já só crenças. Que sejam já só os gestos adornados de tudo aquilo que é suposto sentir, que sejam já só obrigações morais, um gosto vaidoso em exibir virtude e sacrifício, mas nunca amor. Tenho medo que se esgotem as lágrimas, que fique apenas a vontade estúpida de que outros saibam da saudade que também eu sinto por ele; que os outros reparem que as frias camadas de aparência são frágeis, tão simples de partir, tão fáceis de penetrar e amarfanhar; que os outros sofram mais, que os outros o tenham mais perto de si, que os outros o tenham amado mais e merecido mais. Tenho medo que este lugar adormeça um dia esquecido do meu avô, que o pó da estrada seja um dia alcatrão, a paisagem uma miragem e o tempo uma coisa importante.



A este lugar que se chama Alcains

30/03/2007

Suponho que sempre que não podemos dizer, com simplicidade, "abraça-me e não me perguntes porquê", há uma parte de nós que se esgueira para a despensa dos sonhos


Eu não sei o que me dói mais. Se este estado já tão missionário de felicidade estanque, se esta tua semi-ausência na minha vida, se este teu coração a querer ser o lugar quente que eu procuro julgando reconhece-lo como reconhecia a espécie de amor-cão que ele tinha para me dar.
Como se ele tivesse coisa alguma para ser dada… Ainda que às vezes eu goste de acreditar nisso, quando é de um corpo que eu sinto falta e não da tua voz. Tão simples quanto isso. Ele era o comprimento de uma saia que caía ao chão num instante. E ao cair, éramos dois a misturarmo-nos na mentira de entreter os dias pelos motivos errados. Depois vinha sempre o silêncio, um vazio em profundidade a prender-me à cama, a pele a arrefecer novamente, a alma a questionar-se, o corpo a não reconhecer mais as vontades que o moviam. E depois… num gesto de insensibilidade, ele olhava-me e tirava-me o cabelo dos olhos. Talvez procurasse ver-me a chorar por dentro, como quem agradece e lamenta simultaneamente. E ao olhar-me, sugava-me com os lábios a textura limpa das pálpebras que só viam o que o coração sentia. Como se o coração pudesse alguma vez sentir coisa alguma…
Enfim… sobra sempre qualquer coisa para que remoamos na ausência dos que vêm nas primeiras linhas da nossa lista de afectos. É psicológico, não emocional. E um dia ainda hei-de provar que será químico e matemático também. Por agora… não sei onde dói mais. Talvez no facto de não haver mais espaços para que eu te conte tudo, absolutamente tudo, de que me arrependo. E a vida não nos devia ter dado tempo para estas coisas…

Hoje sinto a falta dele. Não a tua.

Antigamente queria ser tal e qual esses poetas de café que cheiram a mofo e consta que têm as almas mais bonitas do universo. Sim... eu queria ser assim porque acreditava profundamente na felicidade despercebida que eles não precisavam, resumindo-se e, no entanto, insuflando-se, na violência com que o mundo os recebia e com que eles recebiam o mundo: o mundo que era afinal de mulheres bonitas, de lugares ideais onde a diferença faz parte dos dias, de horários trocados, de roupas largas em corpos magros e tristes... de cigarros, de lágrimas, de frio, de noite, de cinzento. De luas cheias.
E eu queria ser assim... queria-me definir segundo esses contornos, apagados mas tão nítidos, tristes mas tão extraordinariamente complicados de se concretizarem genuinamente.
Depois percebi que não faria sentido tornar-me um escritor de vão de escada, um intelectual escondido por detrás das cortinas de um azar qualquer que apenas eu não compreendia. E eu tinha, então, idade para ser apenas uma idealista.
Depois cresci... e hoje sei que o que sentimos ao crescer não somos nós a mudar, mas o mundo a olhar para nós de uma outra forma. A esperar que actuemos na presença e em virtude de si próprio conforme os moldes que o nosso corpo e a nossa idade ditem que devamos agir. E eu não sei até que ponto me apetece que assim seja. Não sei até que ponto quero que o mundo surja para me pedir que de, um momento para o outro, eu não tenha mais quem vele por mim e seja eu a velar pelos outros. Não sei até que ponto sou capaz do frio de não ter por sistema um abraço que me protege e me garante um abrigo sempre que algo corre mal.
Por isso... eu hoje não quero ser mais um poeta de café, mas uma daquelas alma enormes que suportam tudo e perseguem tudo com um sorriso tolerante nos lábios e um olhar prevenido no rosto. Quero a alegria imediata, quando sabe a recompensa. Quero o suor e os calos nas mãos, as adversidade, os azares e no fim a certeza de que sou capaz de superar tudo isso conforme os ideais cristãos da minha infância. Quero o sabor da bonança, daquela paz infinita que nos trespassa de lés a lés, quando pelo meio vieram tantas tempestades que me atiraram ao chão e me obrigaram a reinventar-me para me puder levantar novamente.
Quero tudo isso sem me perder. Sem me perder a mim, nem aos meus poetas de café.

23/03/2007




Agora a sério... Se perguntarem por mim, digam que voei... E que dias tão ventosos como este se repitam nas nossas vidas as vezes que foram precisas para que dormamos mais vezes insuflados com as esperanças adiadas e os sonhos ainda presentes...
.
.
.
.
Até já

15/03/2007



Aquela ali deitada a fixar o nada, sou eu. Não tem as minhas feições, não o meu cabelo, não as minhas cores, mas tem a ideia. A definição do que sou quando tudo falha e, de repente, não éramos tão pouco há já muito tempo. Aquela sou eu, digas lá tu o que disseres. Sou eu, apesar de eu ter relevo e ela não. Sou eu mesmo que tu digas que não. Eu, independentemente da presença dela ser outra, mais leve e definida, mais breve. Eu mesmo que o Nada que fixo seja outro, mais concreto e limitado, a tender para os rostos e para as formas, a fugir do vazio que o Nada sugere. E esse nada… todos os dias a comprometer-me com a desistência, a saber que daqui em diante tudo dependerá de mim e eu desse tudo que condiciono sempre que fico estática a ver as coisas acontecerem sem as poder inverter. E serei, como sou hoje, o cansaço personificado de quem vive de antemão as derrotas e imagina que o destino lhe fará xeque-mate a cada intenção. Serei, quem sabe, uma chave sem fechadura. Um prolongamento de demasiadas vidas a crescer sem suporte, sem um chão que não ameace ruir a qualquer instante, com um medo tão imenso e triste que não me move nem me recua, mas me mantém.
E eu… eu serei, com sou hoje, aquela ali deitada a fixar o nada. E, tal e qual como acontece hoje aqui nesta perspectiva, o futuro dará as reviravoltas que quiser, dar sem me comprometer ou alterar. Continuarei a valer o que as minhas vozes interiores ditarem que valha, sem as poder inverter. Continuarei presa à avaliação constante a que me prostro, de valor numerado e equacionado, dependendo da força das circunstâncias e da vontade de mais(como se a vontade pudesse alguma coisa!). Lamento, mas hoje tudo falha e eu sou aquela ali a fixar o nada. O Nada como me sinto. O Nada a desenhar-me as formas simples de se ser feliz, tão complicadas de alcançar e impossíveis de entender.
Lamento mas hoje tudo ameaça ruir. E amanhã vou precisar que me abraces e jures que isso para ti não faz diferença: que para ti Tudo ou Nada é-te igual, que para ti sou suficiente sendo este Nada suspenso no horizonte que ela fixa e que eu fixo também. Lamento mas nem de lágrimas se constrói um Nada tão oco como o que me tornei ainda agora. E depois… depois espero que me imagines com os contornos dela e acredites que aquelas são as minha feições, o meu cabelo, as minhas cores. Não preciso que te preocupes com a ideia. A definição do que sou amanhã será provavelmente outra, ainda que, em rigor, eu serei a mesma e continuarei a precisar desse teu abraço que hoje tenho como certo.

14/03/2007


Pode faltar tudo. Faltar tempo, faltar espaço, faltar ideias claras e óbvias a seguir os gestos que fazemos. Pode faltar-nos o chão, pode não haver chuva que seja suficiente, nem sol que nos contente. Pode não haver lugar para nós, pode não existir certeza sobre coisa nenhuma, pode-se tudo de repente resumir a dogmas e hipóteses, esgares de pensamento a dançar sobre a falta de tudo, caindo aos poucos na convicção de nada, na firmeza de coisa nenhuma.
Pode faltar-me tudo. Porque o Tudo que restar ser-me-á suficiente. Porque existem Tudos que compreendem o tudo e o nada e Esses não me vão faltar. Mesmo que da existência deles eu não tenha certeza. Mesmo que tudo o que me restar seja um Nada, nada denso, nada certo, a fugir-se-me das mãos e a correr para o incerto que alguém me prometeu logo ali ao virar da esquina. Pode faltar-me tudo, que eu hei-de acreditar provavelmente que sobrará sempre alguma coisa a segurar-me aos dias, nem que seja um ideário, um sonho de contornos baços e consumidos, um universo limitado e abstracto a suportar o que sou e a permitir que ainda o Seja. Não importa. Pode faltar-me absolutamente tudo, que eu não vou acreditar que tal coisa seja, alguma vez, possível. E depois… que importância teria perder o que não se conquistou ainda? Que importância perder-me se não fui, alguma vez, encontrada inteira? Que importância perder-me ou encontrar-me se não acredito que tal seja possível?
E depois, que importância escrever sobre um tudo e um nada, de fronteira tão esbatida e imprecisa, onde já nada é razoável, mas latente de extremos, de posições demarcadas, de tolerância zero. Onde já não há nada que se perca, senão o tudo ou o nada, jamais um meio termo de uma parte de nós ou de um outro que deixamos cair enquanto nas lembranças ainda havia espaço para nós. Para nós dois.