
Um dia eu escrevi assim:
Espero que entendas. Às vezes procuro dizer-te estas coisas ao teu lado, mas nunca pareces querer escutar. E eu venho, então, escrever na tua ausência e contar-te tudo isto que eu queria ter chorado contigo. Tudo isto que me faz falta, que eu não posso mudar, que eu não posso sequer entender ou omitir.
Escrevo-te de uma viagem que faço entre as facções de duas vidas. Entre o rasgar rápido da paisagem, do tempo que se conta sem que tenha já importância, sem que tenha já um papel nesta estrada.Traço uma linha entre o passado dos que vim outrora aqui enterrar e este futuro que persigo além colinas. Porque – tu sabes – foi aqui que o avô morreu. Porque –sabes também – nenhum de nós teve tempo para esperar que a mágoa acabasse. Porque precisei de mais noites para entender a relação que tenho com este lugar, mas um outro universo de exigências levou-me para longe dele, e do avô, e das madrugadas ainda escuras de Agosto e do tudo que este lugar ainda significa.
E é cada vez mais difícil explicar o que me move com tanta franqueza a este lugar, sabes? Tenho medo que sejam já só crenças. Que sejam já só os gestos adornados de tudo aquilo que é suposto sentir, que sejam já só obrigações morais, um gosto vaidoso em exibir virtude e sacrifício, mas nunca amor. Tenho medo que se esgotem as lágrimas, que fique apenas a vontade estúpida de que outros saibam da saudade que também eu sinto por ele; que os outros reparem que as frias camadas de aparência são frágeis, tão simples de partir, tão fáceis de penetrar e amarfanhar; que os outros sofram mais, que os outros o tenham mais perto de si, que os outros o tenham amado mais e merecido mais. Tenho medo que este lugar adormeça um dia esquecido do meu avô, que o pó da estrada seja um dia alcatrão, a paisagem uma miragem e o tempo uma coisa importante.
A este lugar que se chama Alcains








