Às vezes pareces ser suficiente. E condensar assim o destino de aguarela que pareci escolher. Vivo à sombra do nevoeiro, dirias tu, com os olhos encostados ao vidro embaciado dos táxis. E de repente, consigo encontrar-te num qualquer semáforo fechado, tal uma promessa de chuva em que os meus sonhos estagnaram. Como se isso fosse possível, dirias também. E roubar-me-ias aos poucos a razão de ser; o desassossego; a voz de uma escrita que não consegue ser sequer raiva, sequer medo. Uma voz palpitante que não chega a tanto, que emudeceu com um outro qualquer passado, com outro qualquer destino. E eu escolhi-te logo a ti, a ti que acreditas na transmutação dos universos paralelos, que não consentes em planos feitos de papel para uma existência, sempre, sempre em atraso. Logo a ti e, talvez quem sabe?, também àquele instante final antes dos semáforos abrirem, antes do recomeço lento da vida embrulhada em desordem e ideais de progresso. Mesmo antes do meu táxi chegar uma vez mais ao destino. E de o vento recomeçar uma nova e tristonha contagem sobre o direito a se sentir escutado.
E eu… eu escolhi-te logo a ti. E dizem que não me compete saber porquê.
E eu… eu escolhi-te logo a ti. E dizem que não me compete saber porquê.




