
Preciso ser reinventada.
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Mesmo que a vida mude os nossos sentidos, e o mundo nos leve pra longe de nós, e que um dia o tempo pareça perdido e tudo se desfaça num gesto só.
«E ele me conhece o suficiente para saber que eu poderia até receber um estranho, mas nunca abriria a porta para alguém que de fato quisesse entrar.» CHICO
por Tina Spratt
Grapes and lemon, by Alexei Antonov
Tenho pena que sejamos dois a volta de um mesmo dilema. Os corpos que se entregam, as almas que vão ficando para trás, os temas sempre mal discutidos, os afectos inadvertidamente mal estudados. As vidas, que por acaso até são nossas, todas elas em suspenso, como quem espera por uma espera sem final aparente, perseguindo a felicidade nas causas certas pelos motivos errados. Temos todos as mãos frias e doem-nos as costas: o pensamento fica cada vez mais pesado, e existe um vulcão de insatisfação dentro de nós dois a exigir que sejamos senhores das nossas vidas outra vez, tal como quando não tínhamos aparecido ainda aos olhos do mundo e éramos ninguém. Desculpa se te passei a frente e não te guardei lugar. Não penso em ti a cada instante. Penso nele. Porque sei que não posso olhar para ti como tendo a olhar, nem partilhar contigo o bocadinho de insuficiência que sou. Tal seria amar-te como eu nunca disse que te amava nem amo. Tal seria responder à incondicionalidade do que sinto, não importa quantos homens, nem quantas mulheres existam no mundo. Tu és especial. Bastante. Mas mesmo assim, tantas vezes não me chegas e eu procuro-te nos lugares onde te procurei tantas vezes antes de te achar. E encontro o calor que é dele, a mão quente e aberta que encaixa na minha alma gelada, como em tantas outras almas que lhe serviram como eu lhe sirvo agora.E só o lamento quando tudo em ti é afinal feito à medida do meu entendimento.


