
Hoje dediquei-me a pensar quem fui – e que hoje sou ainda, dissimulada numa existência que é espelho de todas as outras existências que tive. Como um acumular de tanta coisa, que tão dificilmente se expulsa de nós depois de experimentada. Porque, na volta, a vida é capaz de ser isso mesmo. Experiências. Existências, para ser mais correcta. E as minhas existências foram em regra pacificas e ocasionalmente violentas. E o que sou hoje só pode ser o resumir disso tudo. O resumir da reacção tão inata à necessidade de mentir e de fugir da realidade vigente. O resumir das primeiras experiências de tristeza, de uma tristeza profunda e abissal, com um fundo tão negro e frio que nos faz cair em nós próprios como se de um buraco negro nos tratássemos. O resumir da timidez, da intimidação que os nossos próprios olhos críticos conseguiam de nós, da certeza da singularidade insignificante que éramos perante um mundo a cada dia maior.
E esse buraco negro… bem, esse buraco negro sugava-nos para dentro. Fazia-nos descobrir as alternativas que não eram felizes, nem tão pouco infelizes, e que nos sabiam a resignação. Só que nessa altura nós não sabíamos o que era a resignação. Só nos queríamos defender do mundo a cada dia maior. E das tristezas, e das insónias, e das discussões no quarto ao lado, e do espelho. Só queríamos crescer para sermos maiores que tudo isso que nos fazia pequenos. Só queríamos ter as formas, o sorriso, uma voz de gente grande. Só queríamos ser estrelas e não mais esse buraco negro, gelado de tanta falta e de tanto excesso.
Hoje dediquei-me a pensar quem fui. E descobri inadvertidamente que sou ainda um buraco negro, pouco ou nada minguado, sempre gelado, sempre só, como se nada tivesse alguma vez mudado.
E esse buraco negro… bem, esse buraco negro sugava-nos para dentro. Fazia-nos descobrir as alternativas que não eram felizes, nem tão pouco infelizes, e que nos sabiam a resignação. Só que nessa altura nós não sabíamos o que era a resignação. Só nos queríamos defender do mundo a cada dia maior. E das tristezas, e das insónias, e das discussões no quarto ao lado, e do espelho. Só queríamos crescer para sermos maiores que tudo isso que nos fazia pequenos. Só queríamos ter as formas, o sorriso, uma voz de gente grande. Só queríamos ser estrelas e não mais esse buraco negro, gelado de tanta falta e de tanto excesso.
Hoje dediquei-me a pensar quem fui. E descobri inadvertidamente que sou ainda um buraco negro, pouco ou nada minguado, sempre gelado, sempre só, como se nada tivesse alguma vez mudado.








