07/02/2007


Preciso ser reinventada.
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Mesmo que a vida mude os nossos sentidos, e o mundo nos leve pra longe de nós, e que um dia o tempo pareça perdido e tudo se desfaça num gesto só.

06/02/2007

"Hunter"

por Tina Spratt

Filamentos de luz que trespassam a universalidade dos preconceitos.
Os homens serão sempre homens e, contra à natureza do que são, podem apenas fingir. As mulheres, por seu lado... as mulheres serão sempre mulheres, mas antes de o serem foram já raparigas, foram apenas meninas. Enganos de alma à mercê
do romantismo que julgam não ter, lugares mornos vocacionados para acreditar que se sabem cuidar sozinhas.
Melhor sozinhas, de facto. Melhor sozinhas que na espera de um pedido de desculpas pelas razões que nem elas próprias conseguem verbalizar. Acho que sofrem com a mágoa de quererem cobrar o tempo gasto na enfermidade das relações, acho que choram por se sentirem tão estúpidas, e tão usadas, e tão destinadas àquela estaca zero: àquele estado indefinido onde se sentam como numa paragem de autocarro, onde voltam todos os dias para de novo esperarem, e esperarem, e esperarem.
Acho que sofrem porque não têm coragem para odiar os homens que as deixam todos os dias à espera. E direccionam esse ódio para si, para o seu estado indefinido, quer no tempo quer no espaço, para esse seu modo de encarar o dia e levar consigo as olheiras de um desfecho anunciado.
Acho que as mulheres desejam de forma diferente dos homens. Mesmo que por irreverência julguem que não. E depois desequilibram essa balança sempre contrabalançada entre o coração e a cabeça. Ou melhor dizendo, entre o coração e o corpo. E de repente, a enfermidade das relações torna-se um susto constante. Um susto como a forma mais simples de garantir que esse fim, por que tanto esperaram, venha, discreto e tranquilo, saturar-lhes a alma com o vagar das desilusões que não toleram mais o sabor da esperança.

Desculpa novamente se falo de coisas que não queres nem precisas de ouvir. Quis apenas desanuviar um bocado. Explicar-te por meio de uma história, que não a minha, quanto me dói a inocência, a ignorância talvez, a perplexidade com que reajo ainda às coisas. Será que alguma vez paramos de crescer? Não, claro que não. Nem preciso que respondas. Mas se calhar mais valia a pena resguarmo-nos do mundo, entregar-nos a essa ataraxia absurda em que, por nada esperarmos do mundo, por nada ele nos pode magoar. E por nada esperarmos do mundo, por nada esperariam também todas as demais mulheres. Todas essas mulheres e meninas, resignadas numa qualquer paragem de autocarro, ainda à espera do bocadinho de esperança que esperam ainda poder ser...

04/02/2007

Grapes and lemon, by Alexei Antonov


Não conseguira coisa alguma, uma vez que fosse na vida. A não ser, claro está, essa certeza de não o amar a ele e de ele não a amar a ela. Porém, soubera um dia que Deus criara o Amor e o Vício como duas faces de uma mesma moeda, e que nela, o que sobrava agora, era esse Vício, esse vício feito do hábito de se deixar levar pela fome de um mundo demasiado atento à sua inocência, pronto para lha substituir por uma outra forma de estar.
Sim... porque para ela a inocência era uma forma de estar. Ou teria sido até há pouco mais de um mês atrás. Nessa altura, escolheu esquecer-se dos avisos, dos tropeções que já dera à custa do mesmo motivo. E embarcou nos braços de uma paixão extinta, namorou sem compromisso, apostou-se numa vida paralela sem continuidade possivel e, principalmente, sem forma alguma de se acharem as palavras certas para se justificar a vontade de um fim.
Na volta, ela entendeu que vivia assim o vício do calor humano, nos braços errados. Nos braços que tinham um perfume que não era o seu. Nos lábios que tinham um gosto que não era o dela. Mas era afinal um vício. O entretém das horas vagas, que eram cada vez menos e cada vez mais rápidas.
E o que custa, explica-me ela, é querer por força que o destino decida por si, que a vida lhe diga, de uma vez por todas, se deseja assim esse amor bandido e acomodado, se prefere a humanidade latente na voz da razão e disso tudo tão maior que o próprio vício e que ela própria.
Na volta, acho que ela entende que os “eles” e “elas” que lhe rasuram o destino, em nada o mudam. O que a assusta não é afinal a sua indefiniçao no enredo em que está perdida, mas essa tão imensa pequenez em se reconhece como se olhasse e visse as coisas na perspectiva de uma criança de cinco anos, prestes a descobrir-se sozinha, com uma mão cheia de nada e outra sem coisa nenhuma, a não ser, claro está, dessa própria pequenez de que é feita e da responsabilidade de ter querido crescer.
Ela não sabe, enfim, se é medo, desconfiança ou preguiça. E eu digo-lhe apenas que no seu lugar também não saberia. Afinal, nestas coisas do coração, não podem existir verdades absolutas. Estamos por nossa conta e risco. Ela ri-se. Foi nisso que pensou quando optou amar aqueles braços que no fundo não amava, mas que lhe faziam tanta falta.

De repente, parece-me que sei do que fala. Talvez daquele abraço aquecido feito à medida das nossas almas geladas. Sim, é isso... A banha da cobra, dirias tu. E eu concordaria, claro está. Porque afinal de contas, ela e eu vendemos a esperança que ainda éramos e só um mês depois percebemos que nos haviam roubado esse tudo que tínhamos sido e que havíamos prometido ser um dia outra vez.

27/01/2007

[young girl in blanket]

Tenho pena que sejamos dois a volta de um mesmo dilema. Os corpos que se entregam, as almas que vão ficando para trás, os temas sempre mal discutidos, os afectos inadvertidamente mal estudados. As vidas, que por acaso até são nossas, todas elas em suspenso, como quem espera por uma espera sem final aparente, perseguindo a felicidade nas causas certas pelos motivos errados. Temos todos as mãos frias e doem-nos as costas: o pensamento fica cada vez mais pesado, e existe um vulcão de insatisfação dentro de nós dois a exigir que sejamos senhores das nossas vidas outra vez, tal como quando não tínhamos aparecido ainda aos olhos do mundo e éramos ninguém. Desculpa se te passei a frente e não te guardei lugar. Não penso em ti a cada instante. Penso nele. Porque sei que não posso olhar para ti como tendo a olhar, nem partilhar contigo o bocadinho de insuficiência que sou. Tal seria amar-te como eu nunca disse que te amava nem amo. Tal seria responder à incondicionalidade do que sinto, não importa quantos homens, nem quantas mulheres existam no mundo. Tu és especial. Bastante. Mas mesmo assim, tantas vezes não me chegas e eu procuro-te nos lugares onde te procurei tantas vezes antes de te achar. E encontro o calor que é dele, a mão quente e aberta que encaixa na minha alma gelada, como em tantas outras almas que lhe serviram como eu lhe sirvo agora.E só o lamento quando tudo em ti é afinal feito à medida do meu entendimento.



Imagem d Alexei Antonov

23/01/2007




"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.


Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!


Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou

Não sei para onde vou,


Sei que não vou por aí.





(Cântigo Negro, José Régio)

19/01/2007


No universo que recolho de ti em partes dispersas, do que foste e que hoje tornas a ser, no limiar do que os entretantos pediram que fosses. Tal o copo vazio que tantas vezes encheste para que eu acreditasse que a vida seria sempre assim, doce como tu me fazias crer que era. E as pétalas ameaçaram cair; o frio ameaçou-nos com as investidas de solidão, o medo de cair paralisou o tempo, e o Tempo o intervalo entre o tempo de te sentir perto e o tempo de te prever finalmente distante.
Seria capaz de me sentar enfim num degrau de porta e esperar por ti eternamente. Porque hoje de repente consigo acreditar que voltarás para me buscar. Que um dia então me levantarás o rosto, varrer-me-ás as olheiras, segredar-me-ás ao ouvido o som das palavras que procuro ouvir sem ter que entende-las. Desenharás no pó do chão o reflexo de todas as coisas de que sorrimos, de todos os estranhos a quem seguimos os passos e a quem descobrimos os manifestos de solidão por opção. Serás o riso genuíno que descortinarei por engano numa qualquer gaveta da memória, talvez o teu, e se não o teu, talvez o meu: mas certamente um dos tantos risos que ouvimos e demos enquanto dispúnhamos de um copo cheio de tudo e de um corpo prestes a dar-se. E hoje talvez tenhamos dado já o corpo e entornado o nosso copo; talvez tenhamos bebido a meias, esvaziado a sede de tantas coisas maiores, esperado demais. E hoje ainda somos demasiado jovens para decidir coisa alguma, para achar que a vida se conformou com a conformidade dos nossos planos, para pensar sequer que a morte ou o medo nos pararão um dia. Como talvez já nos tenham abrandado. E eu não quero viver em câmara lenta, de alguma forma não me parece real, nem tão pouco viável - não quando nos sentimos capazes de tanto mais e ansiosos por prova-lo a alguém .

12/01/2007


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E hoje o dia foi mais que especial. Foi estranho. Como se as coisas não estivessem mesmo a acontecer. Pelo menos é o que tu dizes. E agora se vieres ler o que digo, saberás enfim que é para ti que escrevo. Mas já não importa. Pelo menos tu dizes que não. E é por te querer dizer as coisas sem que amanha nos lembremos delas que partilho contigo este dia, que não aconteceu para mim nem para nós, do qual não poderemos falar nunca, que viverá connosco para ser narrado em silêncio cada vez que tropeçar em ti, e nós dois num dia estranho como este.
Não posso dizer mais nada. Tu sabes tudo o que deves saber, e os outros… bem, os outros dar-me-ão um desconto por um post tão vazio – e ao mesmo tempo tão cheio de tudo.
Hoje o dia foi mais que especial. Muito mais. :)

07/01/2007

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Também eu gostava de ser mais que os cinco sentidos. Mais que o quinto elemento, que as formas complexas de fogo, água, ar ou terra. Mais que o eterno dogma sobre uma alma a flutuar entre a memória viva e o esmorecer dos teus dias, para lá dos meus sinais vitais. Eis aí o recuar dos passos, das vagas de frio que nos matam por fora, do calor que nos acolhe e que nos impele para o fogo de dentro. Eis o ciclo de um lugar que é sempre o imprevisto por que esperámos, o quoficiente de paz para o qual não fomos feitos, o rasurar rápido de uma semana, que é hoje o espaço mais que suficiente para sabermos se aceitamos ou não o nosso destino.
Como se eu acreditasse em destinos. Nem sequer na predisposição com que os dados são lançados, mas, ainda assim, delineando linhas que esperamos poder seguir conforme os sonhos. E esses… bem, esses serão sempre sonhos. O motor por excelência da inconformidade dos jovens e da decepção inteligente dos velhos.

03/01/2007

De tanto escrever, deixei de saber falar. Hoje se me pedissem para descrever e conversar de forma clara seria complicado. Perdi o norte algures neste excesso de metáforas e perguntas retóricas. E perdi-o porque não consigo por em frases simples o que realmente quero dizer.
Não que seja uma coisa cruel: nenhuma forma estúpida de maldade ou azar. Talvez o inverso: o ridículo de um sentimento, coisa que até custa escrever de tão piegas que soa!, o dramático de uma realidade que só o é na minha cabeça e que se arrasta pelos meses como se eu não tivesse, de todo, mais nada em que pensar.
No fundo, mesmo no fundo, devemos ter todos assuntos mal resolvidos connosco próprios. E daí as confusões mentais que nos tornam criaturas asfixiadas pelo amor a toda a hora, saturadas do regime devorador desta sociedade hedonista, sensíveis ao mais pequeno manifestar da indiferença do mundo.
Ou então será isto mais um disparate pavoroso onde não se conjugam ideias de senso-comum. Mas vou fingir que não me importo. Não que realmente não me importe, porque me importo. Mas o fingimento e a mentira são ainda uma porta alternativa quando falar verdade parece, por norma, errado.
Acho que custa explicar. Em voz alta ou mesmo por escrito. Talvez porque não sei bem o que quero realmente dizer e nem a tradução em frases simples conseguem tornar a coisa mais natural. Quando olho para mim, vejo apenas a necessidade de te ter perto. Porque quando estás perto, não te quero que te aproximes muito mais, mas que não te vás embora. Mas quando estás longe, como estás quase sempre, sinto-me tender para ele, para o espaço que não é mais o meu espaço, não é mais a minha vontade, nem o meu desejo, nem o meu ideal. Porque não é sequer de ti ou dele que eu gosto, mas algures um equilíbrio entre os dois, um meio-termo impossível de conseguir por fusão a quente ou a frio, sequer por complementação dos dois segundo o calendário, não porque ele não concordasse, mas porque tu não consentirias sequer tal hipótese.
E como deves ter já notado, escrevi e nem devo ter lido bem o que escrevi. Escrevi o que me apeteceu, e se o teu nome me escapou, não haverá mal nenhum nisso, nem afinal em coisa nenhuma, porque, no fundo, aqui ninguém sabe o teu nome, ninguém te conhece, nem sequer tu te podes conhecer se nunca te reviste num lugar assim. E, sabes, por mim escreveria a noite toda, e ficaria o resto da semana, e do mês, já dificilmente do ano que começa agora, a contar-te, e a quem inadvertidamente conseguir acompanhar o que escrevo, sobre coisas sobre as quais jamais algum dia me lembrei de pensar e que se uniram à vontade estranha de hoje te ligar por uma última vez e dizer-te, com todas as letras e vírgulas que a língua portuguesa deixar, que és especial mas parece que ninguém notou ainda, a não ser eu, e que rezo todos os dias que não notem, para que te mantenhas único e livre até que um dia eu desista de te escrever.
E na volta de tanto disparate com direito a tempo de antena, nem eu própria entendo porquê escrever-te se tu não lês, e até sabes onde me encontrar; se não ligas, se já tantas vezes o fizeste; se tu me vês e não entendes o que te digo com os gestos subentendidos na voz gelada e triste que adoptei para me fazer ouvir. Hoje ainda apetece-me chorar, e dizer ao mundo, ou não fosse esta mais uma forma de egocentrismo medíocre!, que me apetece chorar. Porque tu estás à distância de nove dígitos e cinco metros de chão e os meus gritos são sempre demasiado discretos para se fazerem sentir desse lado do muro que construíram por mim.
E eu queria ter escrito coisas simples…
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Beatriz

27/12/2006


Qual o melhor dia que uma véspera de Natal para fugir do mundo e encontrar-me a mim. Ou não andasse eu na procura das crenças por detrás dos hábitos, na procura sazonal de um lugar comum onde a razão e a fé tenham tempo para se escutarem mutuamente.
Estou no jardim do Paço, este que nunca te mostrei; onde se ouve e cheira a fantasia, o gosto e a humildade das aves, o rimar das fontes com a minha credulidade a despertar.
Estou sozinha e, apesar disso, este lugar podia aproximar-se a pormenor da perfeição. Dele não chegaria dizer que a natureza empedrada em canteiros celebra em liberdade esta quadra; que está sol, que o frio não magoa mais, que o vento não fere mais as falanges de quem escreve. Não chegaria de modo algum dizer somente que existem três crianças ali entre os baloiços e os escorregas a sorrir para mim, e para ti também. Não chegaria sequer dizer-te que cheira a tempo, a vagar, àquela paz que ansiamos repetidamente para recomeçarmos do zero.
Por mais que dissesse, sei que nada chegaria para te explicar porque gosto de estar aqui. Só sentindo, só experimentando. Só permitindo que o mundo se adie por algumas horas, só para poderes ter espaço de manobra entre quem és e quem vieste ser neste jardim. Até porque tu também procuras o intervalo ideal entre a tese que a razão sugere e o Amor que um Deus Menino um dia trouxe ao mundo. Porque tu também queres acreditar que é Natal e que o Natal assim se acolhe porque Ele nasceu, não para ser adorado, mas para ser repetido. Porque Ele nasceu para que entendêssemos que o Amor não se negocia nunca, que nasce homem e se torna divino cada vez que se repete em nós.É por isso que faz todo o sentido este jardim e este Natal. Ainda. Porque, não importa como nem quando, o Amor há-se ser sempre celebrado. Porque onde quer que tu estejas, eu penso em ti. E nele. E no Deus Menino também. E desejo que um dia, quem sabe se não numa véspera de Natal como esta, conheças este lugar. E saibas então como é ver as coisas como eu as vejo.





esrito a 23 de Dezembro de 2006