Estão a discutir outra vez. Já faz parte. Tal como as olheiras que ela terá amanhã de manhã, enquanto me desejar Feliz Natal. Tal como o semblante que ele terá enquanto fingir que nada se passou. Tal como o choro miúdo da avó que diz que a culpa é sua e que se morresse todos nós ficaríamos melhor.
E eu… eu digo à avó que a culpa não é de ninguém. Que todos têm maus momentos. E que ela ainda há-de viver por muitos, muitos anos.
Digo, no fundo, o politicamente correcto. Porque eu sei que aquele não é afinal um mau momento, mas um entre tantos, com a diferença de todos os anos se suceder indiferente à quadra. E sei também que a avó não vai viver por muitos mais anos – porque ela não quer.
Porém, também sei que culpa alguma morre solteira, e esta culpa não é da avó mas minha. Sempre o foi. E ela lembra-me disso a cada discussão.
Recordo-me agora de ouvir dizer que os filhos de um divórcio se debatem com isso, com essa culpa. Mas terão, talvez, duas partes jurando sempre que a culpa não é deles. Que a culpa não é de ninguém. Provavelmente porque são pequenos demais para carregar pela vida fora um fardo assim, uma culpa tão imensa. Ainda para mais se for noite de Natal.
Eu, por outro lado, sei que sim. Que a culpa é minha e sempre o foi. Porque ela me o diz, porque ela faz com que eu acredite religiosamente nisso.
Este ano tenho novamente muitas prendas à minha espera. Dá para ver naquele saco acolá, logo ali à entrada. Não que eu ache que as mereça. Mas fui afinal a criança que nunca deu arrelias a ninguém. A filha que eles dois sempre quiseram. A filha que ela sempre quis. Ainda que culpada.
Cá fora, debaixo do pinheiro que o avô plantou quando eu nasci, sei que a discussão continua. Ela chora e diz que a culpa é sua. Ele exaspera-se e pede-lhe que não seja dramática. Os tons de voz alteram-se. E consigo agora escutar apenas palavras soltas. Mas não posso chorar.
De repente, ela veio cá fora. Não olha para mim, mas move-se como que reagindo à minha presença. As olheiras já lá estão; assim como as expressões vincadas no rosto, assim como o ódio e o descrédito delineando e envelhecendo-lhe o espírito. Veio fumar. Nunca, alguma vez, a tinha visto fumar. Nem sei onde arranjou tabaco àquela hora. E enquanto sopra o fumo nauseante do cigarro, continua a não a olhar para mim.
Acho que me diz que a vida dela estagnou por causa da minha. Que o mundo dela gira em torno do meu. E que a culpa disso tudo, e de tudo o que demais a mata aos poucos, é minha. Que a culpa é minha, e sempre foi.
Um vento frio insuflou-se entre nós duas, agorinha mesmo. É um frio cortante, sabe-me a solidão. E logo de seguida, o sino começou a tocar. E ainda toca. Sei, enfim, que Jesus nasceu numa noite como esta, Ele que devia nascer sob uma noite brilhante, de lua prateada e cheia, numa noite de alegria, união, paz e amor. Ao invés, é uma noite de solidão. Como afinal têm sido todas as noites de Natal desde há tanto tempo. Uma noite onde me sinto mais quente e em paz cá fora, na ombreira desta porta, escrevendo; pretendendo fazer crer a um destinatário ausente que a culpa não é minha. Mas esse destinatário nem do longe consente o perto. Nunca há-de cá estar para me convencer que a culpa não é minha.
Por isso, eu escrevo. Mesmo que sem resposta. E hoje, depois de dezassete anos, sei ainda que a culpa é minha. E que sempre o foi. Feliz Natal.
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Eis o meu conto de Natal. Adequado a um estado de espírito, puramente fictício.