07/11/2006


Pressinto que a passividade dos dias mudou. O ritmo das horas, as viagens de comboio, a importância das gotas de chuva acumulando-se na consciência. Que tudo isso mudou. E a nostalgia. A nostalgia guardada para os momentos em que a mereço. O rancor, com quem tantas vezes me deitei, usado como se usam medalhas, como se ostentam conquistas, conquistas que tiveram afinal o fim sempre tão obvio, sempre tão perto.
Desculpa se falo sempre do mesmo. Desculpa se não sou como tu. Às vezes lembro-me que não falo para ti e ignoro que possas acreditar que sou apenas isto. Mas o que sobra por dizer, por mais que diga, é sempre tanto: às vezes ideia soltas, ideias soltas no espaço livre do pensamento; às vezes apenas folhas, e semblantes, e sensações: rasgadas à pressa ou por engano do toque morno das tuas mãos.
Às vezes um nada, que não consegue ser em palavras apenas nada. Às vezes o frio, e não apenas o frio, mas o frio que sinto para lá da pele, e, de pele em pele, um frio que persiste à passividade dos dias e aos encontros furtivos dos meus olhos com o vácuo. Às vezes só o ritmo da chuva: o calor, a quietude da protecção dos lençóis, acomodada longe de tudo, especialmente da noite. Às vezes, tanta coisa que não deves saber por mim. Que talvez já saibas. Que talvez tenhas sempre sabido.

06/11/2006

6 de Novembro, 2006


«Apesar de ser um ateu convicto, é arrebatado de surpresa por momentos de extraordinária exaltação. Fora de nós não existe nada a não ser estados de espírito, pensa ele; um desejo de consolo, de conforto, de qualquer coisa melhor do que esses débeis pigmeus, do que esses fracos, esses feios e cobardes seres humanos. Mas se conseguimos conceber tais figuras, então é porque elas existem, de certo modo, pensa ele; e avançando pelo trilho, como os olhos postos no céu e nas ramagens, logo lhes atribui uma forma feminina; observa o decoro e majestade que assumem, e como distribuem, agitadas pela brisa, num sombrio mover das folhas (…).
São essas as visões que ao viajante solitário oferecem grandes cornucópias de frutos, ou que lhes murmuram canções, como sereias cavalgando as verdes ondas (…)
Tais são as visões que flutuam, incessantes, ladeando as coisas, interpondo o seu rosto entre nós e o real; visões que amiúde dominam o viajante solitário, fazendo-o perder o sentido da terra, o desejo de voltar, e concedendo-lhe em troca uma paz absoluta; como se (pensa ele […]) toda aquela febre de viver fosse a própria simplicidade (…)»
Mrs. Dolloway, Verginia Woolf