16/11/2006

"Fog in the City"



Às vezes pareces ser suficiente. E condensar assim o destino de aguarela que pareci escolher. Vivo à sombra do nevoeiro, dirias tu, com os olhos encostados ao vidro embaciado dos táxis. E de repente, consigo encontrar-te num qualquer semáforo fechado, tal uma promessa de chuva em que os meus sonhos estagnaram. Como se isso fosse possível, dirias também. E roubar-me-ias aos poucos a razão de ser; o desassossego; a voz de uma escrita que não consegue ser sequer raiva, sequer medo. Uma voz palpitante que não chega a tanto, que emudeceu com um outro qualquer passado, com outro qualquer destino. E eu escolhi-te logo a ti, a ti que acreditas na transmutação dos universos paralelos, que não consentes em planos feitos de papel para uma existência, sempre, sempre em atraso. Logo a ti e, talvez quem sabe?, também àquele instante final antes dos semáforos abrirem, antes do recomeço lento da vida embrulhada em desordem e ideais de progresso. Mesmo antes do meu táxi chegar uma vez mais ao destino. E de o vento recomeçar uma nova e tristonha contagem sobre o direito a se sentir escutado.
E eu… eu escolhi-te logo a ti. E dizem que não me compete saber porquê.

13/11/2006



Saberei sempre quão longe consigo estar. Tal a roleta de uma vida que aponta o decurso aleatório dos dias da forma mais simples. Confio que perto, demasiado perto, existirão sempre respostas. E que no intervalo das horas, dessas horas inclusas no tempo da minha, da nossa história, existirão sempre novos prenúncios, sempre novas vontades.
E depois – tu sabes –, sobrevoou na medida dos dias, o destino que construí de uma hipótese. Faço dele a implacabilidade de uma certeza; e depois, no imediato que procede a vontade, sou afinal, aos teus olhos, apenas mais uma, confiante em tiros no escuro. Eu por cá, achar-me-ei sempre entregue de alma nos objectos de culto, nas forças magnéticas das paixões servis, nos espaços em que os poetas escondem os Verões e os formatos de amor que ficaram por revelar.
Pode ser que um dia acorde com o destino traçado. E que, então, as decisões se adiem indefinidamente, e que decorram sem consequências, sem pressa, sem rubor. Que fujam numa inútil procura de um ponto no tempo em que seja segredo o vem a seguir. Em que, de mão em mão, se sucedam memórias, mas nunca futuros.

12/11/2006

"Viva Forever"

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«Back where I belong now, was it just a dream,
Feelings unfold, they will never be sold, and the secret's safe with me.»

07/11/2006


Pressinto que a passividade dos dias mudou. O ritmo das horas, as viagens de comboio, a importância das gotas de chuva acumulando-se na consciência. Que tudo isso mudou. E a nostalgia. A nostalgia guardada para os momentos em que a mereço. O rancor, com quem tantas vezes me deitei, usado como se usam medalhas, como se ostentam conquistas, conquistas que tiveram afinal o fim sempre tão obvio, sempre tão perto.
Desculpa se falo sempre do mesmo. Desculpa se não sou como tu. Às vezes lembro-me que não falo para ti e ignoro que possas acreditar que sou apenas isto. Mas o que sobra por dizer, por mais que diga, é sempre tanto: às vezes ideia soltas, ideias soltas no espaço livre do pensamento; às vezes apenas folhas, e semblantes, e sensações: rasgadas à pressa ou por engano do toque morno das tuas mãos.
Às vezes um nada, que não consegue ser em palavras apenas nada. Às vezes o frio, e não apenas o frio, mas o frio que sinto para lá da pele, e, de pele em pele, um frio que persiste à passividade dos dias e aos encontros furtivos dos meus olhos com o vácuo. Às vezes só o ritmo da chuva: o calor, a quietude da protecção dos lençóis, acomodada longe de tudo, especialmente da noite. Às vezes, tanta coisa que não deves saber por mim. Que talvez já saibas. Que talvez tenhas sempre sabido.

06/11/2006

6 de Novembro, 2006


«Apesar de ser um ateu convicto, é arrebatado de surpresa por momentos de extraordinária exaltação. Fora de nós não existe nada a não ser estados de espírito, pensa ele; um desejo de consolo, de conforto, de qualquer coisa melhor do que esses débeis pigmeus, do que esses fracos, esses feios e cobardes seres humanos. Mas se conseguimos conceber tais figuras, então é porque elas existem, de certo modo, pensa ele; e avançando pelo trilho, como os olhos postos no céu e nas ramagens, logo lhes atribui uma forma feminina; observa o decoro e majestade que assumem, e como distribuem, agitadas pela brisa, num sombrio mover das folhas (…).
São essas as visões que ao viajante solitário oferecem grandes cornucópias de frutos, ou que lhes murmuram canções, como sereias cavalgando as verdes ondas (…)
Tais são as visões que flutuam, incessantes, ladeando as coisas, interpondo o seu rosto entre nós e o real; visões que amiúde dominam o viajante solitário, fazendo-o perder o sentido da terra, o desejo de voltar, e concedendo-lhe em troca uma paz absoluta; como se (pensa ele […]) toda aquela febre de viver fosse a própria simplicidade (…)»
Mrs. Dolloway, Verginia Woolf