04/03/2007



Já lá vão duas semanas desde que a minha vida mudou. Não que ela não mude todos os dias, mas prefiro não ir por aí porque o conceito mudança é demasiado abstracto para que te fale dele hoje. E ia eu dizendo que já lá vão duas semanas desde que a minha vida mudou. E melhor diria se dissesse que não, não mudou, voltou apenas ao normal. E deve ser essa noção tão reflectida do que é afinal a normalidade na minha vida e na vida abstractamente falando, que me incomoda. Que me mói a consciência até deixar calos, que me trespassa nos momentos vazios em que me sento, enfim, frente ao computador e puxo o teclado para o colo. Quero escrever-te sobre uma infinidade de ideias que me ocorreram durante o dia de hoje. Idealizei até mesmo as frases, na minha cabeça soavam lindamente. Mas agora não sei nem do que falavam essas frases, nem sei repetir mentalmente verso algum que me permita discorrer sobre seja o que for.
Deve ser deste sabor a vazio. Como se o vazio tivesse sabor... Deve ser então desta tão absurda ausência de tudo, até mesmo de sabor. Sim, deve ser isso... A ausência. Paralisou-me sempre. Principalmente quando tinha a certeza que depois de escrever ia passar aquele peso estranho que me fazia vergar os ombros e enrugar a testa. Mas simplesmente não conseguia escrever, como não consigo agora. Existem demasiadas ideias e emoções por racionalizar que não consigo alinhavar sem parecer que o faço por um bruto narcisismo hipócrita e mesquinho. Existem demasiadas variações nas vontades: ora a cimentação do que julgo ser, ora a mudança dos padrões de comportamento que tive sempre. Existem também a constante associação de imagens e de lugares a pessoas a quem pus, de alguma forma, os patins, só para não lidar mais com a inconstância que me propunham e que hoje me faz tanta falta. Lamento as decisões que tomei, temo pelas que hei-de tomar. Não por este tipo de sentimentalismo reles, mas pela enormidade de coisas a que a Vida se tem prometido e que eu não conheço ainda. Por outras palavras, tenho medo de não estar à altura. De um dia dar por mim frente aos verdadeiros e reais desafios e sentir que não sou dotada o suficiente para conseguir ultrapassa-los com a nobreza que idealizo. Tenho medo que perante as situações, descubra que os valores que sempre apregoei não me servem mais, e então me refugie no facilitismo, no parasitismo, em goles consecutivos de uma droga de vida, sempre embriagada com a falta de vontade própria.
Já lá vão duas semanas desde que a minha vida mudou. Desde que a vida voltou a esse conceito tão estupidamente neutro chamado normalidade, que não enche nem esvazia ego algum, que não começa nem encerra história nenhuma. E, portanto, tudo o mais é paisagem. Um existência pacífica e ocasionalmente violenta, a ver passar navios, sem pressa alguma, com a calma e o desinteresse de quem vê acontecer as mesmas coisas de sempre.

5 comentários:

Pedro Pinto disse...

Texto lindissimo...
Espero que fiques bem...
*

( Desculpa não conseguir comentar nada de jeito...)

Clarissa disse...

Querida Beatriz... que bem me soube o abraço que deixaste :)
Fico sempre feliz quando vejo que tenho um comentário teu, pois tenho a certeza que leste de facto, que aquilo que escrevo não serve só para encher mais um post, que desse lado há alguém que percebe o que se passa deste lado. Questiono-me cada vez mais sobre se valerá a pena gastar tempo com Blogs... por vezes desanimo mas depois a necessidade de escrever sobrepõe-se. Sinto, como tu, que há tanto para escrever e tão importante que quase é parvoice perder tempo com as coisas que escrevo; mas continuo porque d alguma estranha forma me faz bem, mesmo quando a escrita é mais um peso que libertação.
E depois chego aqui e leio isto:
« a pessoas a quem pus, de alguma forma, os patins, só para não lidar mais com a inconstância que me propunham e que hoje me faz tanta falta»...
e sinto algum conforto pela partilha de emoções, ideias, sensações...
Conheço esse medo de que falas, eu também o senti sempre, e cheguei à conclusão de que é um bom aliado, permite-me uma certa vigilância sobre mim própria.

Tenho que te repetir... és uma jovem admirável, sensível e com uma delicadeza na escrita que me toca e emociona.
Um beijo enorme

Aesis disse...

Não mudou assim tanto.
Sabes que mais... olhar o futuro não é obrigatóriamente sinal de longevidade.
Ninguém vê tão ao longe que o possa tornar intolerante (mesmo que para consigo mesmo).

Eu digo coisas estranhas, não é? O que seria suposto esperar de alguém que não existe, senão murmurios inesperados?!

alice disse...

bom dia, beatriz. quis o destino que o teu nome fosse pronunciado na noite de sábado. alguém comum. não no contacto. não no afecto. mas comum nos caminhos que a vida insiste em trilhar. beijinhos...

Lord of Erewhon disse...

Não me vou pronunciar sobre as situações concretas, dessas tu saberás... Mas se aceitarmos que a vida é um repetido vazio que persistimos em preencher - com filosofias e bolos, pesadelos e sonhos -, então escrever é sempre partir de um nada. A grande escrita é fazer desse nada - tão simbólico na alvura do papel - um tudo... E que bem que tu o fazes!
Mas uma coisa tens ainda de entender antes de te considerares escritora (e tens tudo para o ser): é entenderes que a Literatura nada quer saber da tua vida, das tuas particularidades, dos teus sucessos e falhanços... mas a vida - a tua, porque das outras apenas adivinhas - é a matéria com que se constrói a escrita, e esta passa a ser Literatura... se a conseguires elevar a um discurso universal em que todos os seres humanos se possam reconhecer. Ou seja: somos nós, os escribas, que aceitamos não ser, morrer nas palavras, para que estas sejam, sejam algo da altura e perfeição que nunca seremos.
Os escritores são apenas espelhos... mas essa é a sua máxima recompensa!

Dark kiss.